Contra O Tempo
7 Capítulo 7
Não retornamos à festa depois daquilo. Ao invés disso, fomos diretamente aos nossos respectivos quartos. Mal deitei na cama, caí num sono profundo e sem sonhos, e assim foi o fim de semana. Eu continuava preocupada com a visão que eu tivera durante o baile, mas nada mais me ocorrera durante o sábado e o domingo, apesar de eu passar as noites praticamente em claro, repassando aquelas cenas na minha mente e tentando compreende-las. Quando chegou a segunda feira, eu mal conseguia me manter acordada durante a aula.
Enquanto cochilava, o rosto diretamente em contato com a fria superfície da carteira, aconteceu mais uma vez. A visão. Gritos, explosões. Abri os olhos, tentando me livrar das cenas que me atormentavam, mas eu ainda enxergava- as, mesmo com os olhos abertos.
- Srta. Hemfort. — A professora deve ter percebido minha expressão ligeiramente confusa e completamente aterrorizada. — Se você vai dormir na minha aula mais uma vez, era melhor não ter saído do seu dormitório. – A voz dela era dura, e todos em volta começaram a rir de mim.
– Desculpe. – falei, a voz embargada devido ao sono. – Estou com dor de cabeça. – menti. Não queria ter mais problemas com o diretor por causa das minhas costumeiras sonecas durante as aulas.
A professora me olhou, desconfiada, e depois disse:
– Se é esse o problema, então vá até a enfermaria e tome um remédio.
Levantei-me da cadeira sem dizer mais nada e saí depressa da sala de aula.
Corri pelo corredor e desci os andares até chegar ao térreo, mas não fui à enfermaria. Saí para o pátio e me escondi perto da biblioteca.
Minha respiração estava ofegante, por causa da corrida, e também entrecortada, porque aquilo já estava me fazendo entrar em pânico.
Mais ou menos uns cinco minutos depois, o som de passos no calçamento me deixou alerta. Era Aaron, aflito, perguntando o que havia acontecido.
– Como me achou aqui? – perguntei, sem responder a pergunta que ele fizera.
– Saí correndo imediatamente depois que você deixou a sala. Mas eu mal conseguia acompanhar você, e quando chegava ao início de um corredor você já estava descendo as escadas no fim dele. – Ele sorriu, ofegante. – Gosta de correr, hein?
Fiquei em silêncio por um instante. Olhei para cima e encarei seus olhos verdes.
– Aconteceu de novo, Aaron. – falei. – A mesma visão que eu tive no baile.
Ele se sentou na minha frente e segurou minhas mãos nas suas.
– E o que foi exatamente que você viu?
Contei para ele detalhadamente as visões. Quando terminei de falar, ele ficou pensativo por alguns segundos, e depois falou:
– Isso é estranho, Catherine. Suas visões não fazem sentido. As minhas, pelo menos, eu sempre consegui interpretar.
Aquilo era verdade. Ultimamente, eu andava tendo vislumbres rápidos de cenas, coisas que eu não conseguia compreender.
Aaron fixou seu olhar em mim, com uma expressão séria no rosto.
– É melhor eu voltar para a sala. – disse ele. – Já vou ter que ficar um longo tempo me explicando sobre ter saído correndo da aula sem nenhum motivo.
Observei Aaron se levantar e caminhar pelo pátio em direção ao prédio das salas, até sumir da minha vista. Fiquei mais um tempo sentada ali, sem pensar especificamente em assunto algum, tentando aquecer minhas mãos enregeladas. Fui até a enfermaria e peguei uma bolsa de gelo para minha suposta dor de cabeça, apenas para dizer que estive lá. Depois disso, matei todas as aulas da manhã na biblioteca.
* * *
Os últimos dias de dezembro estavam se aproximando e, com eles, a chegada dos feriados de fim de ano e as férias de inverno. Eu mal podia esperar por essas férias. Aquilo significava que eu poderia passar um mês com meus pais, na minha casa, milhas e milhas distante dali. Os quatro meses de aula que se passaram praticamente haviam voado, e a expectativa de rever minha família me deixava cada vez mais ansiosa a cada dia a menos que faltava para a chegada da véspera de Natal.
No dia que precedia as férias, os alunos da escola toda não falavam em outro assunto a não ser os planos que cada um tinha para o tempo livre, os preparativos para a viagem, suas famílias, entre outras coisas mais. A escola emanava ânimo e empolgação, e até os professores exibiam sua satisfação por enfim tirarem um tempo de folga.
Na fila do almoço, encontrei Susan Mitchell. Ela estava com o braço entrelaçado a um garoto alto, de cabelos castanhos e olhos cinza-esverdeados, que dançou com ela na noite do baile.
– Olá, Catherine. – disse ela, com um sorriso radiante. – Preparada para dar o fora daqui por um tempo?
– Claro. – respondi. – E você?
– Mais nervosa do que ansiosa. – ela falou, em tom de confissão. – Vou apresentar James à minha família. Eles já sabem que estamos namorando há um tempo, mas não o conhecem pessoalmente.
O garoto esboçou um sorriso desconfortável, ligeiramente preocupado.
– Tenho certeza de que eles irão adorá-lo. – falei, tentando acalmá-los, apesar de não conhecer James nem a família de Susan, e estar mais incerta do que ela sobre isso.
– Acho que sim. – ela pareceu pensativa. – O problema é o meu irmão mais velho. – Ela riu, fazendo uma careta. – Ele é ciumento demais.
Aquilo me despertou uma velha lembrança. Alguém já havia mencionado o irmão de Susan em uma conversa, e eu tinha a impressão de que era algo importante.
“Susan Mitchell me disse que a última vez que houve um Baile de Inverno nessa escola foi antes de ela entrar no primeiro ano.” – A voz de Lindsay ressoou em meus pensamentos. — “O irmão mais velho dela estava no último e, pelo que ela me falou, naquela época eles faziam a festa anualmente.”
“- Lindsay.” – Ouvi minha própria voz ecoar na lembrança daquela conversa. “– Você sabe por que eles pararam de realizar o baile?”
De repente, a dúvida daquele dia trouxe à tona um assunto que eu já havia desconsiderado há muito tempo.
– Susan. – chamei. – Você falou no seu irmão e... isso me fez lembrar de uma coisa. – fiz uma pausa. – Lindsay me disse quando anunciaram o baile, que a escola havia ficado um tempo sem fazer a festa. Ela disse também, que o último ano, sem contar este, que havia sido feito o baile foi quando seu irmão estudava aqui. Ele já te falou o porquê disso?
– Sim – disse Susan. – O diretor insiste em dizer que foi por causa da falta de dinheiro, mesmo sabendo que ninguém vai acreditar. Viu só, até você que entrou esse ano já sabe que a história é falsa.
Então aquilo que o diretor Edmond falou na noite do baile era mentira, pensei.
Susan continuou:
– A verdade é que aconteceu um acidente naquela noite. O diretor conta essa história de falta de recursos pra que ninguém fique assustado e pense que vai acontecer de novo. – Ela fez uma pausa. – Naquele ano a direção da escola havia comprado um globo de espelhos maior para o ginásio. Eles queriam que a decoração da festa ficasse melhor. O globo que estava no teto no baile desse ano era o antigo, o que era usado antes dessa compra, em todas as outras festas.
Tentei me lembrar do objeto. Sim, havia um globo de espelhos pendurado no ginásio, mas eu não reparei no seu tamanho.
– Então. — falou Susan. – Os organizadores estavam super empolgados com aquilo, eles haviam testado e o ginásio ficava realmente lindo. Só que eles não calcularam que o novo globo era pesado demais e que o forro do teto do ginásio não iria suportar. O globo caiu, e teria acertado em cheio um garoto que estava bem embaixo dele, se meu irmão não tivesse pulado e derrubado o garoto no chão. Ele acabou quebrando a perna, e o garoto deslocou o ombro, mas ele impediu que o cara morresse.
– Puxa... – exclamei. – Ainda bem que seu irmão impediu essa tragédia.
– Foi muita sorte do garoto. – Ela completou, e depois ficamos em um breve silêncio. Chegamos ao fim do buffet do almoço, nos servimos de nossas últimas porções e, antes de seguirmos cada uma para a mesa que costumamos sentar, Susan virou-se e disse:
– Catherine, se não nos vermos novamente até a hora da viagem, boas férias!
– Pra você também! – respondi, depois fui até a minha mesa e sentei ao lado de Lindsay e Oliver.
* * *
À tarde, os alunos começaram a se encaminhar para a pequena estação de trem, arrastando suas malas atrás de si, despedindo-se como se fossem ficar anos longe dos amigos. Havia dois trens na estação, assim como no primeiro dia de aula. Cada um seguiria um dos dois trilhos que levavam a direções diferentes, já que haviam estudantes vindos de todos os lugares na escola.
Despedi-me de Lindsay, Aaron e Oliver. Vi Susan à distância e acenei para ela, que acenou de volta. Depois disso, ajuntei minha mala e caminhei até o trem onde na janela havia uma folha que indicava as paradas que ele faria. Uma delas era na estação da minha cidade. Embarquei, sentei-me à janela em uma cabine vazia e olhei para fora, para os outros alunos que se abraçavam, puxavam suas malas e embarcavam nos trens. Meus três amigos entraram todos no outro trem. Suspirei, um tanto decepcionada, ao ver que viajaria sozinha. Mas aquilo era um pequeno detalhe comparado a que, dali a algumas horas, eu estaria em casa novamente.
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