Contrato de Amor e Ódio
9 Capítulo 08
O projetor lançava a imagem da tela inicial contra a parede branca — um retângulo de luz fria que parecia ampliar cada gesto de Bella, cada respiração, cada mínima hesitação. A claridade artificial desenhava sombras duras pela sala, como se não houvesse espaço para erro. Como se qualquer falha, qualquer tremor, qualquer palavra mal colocada pudesse ser exposta com crueldade.
Bella mantinha as mãos apoiadas na mesa, os dedos levemente abertos. Não era uma postura profissional. Era contenção. Uma tentativa silenciosa de ancorar o próprio corpo, de esconder o tremor quase imperceptível que insistia em denunciá-la. Sentia o coração bater rápido demais, alto demais, como se o som pudesse atravessar o silêncio da sala.
Do outro lado da mesa, os clientes — dois sócios de meia-idade, recém-proprietários de um café no centro da cidade — observavam atentos. Os corpos inclinados para a frente, os cotovelos próximos à mesa, os olhos presos à tela com curiosidade genuína. Havia expectativa ali. Interesse real.
À direita, sentada com as pernas cruzadas e os braços rigidamente apoiados no colo, Jessica Stanley acompanhava tudo em absoluto silêncio. O semblante da chefe era uma superfície lisa demais para permitir leitura. Nem aprovação. Nem reprovação. Apenas vigilância. Um olhar que não acolhia nem afastava — apenas media, pesava, julgava.
Bella respirou fundo. Sentiu o ar entrar devagar, preencher os pulmões e puxá-la de volta para dentro do próprio corpo. E começou.
— A proposta da nova identidade visual parte da ideia de acolhimento e memória — ela explicou, avançando os slides com uma segurança que não vinha da tranquilidade, mas da prática. — Um café que remete à rotina, mas também à pausa. Um espaço familiar, sem ser óbvio. Reconhecível, sem ser previsível.
À medida que falava, algo dentro dela se rearranjava. As imagens surgiam na tela — aplicações da marca, estudos tipográficos, variações cromáticas pensadas para diferentes momentos do dia — e o nervosismo inicial cedia lugar a algo mais firme. Mais denso. Concentração. Presença. Pertencimento. Ali era o território dela. Entre conceitos visuais, hierarquia de informação e decisões cromáticas, Bella tinha controle. O mundo fazia sentido. As regras eram claras. O resultado dependia de escolhas técnicas, não de contratos obscuros, expectativas veladas ou jogos de poder disfarçados de oportunidade.
Quando finalizou a apresentação, o último slide permaneceu alguns segundos projetado, como um ponto final bem colocado. O silêncio que se seguiu não foi desconfortável.
Foi de absorção. Os clientes se inclinaram ainda mais para a frente, trocando olhares animados.
— Isso é exatamente o que imaginávamos — disse um deles, abrindo um sorriso sincero. — Na verdade… é melhor do que imaginávamos.
— O uso das cores é perfeito — completou o outro. — Tem personalidade, mas não afasta. Dá vontade de entrar no café só de olhar.
O sorriso que surgiu no rosto de Bella foi pequeno, contido — mas absolutamente real.
Não aquele sorriso treinado para reuniões. Nem o automático, usado por sobrevivência. Era um sorriso de quem, por alguns segundos, reconhecia o próprio valor sem precisar que ninguém o validasse por obrigação.
— Fico muito feliz em ouvir isso.
Jessica pigarreou. Um som seco, calculado. Não interrompeu de fato, mas deixou claro que continuava ali. Atenta. Medindo. Impedindo que aquele breve momento de satisfação pertencesse apenas a Bella.
Os clientes trocaram mais algumas impressões técnicas, fizeram perguntas pontuais, discutiram prazos. Ao final, um deles assentiu com convicção.
— Pode seguir com a execução. Vamos fechar com a agência. Queremos exatamente isso para a inauguração.
O acordo foi selado ali, com apertos de mão e comentários satisfeitos. Profissional. Objetivo. Concluído.
Foi só então que aconteceu. Um dos clientes, já recolhendo a pasta, franziu a testa e inclinou levemente a cabeça, observando Bella com uma atenção diferente. Menos profissional. Mais curiosa. Mais pessoal.
— Desculpe a indiscrição — ele começou —, mas… você não é a noiva do Edward Cullen?
O estômago de Bella afundou. Foi como se alguém tivesse puxado um tapete invisível sob seus pés, arrancando-a abruptamente daquele espaço seguro que havia construído com tanto esforço.
Claro que sou, ela pensou, com uma ironia amarga. Como se ainda houvesse alguma chance de não ser reconhecida agora. O corpo reagiu antes da mente. O sorriso educado surgiu automático, moldado por anos de contenção.
— Sim — Bella respondeu, neutra. — Eu sou.
— Imaginei! — o homem riu, satisfeito por confirmar a suspeita. — Vi as fotos ontem à noite. Vocês formam um belo casal.
Bella conteve o impulso imediato de revirar os olhos.
— Obrigada.
— A família Cullen parece ser composta por pessoas realmente admiráveis — acrescentou o outro cliente, com entusiasmo genuíno. — Deve ser um orgulho enorme fazer parte disso agora. Desejo a você um casamento muito feliz. E duradouro.
As palavras pousaram pesadas. Bella assentiu, sentindo aquele comentário se acomodar no peito de um jeito incômodo. Pessoas admiráveis. Especialmente quando esmagam empresas familiares, compram silêncio e transformam vidas inteiras em cláusulas contratuais.
— Agradeço os votos — Isabella respondeu, mantendo a postura impecável.
A voz firme por fora. Tensa por dentro. Jessica aproveitou a deixa para encerrar a reunião.
— Muito bem — ela disse, em um tom mais alto do que o necessário. — Agradecemos a presença de vocês. Nossa equipe dará continuidade ao projeto conforme alinhado.
Após as despedidas e a saída dos clientes, o silêncio na sala mudou de natureza. Não havia mais plateia. Apenas tensão crua. Bella fechou o notebook com cuidado excessivo. Reuniu os materiais. Então, antes que pudesse se convencer a adiar mais uma vez, virou-se para a chefe.
— Já que o planejamento foi definido — ela disse —, preciso informar que ficarei fora por uma semana.
Jessica ergueu o olhar lentamente. Estreitou os olhos.
— Como é?
— Uma semana — repetiu Bella, sem vacilar. — Tenho compromissos pessoais previamente agendados.
— E desde quando você decide isso sozinha? — retrucou Jessica, o tom afiado, quase desafiador.
O sangue de Bella ferveu, mas o rosto permaneceu impassível.
— Desde que completei mais de um ano sem tirar férias — ela respondeu. — Desde o penúltimo semestre, para ser exata.
O silêncio que se seguiu foi espesso. Denso. Cheio de tudo o que nunca era dito naquela sala. Jessica abriu a boca. Fechou. Inspirou fundo.
— Muito bem — ela disse por fim, seca. — Uma semana.
Bella sustentou o olhar, o coração batendo rápido demais. Havia uma pequena parte dela que mal conseguia acreditar que havia conseguido driblar Jessica Stanley.
— Mas não pense que isso vai sair de graça — acrescentou a chefe, inclinando-se para a frente. — Quando voltar, o volume de trabalho será o dobro. Não vou reorganizar a agência por causa da sua vida pessoal.
Bella assentiu, sem hesitar.
— Não espero que reorganize nada — ela respondeu, com uma calma que não pedia permissão. — Dou conta.
Jessica fez um gesto impaciente com a mão.
— A reunião está encerrada.
Enquanto as luzes do projetor se apagavam e a sala retomava sua neutralidade fria, Bella recolheu seus pertences em silêncio. Dentro dela, algo raro começava a se firmar.
Não era alívio. Muito menos vitória. Era a sensação sutil — e poderosa — de que, mesmo cercada por pressões, expectativas e papéis que não escolhera, ainda conseguia, vez ou outra, tomar as rédeas da própria vida.
~*~
Isabella fechou o zíper da mala com mais força do que o necessário. O estalo metálico rasgou o ar do quarto como um golpe seco — agressivo, ríspido, quase satisfatório. Não foi suficiente para dissipar a irritação que fervilhava em seu peito, mas ainda assim era indispensável. Era o máximo de violência que se permitia naquele momento.
A única forma segura de extravasar sem quebrar nada além da própria paciência. A cada dobra de roupa, a cada peça empurrada para dentro do compartimento já apertado, uma nova praga escapava de seus pensamentos. Algumas murmuradas entre os dentes, abafadas pelo ranger do zíper e pelo atrito do tecido. Outras apenas mentalizadas — todas meticulosamente direcionadas a cada geração conhecida e desconhecida da família Cullen.
— Maldita seja a primeira pedra que fundou esse império… — ela resmungou, socando um casaco pesado entre duas blusas com mais brutalidade do que o tecido merecia. — E maldito seja você, Edward Cullen.
O nome saiu carregado. Denso. Como se pronunciá-lo exigisse um esforço físico. Como se cada sílaba tivesse peso suficiente para afundar no estômago.
Bella respirou fundo, fechou os olhos por um segundo e passou a mão pelo rosto, tentando recuperar algum controle. Inútil. A raiva ainda estava ali, quente, pulsante, misturada a algo mais difícil de admitir: ansiedade.
Quando o relógio do celular vibrou discretamente e marcou 16h em ponto, ela já estava pronta. Casaco vestido, mochila pendurada no ombro, mala posicionada ao lado da porta. Pontualidade sempre fora uma das poucas coisas que ninguém conseguira lhe tirar — nem mesmo aquele mundo que insistia em dobrá-la.
Charlie aguardava próximo à porta, as mãos enfiadas nos bolsos da calça, o corpo rígido demais para alguém que fingia normalidade. Ele a observava como se ela estivesse prestes a embarcar para uma guerra. E, em algum nível incômodo, Bella sabia que aquela comparação não era tão exagerada assim.
O silêncio entre os dois era carregado de coisas não ditas.
Então, o ronco baixo de um motor atravessou o ambiente. Bella se aproximou da janela quase por reflexo. O carro preto estacionou com precisão cirúrgica em frente ao prédio.
Impecável. Silencioso. Intrusivo. Como tudo que vinha daquela família.
— Ele chegou — disse Bella, desnecessariamente, como se nomear o inevitável pudesse torná-lo menos real.
Charlie seguiu seu olhar e estreitou os olhos. O maxilar travou.
Se o seu pai tivesse uma espingarda agora…, pensou Bella, Edward Cullen não estaria estacionando coisa nenhuma aqui.
— Bom… — Charlie pigarreou, a voz mais áspera do que gostaria. — Se cuida, Bells.
Ela se aproximou e o abraçou. Um abraço mais longo do que pretendia.
Charlie pousou a mão firme em suas costas, protetor, como se ainda pudesse impedir qualquer coisa apenas mantendo-a ali. Como se pudesse segurá-la longe daquele mundo. Longe dele.
— É só uma viagem — ela mentiu, forçando um meio sorriso que não enganou ninguém.
— Sei — respondeu ele, sem acreditar. — Boa viagem.
O olhar que Charlie lançou para Edward, do outro lado da rua, não tinha nada de cordial. Era um aviso silencioso. Um lembrete claro de que aquela confiança nunca fora concedida — e de que tudo o que a família Cullen fizera com os Swan jamais fora esquecido. Muito menos perdoado.
Edward saiu do carro com a mesma elegância controlada de sempre. Paletó impecável, postura reta, expressão neutra demais para ser confortável. Aproximou-se sem pressa, como se aquele pequeno embate silencioso não tivesse importância alguma.
— Sr. Swan — ele cumprimentou, educado demais para soar sincero.
Charlie apenas assentiu, rígido, murmurando algo inaudível que certamente não era um cumprimento amigável.
Edward pegou a mala de Bella sem pedir permissão e a colocou no porta-malas com um movimento eficiente, automático.
Aquilo — o gesto simples, funcional — irritou-a mais do que deveria. Como se até as coisas dela já não lhe pertencessem completamente. Como se ele estivesse sempre um passo à frente, decidindo, assumindo, tomando.
Bella entrou no carro sem olhar para trás e bateu a porta com força excessiva. O som seco ecoou no interior luxuoso do veículo com uma satisfação breve, quase infantil. Ela não olhou para o prédio. Não olhou para Charlie na janela. Não olhou para Edward quando ele ocupou o banco do motorista com a mesma calma irritante de sempre.
O veículo começou a se mover quase sem som. Por alguns segundos, existiram apenas o ronco baixo do motor, a cidade ficando para trás e a respiração contida de Bella enquanto tentava não pensar em tudo o que estava prestes a acontecer.
Edward foi o primeiro a falar.
— Acho que seu pai não gosta muito de mim.
Bella virou o rosto devagar.
— Você acha? Que percepção brilhante... imagino que os anos de experiência empresarial tenham ajudado.
Ele manteve os olhos na rua, impassível.
— Agora entendo de onde vem essa sua delicadeza.
— E eu entendo de onde vem a sua arrogância. Deve ser hereditária também...
Um canto da boca dele quase se moveu em um sorriso tímido. Quase. E Bella odiou ter reparado. Ela cruzou os braços e se recostou no banco, encarando pela janela os prédios que passavam em borrões cinzentos. Queria controlar a respiração, o ritmo do coração, a raiva que ainda vibrava sob a pele. Queria fingir que aquilo era apenas mais uma obrigação desagradável, uma etapa temporária do acordo. Mas havia uma mala no porta-malas. Havia um anel em seu dedo. E havia Edward Cullen ao seu lado, levando-a para algum lugar que ele sequer se dera ao trabalho de explicar decentemente.
— Para onde exatamente estamos indo? — Bella perguntou, sem desviar os olhos da janela.
— Itália.
A resposta veio seca. Bella virou a cabeça de imediato.
— Itália?
— Florença primeiro. Depois seguimos para Volterra.
Ela piscou, como se a palavra precisasse de alguns segundos para ganhar sentido.
— Você está brincando.
— Não costumo brincar.
— Claro que não. Isso exigiria uma alma, algo que você não tem.
Edward respirou fundo pelo nariz, mas não retrucou. Bella se virou completamente para ele, a irritação ganhando corpo.
— Você pretendia me avisar quando? Quando estivéssemos atravessando o oceano?
— As informações foram encaminhadas para o seu e-mail.
— Ah, sim. O oráculo moderno da minha vida. E-mails da Cullen Enterprises. Que privilégio.
— É uma conferência empresarial — Edward disse, o tom ficando mais firme. — Organizada pelos Volturi, em uma propriedade da família nos arredores de Volterra. Haverá investidores, chefes de conglomerados europeus, representantes de fundos internacionais, parceiros estratégicos e possíveis acordos de expansão. Sua presença é necessária.
Necessária. Bella sentiu a palavra se enroscar no peito. Não convidada. Não consultada. Necessária. Como uma assinatura no rodapé de um contrato. Como uma cláusula. Como um acessório com função definida.
— Minha presença — ela repetiu, com um riso baixo e amargo. — Ou a presença da sua noiva conveniente?
Edward olhou para ela por um segundo.
— Neste momento, as duas coisas são a mesma.
A resposta a silenciou. Não porque ela aceitasse. Não porque concordasse. Mas porque a raiva, às vezes, era tão grande que perdia forma. Tornava-se algo pesado, bruto, impossível de transformar em palavras.
Bella voltou a olhar pela janela e apertou os dedos contra o próprio braço. A cidade continuava ali, indiferente. Pessoas atravessavam faixas de pedestres. Cafeterias estavam abertas. Carros buzinavam. Vidas comuns seguiam sem saber que a dela parecia se desfazer em camadas.
Itália. Florença. Volterra. Volturi.
Tudo aquilo soava absurdo demais, distante demais, dramático demais para caber em sua realidade. Sua primeira viagem internacional não vinha com entusiasmo, nem fotos, nem mapas, nem aquela sensação bonita de descoberta que outras pessoas pareciam ter.
Vinha com um contrato. Com mentiras. Com Edward Cullen.
E com os Volturi...
O nome deles, mesmo antes de Bella conhecê-los, tinha peso. Não o peso espalhafatoso dos novos ricos, nem a ostentação vulgar de quem precisava provar alguma coisa. Os Volturi eram mencionados no mundo empresarial com um tipo diferente de cuidado. Como se fossem menos uma família e mais uma instituição. Como se atravessassem gerações acumulando não apenas riqueza, mas influência, favores, dívidas e silêncios.
Ninguém simplesmente fazia negócios com os Volturi. Era admitido em sua presença.
O trajeto até o aeroporto foi consumido por um silêncio quase agressivo. Edward alternava entre dirigir, atender ligações curtas pelo viva-voz e verificar mensagens sempre que o carro parava. Nomes, números e prazos surgiam e desapareciam da conversa como peças de um tabuleiro que Bella não conseguia enxergar por inteiro.
Ela observava seu reflexo no vidro escuro. Ao lado dele, parecia uma intrusa. Uma mulher comum demais para aquele carro, aquele acordo, aquela viagem, aquela conferência para homens e mulheres que provavelmente aprenderam a transformar poder em linguagem antes mesmo de aprenderem a pedir desculpas. Isabella baixou os olhos para o anel em sua mão, o diamante devolveu a luz com uma frieza insolente, como se discordasse dela. Como se dissesse: agora você pertence a esse cenário.
Quando o carro acessou uma área reservada do aeroporto, Bella já sabia que não deveria se surpreender. Ainda assim, surpreendeu-se.
O hangar privado surgiu discreto, sofisticado e silencioso, longe do movimento comum dos terminais. Um jatinho aguardava na pista, reluzente sob a luz pálida da tarde, com o emblema da Cullen Enterprises estampado na lateral. Funcionários uniformizados se moviam com precisão quase coreografada. Nada era apressado. Nada era casual. Até o ar parecia mais caro ali.
— É claro — ela murmurou. — Porque voar com pessoas comuns seria uma humilhação irreparável.
Edward desligou o carro.
— Você consegue transformar tudo em acusação.
— E você consegue transformar tudo em demonstração de poder. Estamos quites.
Ele a encarou por um instante mais longo do que o necessário.
— Isso não é poder, Swan. É logística.
Bella soltou uma risada seca.
— Um dia você ainda vai perceber que essa palavra não absolve tanta coisa quanto imagina.
Edward não respondeu. E aquilo, de alguma forma, pareceu uma pequena vitória.
A bordo, o silêncio era ainda mais refinado. Poltronas claras, madeira polida, luz suave, funcionários discretos demais para parecerem reais. Tudo parecia caro não pelo excesso, mas pela ausência de qualquer imperfeição. Não havia nada fora do lugar. Nenhum ruído desnecessário. Nenhum objeto que não tivesse sido escolhido, aprovado, comprado e posicionado com intenção.
Bella sentou-se e prendeu o cinto com força desnecessária. A mochila ficou aos seus pés, simples, gasta, familiar. Seu último pedaço de realidade naquele cenário absurdo.
Edward se acomodou à frente, abriu o tablet e desapareceu atrás de gráficos, relatórios e e-mails. Bella o observou por alguns segundos. O rosto sério. A concentração absoluta. A maneira como ele parecia mais confortável diante de números do que diante de qualquer sentimento humano. Depois desviou o olhar.
Quando o avião começou a se mover, Bella fechou os olhos. O corpo inteiro entendeu antes dela. A partir daquele momento, não havia mais volta.
~*~
A Itália apareceu primeiro como luz. Não como um país. Não como um destino. Não como o cenário dourado que tantas pessoas sonhavam conhecer ao menos uma vez na vida.
Para Isabella Swan, depois de horas de voo, silêncio, cansaço e pensamentos se repetindo com crueldade metódica, a Itália surgiu pela janela do jatinho como uma claridade líquida derramada sobre a paisagem. Um dourado antigo, quase indecente, espalhado sobre colinas, telhados e campos como se o mundo lá embaixo tivesse sido pintado com uma paciência que já não existia em nenhum lugar.
O jatinho pousou em Florença sob um céu que parecia pertencer a outro tempo — mais amplo, mais antigo, talvez menos cruel.
Ou talvez apenas cruel de um jeito mais bonito.
Quando a porta da aeronave se abriu, o ar frio tocou o rosto de Bella com uma delicadeza inesperada. Ela havia se preparado para muitas coisas naquela viagem: constrangimento, mentiras, olhares curiosos, o peso constante da presença de Edward Cullen ao seu lado. Não tinha se preparado para sentir o cheiro da Itália antes mesmo de pisar nela.
Havia terra úmida no ar. Combustível distante. Vegetação. Pedra aquecida por um sol que começava a ceder ao fim da tarde. Algo mineral e antigo, como se até o vento tivesse memória.
Bella inspirou devagar. Por um instante mínimo e perigoso, algo dentro dela se moveu. Não esperança. Ela não era ingênua o bastante para chamar aquilo de esperança. Mas uma fissura. Uma rachadura fina na armadura que vinha usando desde que aceitara aquele acordo absurdo com Edward.
Era sua primeira vez fora do país. E ela estava ali não por escolha, não por aventura, não por desejo, mas como parte de uma encenação cara demais, complexa demais, perigosa demais para ser chamada simplesmente de mentira.
Florença surgiu em fragmentos durante o trajeto inicial. Fachadas antigas. Ruas estreitas. Tons de terracota, pedra clara e sombra azulada. Motocicletas cortando o trânsito com uma pressa quase suicida. Turistas arrastando malas. Casais parados nas esquinas. Placas em italiano que Bella não conseguia traduzir rápido o suficiente.
Ao longe, o contorno de uma cúpula recortava o céu, imensa e serena, como se tivesse assistido a todos os tipos de erros humanos e aprendido a não se impressionar com nenhum deles.
Bella encostou a testa de leve no vidro do carro. Florença passava por ela como um filme sem som. Bela demais. Viva demais. Inalcançável demais. Ela atravessaria uma das cidades mais bonitas do mundo como quem atravessa um corredor. Sem tempo. Sem liberdade. Sem escolha.
— Você está olhando como se nunca tivesse visto a Itália antes — Edward comentou, sem tirar os olhos do celular.
A voz dele quebrou o silêncio do carro com a mesma precisão com que ele fazia tudo: sem esforço, sem calor, sem pedir licença.
Bella não se mexeu.
— Porque eu nunca vi a Itália antes.
A resposta saiu mais baixa do que ela pretendia. Mais verdadeira também.
Por um segundo, Edward ergueu os olhos da tela. Não muito. Apenas o suficiente para que ela sentisse o peso rápido da atenção dele.
— Nunca?
Bella virou o rosto, afastando a testa do vidro.
— Nem todo mundo cresce com o mundo servido em bandeja de prata, Cullen.
O silêncio voltou. Dessa vez, menos cortante.
Edward não respondeu. Talvez porque não houvesse resposta educada para aquilo. Talvez porque, pela primeira vez desde que haviam embarcado, ele tivesse se lembrado de que ela não pertencia ao mundo dele. Não de verdade. Não àquele mundo de jatinhos particulares, motoristas aguardando na pista, contratos assinados em salões históricos e conferências para empresários que usavam sobrenomes como brasões.
Ou talvez ele simplesmente tivesse escolhido ignorá-la. Bella preferia essa opção. Era mais fácil odiá-lo quando ele permanecia exatamente como ela esperava.
Depois de Florença, a estrada se abriu para a Toscana. As colinas ondulavam sob a luz do fim de tarde como corpos adormecidos sob um lençol dourado. Vinhedos se alinhavam em fileiras perfeitas, disciplinados demais para parecerem naturais. Ciprestes surgiam finos e escuros, marcando o horizonte como sentinelas antigas. Casas de pedra apareciam isoladas no alto dos montes, com telhados de barro e janelas pequenas, como se tivessem sido deixadas ali por séculos e simplesmente se recusassem a desaparecer.
A paisagem era bonita demais. E isso a irritava. Porque nada dentro dela estava bonito. Nada dentro dela estava em paz. A beleza ao redor não combinava com o nó em sua garganta, com o cansaço preso atrás dos olhos, com o peso do anel em seu dedo. Não combinava com a sensação de estar sendo levada para um jogo cujas regras todos pareciam conhecer, exceto ela.
Edward continuava trabalhando ao seu lado, respondendo mensagens, analisando documentos, franzindo levemente a testa para números e nomes que Bella não conhecia. Para ele, aquela estrada era apenas um intervalo entre compromissos. Um deslocamento. Um detalhe logístico antes da Conferência dos Volturi.
Para Bella, era uma travessia.
Cada quilômetro a afastava um pouco mais da mulher que ela havia sido antes de aceitar aquela proposta. Uma mulher cansada, sim. Endividada, talvez. Pressionada, certamente. Mas ainda dona da própria vida em alguma medida pequena, teimosa e miserável. Agora, nem isso parecia garantido.
Aos poucos, Volterra apareceu ao longe.
A cidade se erguia sobre a colina como uma advertência. Muralhas antigas cercavam construções em pedra. Tons de ocre, cinza e marfim se misturavam à luz dourada, e tudo parecia compacto, severo, fechado em si mesmo.
Não havia ali a leveza turística que Bella vira em Florença. Não havia convite. Não havia promessa. Volterra não parecia receber. Parecia julgar.
Um arrepio subiu pela nuca dela antes que pudesse impedir.
— É lá? — ela perguntou, quase contra a própria vontade.
Edward olhou pela janela.
— Volterra.
A forma como ele disse o nome não ajudou.
Não havia admiração. Não havia encantamento. Havia reconhecimento. Cautela, talvez. Um respeito frio, quase contrariado, que Bella não esperava ouvir na voz de Edward Cullen.
Ela não gostou de perceber isso.
O carro, porém, não entrou na cidade. Contornou as muralhas e seguiu por uma estrada mais estreita, ladeada por ciprestes altos. O caminho subia em curvas lentas, afastando-os do movimento, das ruas, das pessoas. Em poucos minutos, o mundo pareceu diminuir ao redor deles. O asfalto deu lugar a um caminho de cascalho, e as pedrinhas começaram a estalar sob os pneus com um som seco e irregular.
Bella endireitou-se no banco.
— Achei que a conferência fosse em Volterra.
— Nos arredores — Edward explicou. — A propriedade dos Volturi fica fora da cidade.
— Propriedade — ela repetiu, desconfiada. — Você fala como se estivéssemos indo para uma reunião em um castelo.
Edward finalmente guardou o celular. Esse gesto, simples e silencioso, contraiu algo no estômago dela.
— Não está tão longe disso.
Bella virou o rosto para ele.
— Isso deveria me tranquilizar?
— Não.
A sinceridade foi pior do que qualquer tentativa de mentira.
Pouco depois, os portões apareceram. Altos, negros, trabalhados em ferro pesado, presos a pilares largos de pedra antiga cobertos por hera escura. Não pareciam apenas marcar a entrada de uma propriedade. Pareciam separar mundos.
Do lado de fora, ainda havia a Toscana: o céu, os vinhedos, a luz dourada, uma beleza ampla o bastante para enganar os desavisados. Do lado de dentro, Bella teve a impressão imediata de que haveria regras mais antigas que contratos.
Dois homens aguardavam ao lado da entrada, vestidos em ternos escuros. Permaneciam imóveis demais para parecerem simples seguranças. A postura rígida, os rostos impassíveis e a maneira como observavam o carro antes mesmo que ele parasse fizeram Bella sentir que estavam sendo examinados muito antes de receberem permissão para entrar.
O motorista abaixou o vidro e falou rapidamente em italiano.
Um dos homens conferiu uma lista presa a uma prancheta de couro. O outro se inclinou levemente, atento aos passageiros no banco traseiro.
Primeiro Edward. Depois Isabella. O olhar dele demorou um segundo a mais sobre o anel na mão dela. Não foi admiração. Não foi curiosidade inocente. Foi reconhecimento. Como se aquele diamante não fosse uma joia, mas uma credencial. Bella sentiu os dedos se contraírem no colo.
Então os portões se abriram. Lentamente. O ferro rangeu em um som grave, arrastado, quase cerimonial. Como se a propriedade não estivesse apenas permitindo a entrada deles, mas registrando sua chegada.
A estrada interna era longa, ladeada por ciprestes perfeitamente alinhados. As árvores altas se erguiam dos dois lados do caminho, escuras e rígidas, conduzindo o carro para dentro daquele território com uma solenidade que apertou o peito de Bella.
Ela odiou a sensação de estar sendo conduzida. Odiou mais ainda não saber se Edward sentia o mesmo.
À medida que avançavam, a propriedade surgiu aos poucos. Primeiro como sombra entre as árvores. Depois como forma. Depois como imponência.
Bella esqueceu de respirar. A propriedade dos Volturi dominava a encosta como se pertencesse à paisagem desde antes da própria estrada existir. Era uma construção secular de pedra clara, envelhecida em tons de mel, cinza e marfim, marcada por arcos profundos, janelas altas, sacadas estreitas de ferro escuro e uma torre lateral baixa que parecia vigiar os campos ao redor.
Trepadeiras cobriam parte da fachada, subindo pelas pedras como veias antigas. O telhado de terracota descia em diferentes níveis, acompanhando o corpo irregular da construção, como se a residência tivesse crescido ao longo dos séculos em camadas de poder, herança e segredo.
No pátio frontal, fontes de mármore murmuravam entre jardins geométricos. A água deslizava sobre figuras esculpidas já suavizadas pelo tempo, produzindo um som delicado demais para aquele lugar. Estátuas antigas surgiam entre ciprestes e oliveiras, algumas parcialmente cobertas por musgo, outras iluminadas por lanternas de ferro que começavam a acender com o crepúsculo.
Ao fundo, vinhedos se estendiam até onde a vista alcançava. Mais além, as colinas da Toscana afundavam em uma luz dourada, quase líquida, como se o mundo inteiro estivesse sendo lentamente engolido por ouro antigo.
Era bonito. Era magnífico. Era sufocante. Bella sentiu-se pequena. Não frágil. Não exatamente. Pequena. Como se tivesse sido reduzida ao tamanho exato que aquele mundo esperava dela. Como se a própria propriedade tivesse sido construída para lembrar visitantes como ela de que poder verdadeiro não precisava erguer a voz. Bastava permanecer de pé por séculos.
O carro parou diante da escadaria principal.
Havia outros veículos ao redor: carros esportivos discretos, blindados, motoristas alinhados, convidados em roupas impecáveis, assessores com tablets e pastas de couro, taças de vinho já em mãos. Conversas baixas flutuavam no ar, misturadas ao som da água das fontes e ao cheiro de cipreste, terra fria e lareira distante.
A conferência já havia começado.
E Bella teve a sensação horrível de que todos ali conheciam seu papel antes mesmo que ela o compreendesse.
Edward saiu primeiro. Naturalmente. Com ele, tudo parecia natural. O terno escuro ajustado ao corpo, a postura impecável, o controle no rosto, a frieza elegante de quem havia nascido sabendo onde colocar as mãos, como inclinar a cabeça, quanto tempo sustentar um olhar.
Bella o odiou um pouco por isso.
Quando ela desceu, o tênis tocou o cascalho e quase vacilou. O som das pedrinhas sob seus pés pareceu alto demais. Inadequado demais. Ela se firmou rápido, erguendo o queixo antes que alguém pudesse notar.
Não era o salto elegante de uma herdeira. Não era a postura natural de alguém acostumado a mansões históricas, conferências internacionais e famílias tratadas com reverência quase monárquica. Era ela. Isabella Swan. Uma mulher comum tentando não parecer deslocada em um cenário feito para engolir pessoas como ela.
Edward se aproximou o suficiente para falar apenas com ela.
— A partir daqui, cuidado com o que diz.
Bella sorriu sem alegria.
— Engraçado. Eu estava prestes a te dar o mesmo conselho.
— Os Volturi não são como outros investidores.
— Ótimo. Porque eu já estava achando essa viagem confortável demais.
O olhar dele encontrou o dela, frio e sério.
— Estou falando de verdade, Bella.
O uso do apelido a pegou desprevenida por um segundo. Não pela suavidade. Edward Cullen não fazia nada com suavidade, mesmo quando parecia tentar. Mas havia algo na voz dele que não soava como ordem. Soava como aviso. E talvez como receio.
Isabella não gostou disso.
Não queria imaginar Edward com receio. Não queria conceder a ele esse tipo de humanidade. Era muito mais fácil vê-lo como o homem arrogante que havia transformado a vida dela em cláusula contratual. Como o empresário impiedoso que achava que poderia comprar aparências, silêncios e alianças com a mesma naturalidade com que comprava empresas e destruía negócios familiares.
Mas, naquele instante, diante da propriedade dos Volturi, Edward parecia menos confortável do que deveria. E isso assustava Bella.
Antes que pudesse responder, uma voz masculina surgiu do alto da escadaria.
— Edward Cullen.
Bella ergueu os olhos.
Aro Volturi descia os degraus com a calma de quem não precisava se apressar para ser esperado. Vestia um terno escuro impecável, mas havia nele uma elegância antiga, quase cerimonial, como se o mundo moderno fosse apenas uma conveniência passageira. O sorriso largo parecia caloroso à distância. De perto, tornava-se outra coisa. Mais afiado. Mais perigoso.
Atrás dele, Marcus observava em silêncio, os olhos pesados, a expressão marcada por um tédio quase aristocrático. Ele parecia um homem que já havia perdido o interesse por tudo, inclusive pelas próprias visitas. Ainda assim, havia em sua presença uma gravidade estranha, um tipo de autoridade quieta que não precisava disputar espaço.
Caius permanecia junto à porta principal, rígido, pálido sob a luz dourada das lanternas. O olhar claro e cortante estava fixo neles como uma lâmina à espera de motivo.
Bella não gostou de nenhum dos três. Não de forma racional. Mas de modo instintivo. O corpo reconhecendo perigo antes que a mente organizasse argumentos.
Ao redor, porém, ninguém parecia desconfortável. Pelo contrário. Os convidados próximos endireitaram a postura. Vozes baixaram. Cabeças se inclinaram em cumprimento. Até homens que Bella reconheceu vagamente de revistas de negócios pareciam cuidadosos diante dos Volturi, como se estivessem na presença de algo maior que dinheiro.
Aro abriu os braços.
— Bem-vindos à Villa Volturi — ele disse, com uma cordialidade ampla demais. — Espero que a viagem não tenha sido cansativa.
Edward apertou a mão dele.
— Foi tranquila. Agradecemos o convite.
— Ora, Edward, o prazer é nosso. A presença dos Cullen é sempre uma honra.
A frase soou educada. Mas Bella percebeu a diferença. Aro não dizia aquilo como quem oferecia cortesia. Dizia como quem concedia reconhecimento. E, naquele lugar, ser reconhecido pelos Volturi parecia valer mais do que ser rico.
Mas os olhos de Aro já haviam se voltado para Isabella. O sorriso dele se ampliou.
Bella sentiu imediatamente o contraste entre ser vista e ser avaliada. Aro não olhava para ela como uma pessoa. Olhava como quem analisa uma peça rara, uma variável interessante, algo que poderia valorizar — ou comprometer — uma negociação.
— Isabella Swan — disse ele, pronunciando seu nome com uma lentidão calculada. — Finalmente.
Finalmente. A palavra deslizou por sua pele como um toque frio. Bella resistiu ao impulso de olhar para Edward. Não daria a Aro esse prazer. Não pediria confirmação, explicação ou proteção com um gesto involuntário.
— Senhor Volturi — ela respondeu, educada, firme, sem oferecer mais do que o necessário.
O sorriso dele ganhou um brilho de satisfação.
— Aro, por favor. Aqui tentamos manter certa intimidade entre aliados.
Aliados. Bella quase riu.
Aliados não eram levados para propriedades isoladas e observados como peças de um tabuleiro. Aliados não precisavam medir cada palavra, cada expressão, cada respiração. Aliados não tinham seus nomes pronunciados como ameaças embrulhadas em seda.
Mas a mão de Edward tocou sua lombar. Leve. Quase imperceptível. Como um aviso silencioso. E ela odiou entender. Odiou mais ainda obedecer.
— Claro — Bella disse, sustentando o olhar de Aro. — Aro.
Por uma fração de segundo, algo passou pelo rosto dele. Surpresa, talvez. Ou prazer. Como se ela tivesse acabado de fazer exatamente o movimento que ele esperava.
— Encantadora — murmurou ele.
Bella sentiu a mão de Edward ficar um pouco mais firme em suas costas.
Aro percebeu. É claro que percebeu.
— Venham — ele disse, fazendo um gesto em direção à entrada. — Os demais convidados aguardam. Esta semana nos trará decisões importantes, meus caros.
Bella entendeu, então, que ali a reverência não era fingida. Os Volturi não eram apenas anfitriões. Eram o centro gravitacional daquele lugar.
Eles atravessaram a entrada principal.
O interior da propriedade era ainda mais imponente do que a fachada. O salão tinha teto alto com vigas escuras, paredes em pedra e afrescos envelhecidos pelo tempo. Retratos antigos ocupavam molduras douradas nas paredes, rostos severos de gerações passadas dos Volturi observando de cima como juízes silenciosos. Tapeçarias pesadas absorviam parte do som, tornando as conversas mais baixas, mais íntimas, quase conspiratórias.
Lustres de ferro lançavam luz âmbar sobre o piso polido. Em uma lareira enorme, o fogo crepitava baixo, aquecendo o ar com cheiro de madeira queimada, cera de vela e vinho antigo. Havia mesas laterais com arranjos de flores escuras, taças alinhadas, bandejas de prata e funcionários circulando com uma discrição quase fantasmagórica.
Tudo era belo. Tudo era histórico. Tudo parecia cuidadosamente preservado para lembrar a qualquer visitante que os Volturi não haviam comprado poder. Haviam herdado. E herança, naquele mundo, parecia pesar mais do que dinheiro.
Os convidados se voltaram quando Bella e Edward entraram. Conversas diminuíram. Taças pausaram a meio caminho dos lábios. Olhares se moveram com curiosidade afiada. Alguns sorriam. Outros avaliavam. Todos observavam.
Bella sentiu o anel pesar ainda mais em sua mão. Compromisso. Estabilidade. Imagem. Cada palavra do acordo retornou como uma corrente invisível.
Edward inclinou-se ligeiramente em sua direção.
— Sorria.
Bella manteve o rosto voltado para a frente.
— Vou fingir que não ouvi.
— Bella...
— Estou sorrindo por dentro.
— Isso não ajuda.
Então ela abriu um sorriso pequeno, educado, impecavelmente falso.
— Melhor?
— Marginalmente.
Por um instante absurdo, Bella quase sorriu de verdade. Quase. E isso foi irritante.
Mais irritante do que o salão, do que os convidados, do que Aro Volturi e sua cordialidade venenosa. Porque, em meio àquela encenação sufocante, Edward ainda conseguia arrancar dela uma reação que não fazia parte do combinado.
Ela não queria naturalidade com ele. Não queria cumplicidade. Não queria que a mentira ficasse fácil.
Foi quando um funcionário se aproximou, impecável em uniforme escuro. Ele não parecia apenas servir à casa; parecia pertencer à sua engrenagem silenciosa, treinado para não ocupar espaço e, ainda assim, saber exatamente tudo o que acontecia ao redor.
— Signor Cullen, signorina Swan — disse ele, com uma inclinação respeitosa. — Seus aposentos estão preparados. Posso acompanhá-los?
Bella sentiu a desconfiança se acender.
— Aposentos?
Edward não olhou para ela.
— Obrigado.
Péssimo sinal.
O funcionário fez uma nova reverência discreta e os conduziu por um corredor longo, iluminado por arandelas antigas. As paredes exibiam retratos de gerações passadas dos Volturi: homens e mulheres de expressão severa, olhos escuros, mãos pousadas sobre livros, espadas, globos e símbolos de poder que atravessavam séculos.
Bella sentiu como se cada rosto a seguisse. Aquele lugar não acolhia. Vigiava.
Subiram uma escadaria larga de pedra, onde o som dos passos se espalhava em ecos baixos. Passaram por um corredor ainda mais silencioso, onde o ar parecia mais frio, e pararam diante de uma porta dupla de madeira escura, entalhada com motivos florais já gastos pelo tempo.
— A suíte dos convidados principais — anunciou o funcionário.
Bella olhou para Edward.
— Suíte?
Ele não respondeu.
A porta foi aberta. O quarto revelou-se amplo, antigo e luxuoso de um modo quase sufocante. Paredes de pedra aparente, cortinas pesadas em tom vinho, móveis escuros entalhados, tapetes orientais sobre o piso frio, uma lareira apagada e janelas altas que davam para os jardins formais da propriedade. Ao longe, as colinas da Toscana afundavam no crepúsculo, suaves e douradas, como se nada ali pudesse ser ameaçador.
Era lindo. Intimidadoramente lindo.
E, no centro do quarto, como um golpe baixo cuidadosamente calculado, havia uma cama de casal enorme.
Apenas uma...
Bella sentiu o chão desaparecer por um segundo.
O funcionário depositou as malas com discrição, como se não tivesse acabado de conduzi-los diretamente para dentro de uma armadilha decorada com linho italiano e móveis antigos.
— O jantar de recepção será servido às vinte horas no salão leste. O senhor Aro solicitou sua presença pontual. A primeira sessão da conferência ocorrerá amanhã pela manhã, na galeria principal. Tenham uma excelente estadia.
A porta se fechou com um clique suave. Silêncio.
Bella permaneceu parada, encarando a cama como se ela fosse um insulto pessoal.
Edward, ao lado dela, não disse nada. E talvez isso fosse ainda pior.
Do lado de fora, o vento moveu os ciprestes, e algum sino distante de Volterra começou a tocar, espalhando pelo ar um som grave, lento, quase solene.
Isabella apertou os dedos ao redor do anel até a borda do metal marcar sua pele.
Volterra poderia ser magnífica.
Mas aquela semana prometia ser um completo desastre.
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