Na manhã seguinte, Isabella chegou à agência mais cedo do que o habitual. O céu permanecia coberto por um cinza espesso, pesado demais para ser apenas clima. Parecia pressionar diretamente seus ombros, ampliando o aperto constante em seu peito — um lembrete físico de tudo o que não conseguira dormir.

Passara a noite em claro. Planilhas rabiscadas em folhas soltas. Valores repetidos, apagados, reescritos. Contas que nunca fechavam, não importava quantas vezes ela reorganizasse os números. Aluguel. Luz. Água. Hospital. Dez dias. As palavras ecoavam como um relógio invisível, marcando uma contagem regressiva que parecia acompanhá-la em cada respiração.

Entre um cálculo e outro, ensaiara pedidos que soavam humilhantes demais até mesmo dentro da própria cabeça. Pedir ajuda sempre fora difícil. Pedir dinheiro, pior ainda. Era como expor uma ferida que ela passara anos tentando esconder sob camadas de orgulho, silêncio e trabalho excessivo.

Ainda assim, precisava tentar.

Parou diante da porta de vidro fosco da sala de Jessica Stanley e respirou fundo, como se estivesse prestes a mergulhar em água gelada. O reflexo distorcido devolveu uma versão pálida de si mesma: olhos fundos, cabelos presos de qualquer jeito, a expressão cansada de quem vinha sustentando o mundo com as mãos nuas.

Bateu uma vez — apenas por protocolo — e entrou.

Jessica estava sentada atrás da mesa ampla, perfeitamente alinhada ao poder que acreditava possuir. A maquiagem impecável contrastava com a rigidez amarga de sua expressão, como se tivesse sido aplicada para esconder algo azedo demais para vir à tona.

O salto fino batia contra o chão num ritmo impaciente, quase agressivo, enquanto ela digitava com força excessiva, descarregando no teclado frustrações acumuladas.

— Precisa de alguma coisa, Isabella? — perguntou sem erguer os olhos, a voz neutra demais para soar cordial.

Bella engoliu em seco. O orgulho ainda tentou impedi-la. Mas perdeu.

— Eu queria conversar sobre meu salário — ela começou, escolhendo cada palavra com extremo cuidado, como quem atravessa um campo minado. — Pelo volume de trabalho das últimas semanas… pelo projeto da Cullen Enterprises… talvez um aumento. Ou ao menos um adiantamento.

O silêncio que se seguiu durou pouco. Mas foi suficiente para fazê-la se sentir exposta.

Jessica soltou uma risada curta e seca, completamente desprovida de humor. Então levantou os olhos. Havia algo cortante ali.

— Aquele trabalho foi uma perda de tempo — a Stanley disparou sem rodeios. — Não me rendeu absolutamente nada do que eu esperava.

Isabella franziu o cenho, sentindo o estômago se contrair.

— Como assim?

Jessica reclinou-se na cadeira e cruzou os braços. O ressentimento escorria de cada gesto, de cada palavra, de cada pausa dramática.

— Não houve estreitamento de laços — ela respondeu. — Nenhuma aproximação. Nenhuma abertura. E, principalmente, não consegui nenhuma atenção de Edward Cullen.

O nome caiu no ar como algo sujo. Deslocado.

Isabella sentiu a irritação subir rápido, ácida, queimando-lhe a garganta. Era sempre assim. Sempre ele. Sempre os Cullen. Mesmo quando ela estava prestes a perder o teto sobre a própria cabeça, de alguma forma aquele sobrenome ainda encontrava um jeito de atravessar sua vida e piorar tudo.

— Mas o evento foi um sucesso — Bella insistiu, a voz mais firme do que se sentia por dentro. — As artes tiveram ótima repercussão. Houve elogios. Eu fiquei noites sem dormir para entregar tudo no prazo.

— Isso não muda nada — Jessica cortou, seca, o tom endurecendo até a crueldade. — Não posso aumentar seu salário. Muito menos adiantá-lo. Infelizmente, não há o que fazer, Isabella.

Infelizmente. A palavra quase arrancou uma risada dela. Não havia nada de infeliz naquela recusa. Jessica não parecia constrangida. Não parecia sequer incomodada. Era apenas mais uma decisão conveniente tomada por alguém que jamais precisaria escolher entre pagar o aluguel ou comprar comida.

Algo ferveu dentro de Bella. O cansaço. A pressão. A humilhação de precisar pedir. A sensação constante de ser sugada até o limite e descartada em seguida.

— Com todo respeito, isso é injusto — ela ousou dizer antes que pudesse se conter. — Eu carreguei aquele projeto praticamente sozinha.

Jessica estreitou os olhos. O olhar afiado como lâmina.

— Não adianta discutir, Isabella.

Ela se levantou abruptamente, encerrando qualquer ilusão de diálogo. Caminhou até um armário, pegou uma pasta grossa e voltou, estendendo-a na direção de Bella com um gesto automático, autoritário.

— E já que estamos falando de trabalho… você vai agora à inauguração daquele restaurante italiano para o qual fez a arte. Ficaram faltando duzentos cardápios na entrega. Leve isso pessoalmente.

Isabella olhou para a pasta. Depois, para Jessica.

— Agora?

— Agora — confirmou a dona da agência sem hesitar. — E trate de não atrasar.

Bella segurou a pasta com força. Os dedos embranqueceram ao redor do papel. Sentiu a resposta atravessar-lhe a língua — afiada, justa, necessária — e engoliu tudo junto. Não podia se dar ao luxo. Ainda havia contas para pagar. Ainda havia Charlie. Ainda havia dez dias.

Ela apenas assentiu. E saiu da sala com o peso da humilhação acomodando-se silenciosamente em seu peito, somando-se a tudo o que já ameaçava ruir.

~*~

O centro de Seattle parecia mais vivo do que nunca naquela manhã. Isabella atravessou a fachada envidraçada do novo restaurante com a pasta pressionada contra o corpo, quase como se aquele gesto pudesse mantê-la ancorada. Bastou um olhar rápido ao redor para sentir o estômago se revirar. Havia movimento demais. Som demais. Gente demais.

O burburinho de conversas animadas misturava-se ao tilintar incessante de taças, ao arrastar elegante de cadeiras e ao clique repetido de câmeras fotográficas. Perfumes caros disputavam espaço no ar com o aroma de massa fresca, azeite, vinho e flores recém-arranjadas.

Celebridades locais, empresários conhecidos, influenciadores, colunistas sociais e rostos familiares de manchetes ocasionais ocupavam o ambiente com naturalidade — pessoas que pertenciam àquele tipo de lugar como se tivessem nascido para ocupar espaços iluminados.

Ela definitivamente não pertencia. Sentiu isso na roupa simples demais. No cansaço marcado no rosto. Nos tênis discretos que destoavam dos saltos finos ao redor. Na pasta apertada contra o corpo como se fosse um escudo pobre diante de tanta sofisticação.

Isabella respirou fundo, controlando o impulso de dar meia-volta. Precisava encontrar Eric Yorkie, entregar os cardápios, confirmar que estava tudo certo e ir embora. Simples. Rápido. Sem se envolver.

Mas não chegou a dar três passos completos. O impacto foi seco e inesperado. Um choque brusco de corpos a fez recuar instintivamente, o tênis deslizando no piso liso. Por pouco não perdeu o equilíbrio.

— Droga! — escapou, mais pelo susto do que pela dor.

— Você está be…

A pergunta veio em voz baixa. Familiar.

Isabella ergueu o olhar. E sentiu o estômago despencar como se tivesse perdido o chão. À sua frente estava um homem alto, envolto em um terno cinza impecável, alinhado com precisão quase excessiva. A postura rígida, a presença dominante, a sensação imediata de obstáculo. E os olhos. Frios. Atentos. Inconfundíveis.

Edward Cullen.

Mais uma vez atravessando sua vida como uma colisão inevitável. Isabella amaldiçoou o azar, a coincidência absurda, o roteiro insistente que parecia empurrá-la sempre para o mesmo ponto de impacto. Havia tantas pessoas naquela cidade, tantos lugares, tantas possibilidades — e ainda assim era ele. Sempre ele.

Edward, por sua vez, encarava-a como se tivesse acabado de esbarrar no próprio caos. Pelo endurecer quase imperceptível do maxilar, parecia pensar exatamente isso.

— O que você está fazendo aqui? — ele perguntou, o tom baixo e cortante, sem qualquer esforço de gentileza.

A pergunta soou menos curiosa e mais acusatória. Como se ela tivesse invadido um território que não lhe pertencia.

Isabella abriu a boca, pronta para responder algo nada educado, quando uma voz conhecida atravessou o espaço entre eles.

— Bella!

Eric Yorkie surgiu entre os dois com um sorriso largo, claramente aliviado.

— Ainda bem que você veio! — disse, pegando a pasta das mãos de Isabella. — Os cardápios chegaram na hora certa. O movimento está muito maior do que eu esperava.

Isabella piscou, precisando de um segundo para reorganizar os pensamentos.

— Fico feliz em ajudar… — Bella respondeu automaticamente.

Eric então se virou para Edward, animado demais para perceber a tensão invisível se acumulando entre eles.

— Vocês se conhecem?

A pergunta pairou no ar por um instante desconfortável. Antes que qualquer um respondesse, Eric continuou:

— Edward, essa é Isabella, responsável pelas artes do restaurante. — Depois apontou casualmente para o homem ao lado dela. — Edward Cullen. Nós estudamos juntos na adolescência.

O silêncio seguinte foi denso. Quase constrangedor.

Isabella forçou uma expressão educada, sentindo o maxilar doer com o esforço. Por dentro, revirava os olhos.

Edward apenas inclinou a cabeça num gesto mínimo e controlado demais. Como se aquele encontro não carregasse nenhuma tensão mal resolvida. Nenhuma acusação dita no escuro de um elevador. Nenhum arranhão em um carro caro. Nenhuma fotografia capaz de alimentar manchetes.

— Prazer — murmurou ela, a palavra completamente vazia.

— O prazer é meu — respondeu ele, no mesmo tom neutro e distante.

Mentira por mentira, pelo menos combinavam nisso.

Isabella já se preparava para fugir dali quando Eric foi mais rápido.

— Ei, não vá embora ainda. Fique um pouco. Experimente alguma coisa, pelo menos. Depois de todo o trabalho, você merece.

Bella hesitou. Olhou para o espaço ao redor. Cada fibra de seu corpo gritava para sair dali. O dia ainda pesava em suas costas. A conversa com Jessica ainda ardia. A ordem de despejo ainda latejava no fundo da mente como uma ferida aberta.

Ainda assim, assentiu. Talvez por cansaço. Talvez porque voltar para a agência parecia igualmente insuportável.

— Só um pouco.

— Ótimo! — Eric comemorou.

Isabella pediu licença e caminhou até o bar improvisado.

Sentia o peso daquele olhar em suas costas — frio, atento, persistente — mesmo sem precisar se virar.

O bar estava cheio. Copos alinhados, garrafas reluzindo sob a iluminação clara da manhã, gelo tilintando em recipientes de metal. Tudo parecia refinado demais para o turbilhão que se acumulava dentro dela. Apoiou-se no balcão e respirou fundo antes de falar.

— Quero algo forte.

O barman arqueou levemente a sobrancelha.

— Alguma preferência?

Ela balançou a cabeça.

— O que tiver mais álcool.

Não era um pedido elegante. Nem completamente impulsivo. Era necessidade. Uma tentativa desesperada de amortecer o peso dos últimos dias. Se não podia consertar nada, se não podia pagar o aluguel, se não podia obrigar Jessica a enxergá-la como alguém além de uma ferramenta útil, ao menos queria silenciar por alguns minutos o barulho dentro da própria cabeça.

O drink chegou pouco depois. Isabella deu um gole generoso. O álcool desceu queimando, áspero, intenso, raspando-lhe a garganta como uma punição bem-vinda. Ela fechou os olhos por um instante, sentindo o calor espalhar-se pelo peito e afrouxar minimamente o nó constante que carregava. Não era alívio. Mas era alguma coisa.

Quando abriu os olhos, encontrou Edward Cullen observando-a do outro lado do restaurante.

Ele não disfarçava. Não fingia estar ocupado. Apenas a encarava com aquela expressão indecifrável que misturava controle e algo perigosamente próximo de atenção genuína.

Isabella levou o copo novamente aos lábios sem desviar o olhar. Bebeu devagar. Deliberadamente. O álcool queimou outra vez. E, junto dele, veio a coragem imprudente. A faísca da raiva que nunca se apagara completamente. Ela sustentou o olhar, os olhos escurecidos, faiscando.

Se Edward Cullen queria observá-la como se ela fosse um problema, Isabella podia muito bem se tornar um.

~*~

O álcool ardia suave na garganta de Bella, aquecendo algo que já estava perigosamente à flor da pele. Ela apoiava o cotovelo no balcão improvisado do bar, o corpo levemente inclinado para frente, como se aquilo a mantivesse de pé. A taça do sétimo drink repousava quase vazia entre seus dedos.

Os movimentos já estavam menos precisos. O ambiente elegante do restaurante começava a se dissolver em fragmentos: luzes quentes demais, risadas altas demais, vozes sobrepostas, rostos borrados, taças brilhando como pequenas lâminas sob a iluminação sofisticada.

A inauguração seguia em pleno ritmo no coração de Seattle.

E Isabella, por alguns minutos perigosos, quase conseguiu esquecer o envelope sobre a mesa da cozinha. Quase...

Foi então que ouviu a conversa ao lado.

— Você viu como ele está hoje? — murmurou uma mulher de vestido vermelho, inclinando-se para a companhia.

— Claro que vi — respondeu o parceiro, girando lentamente o copo de uísque. — Depois de ser trocado daquela forma, não é surpresa.

Isabella manteve o olhar fixo no balcão, fingindo distração. Mas cada palavra atravessava o ar e cravava-se nela com precisão desconfortável.

— A Irina Denali não perdeu tempo — continuou a mulher, venenosa. — Casamento anunciado, jogador famoso… dizem que o Cullen ficou devastado. Aposto que aquela mulher da garagem foi só um consolo barato.

— Uma aventura no escuro — completou o homem com uma risada baixa. — Patético, se quer saber.

O estômago de Isabella se revirou. Não era ciúme. Não era piedade. Era repulsa. Pela facilidade cruel com que transformavam pessoas em histórias convenientes. Pela naturalidade com que reduziam uma mulher desconhecida a uma distração, um corpo sem nome, uma nota de rodapé no orgulho ferido de um homem poderoso.

Ela girou lentamente o corpo e percebeu que não eram apenas aquelas duas vozes.

Havia outros olhares. Disfarçados. Curiosos. Julgadores. Todos convergindo para o mesmo ponto do salão: Edward Cullen.

Ele permanecia próximo a uma das mesas centrais, rodeado por conversas educadas demais. A postura impecável fazia do terno uma armadura sob medida. O rosto continuava frio, quase imune.

Mas Isabella via as fissuras. Os ombros tensos além do necessário. O maxilar travado com força excessiva. A forma como ele erguia a taça sem realmente beber. Ele percebia os sussurros. Percebia os olhares. E, apesar de toda a compostura, aquilo o atingia.

Algo estalou dentro dela. Talvez fosse o álcool. Talvez a raiva antiga. Talvez o cansaço profundo de quem já perdera demais para continuar se preservando. Ou talvez fosse a revolta de ouvir desconhecidos distorcendo uma história que já lhe havia tomado controle suficiente.

Isabella engoliu o resto do conteúdo de uma vez. O líquido desceu queimando, quase agressivo. Deixou a taça sobre o balcão com um estalo leve e respirou fundo.

O coração batia rápido demais.

Quando deu o primeiro passo para longe do bar, percebeu que o corpo se movia antes da razão. À medida que avançava pelo restaurante, o burburinho ao redor pareceu diminuir. Ou talvez fosse apenas sua atenção se estreitando, focando em um único ponto.

Edward a viu se aproximar. Por um segundo, os olhos gélidos encontraram os dela. Algo passou ali. Rápido demais para ser contido. Surpresa. Advertência. Tensão.

— O que você… — ele começou, baixo e sério.

Isabella não deixou que terminasse. Segurou a lapela do terno com firmeza, sentindo o tecido caro sob os dedos. E então o beijou.

O mundo explodiu. O choque foi imediato. Visceral.

Edward ficou imóvel por uma fração mínima de segundo, como se o cérebro tentasse alcançar o corpo. Isabella sentiu aquela hesitação. Sentiu o instante exato em que ele poderia tê-la afastado. Mas não afastou. As mãos dele se fecharam em sua cintura, firmes, puxando-a para mais perto — não com delicadeza, mas como resposta. Como desafio. Como se aquele gesto absurdo tivesse arrancado algo dele também.

O beijo não foi suave. Foi intenso. Desordenado. Carregado de algo bruto, imprudente, impossível de ignorar. O hálito frio de menta de Edward contrastava com o gosto quente e amargo do álcool ainda presente na boca de Bella. A boca dele era firme, exigente, e a proximidade era tão errada que parecia incendiar tudo o que havia entre eles. Raiva. Orgulho. Repulsa. Curiosidade. Uma atração perigosa demais para ser admitida.

Isabella odiou cada segundo em que seu corpo respondeu antes que sua mente pudesse condená-lo. Odiou o calor que subiu pelo peito. Odiou a força das mãos dele em sua cintura. Odiou a forma como, por um instante breve e imperdoável, o mundo pareceu desaparecer.

Então vieram os flashes. Câmeras dispararam em sequência como uma tempestade súbita. Vozes se elevaram. O burburinho explodiu ao redor deles. O momento foi capturado, congelado, multiplicado sob dezenas de ângulos diferentes.

O vice-presidente da Cullen Enterprises e a mulher da garagem. Agora exposta.

Agora identificável. No centro de um escândalo impossível de controlar.