Contra O Tempo
4 Capítulo 4
Naquela noite, eu tive um sonho.
O mais estranho nisso era que eu raramente sonhava. Quando isso acontecia, não eram sonhos, e sim previsões de algo que iria ocorrer em breve, e geralmente eram tão aterrorizantes que espantavam meu sono pelo resto da noite.
Porém, aquele sonho foi diferente. E tão intrigante quanto qualquer previsão que eu já tivera.
Havia uma floresta. E eu corria loucamente por entre as árvores, como se perseguisse algo que eu não podia ver. Como se tentasse chegar a algum destino que parecia inalcançável.
E foi isso. Eu pude sentir porque aquele sonho era diferente. Porque era só um sonho, e não uma previsão. Ele não trouxe a sensação de medo iminente que as visões sempre traziam. E também não foi claro o bastante. O que aquilo significava? As visões que eu tinha eram sempre muito específicas, mesmo que algumas vezes o desenrolar das cenas na minha cabeça fosse um tanto confuso. Mas eu sempre entendia de cara o que elas significavam, ao passo que uma cena de mim mesma correndo na floresta atrás de algo desconhecido não fazia nenhum sentido para mim. Deixei a preocupação de lado. Fora apenas um simples sonho, não uma visão. O que quer que fosse aquilo, não iria acontecer.
Todos esses pensamentos tomaram meu sono, de modo que passei grande parte da noite em claro. Quando o dia amanheceu, eu não conseguia acreditar que já era hora de levantar da cama. Lindsay parecia revigorada. Já eu não podia dizer o mesmo.
Nos dirigimos para o refeitório, para o café da manhã. Encontramos Aaron e Oliver sentados à mesa, suas caras sonolentas não muito diferentes da minha.
– Qual o motivo dessas olheiras? – Lindsay perguntou aos garotos, erguendo uma sobrancelha.
– Não é nada. Dormimos tarde, só isso. – Oliver respondeu bocejando.
– E você, Catherine? Não parece muito bem acordada também. – ela virou-se para mim e estudou meu rosto.
– Demorei a pegar no sono.
Lindsay deu de ombros e voltou-se para o croissant que estava segurando. Comemos em silêncio, pois o tempo do café estava acabando e depois fomos para a primeira aula.
* * *
As duas primeiras aulas da manhã seguiram normalmente. Até eu ser mandada para a diretoria por dormir praticamente todo o período da terceira.
Enquanto caminhava pelo corredor, olhei através de uma das enormes janelas. E uma coisa na paisagem, que até dois dias atrás havia passado despercebida, chamou minha atenção: a floresta, que cercava o terreno da escola pela esquerda.
Seria a floresta que apareceu em meu sonho? Não, aquilo não podia ser uma previsão.
Virei às costas ao corredor e me dirigi à porta que saia para o pátio. A diretora ficaria furiosa, mas eu precisava verificar a floresta. Precisava ver se era a mesma com que eu havia sonhado. Quando cheguei mais ou menos na metade do gramado da escola, comecei a correr. As árvores estavam mais distantes do que pareciam estar, de modo que, quando alcancei a entrada da floresta, curvei-me com os cotovelos apoiados nos joelhos, ofegando rapidamente.
Depois de alguns minutos, consegui recuperar o fôlego e adentrei a floresta.
Não sei o que me fez pensar que olhar aquele bosque esclareceria alguma coisa. Não havia como reconhecer se era realmente aquele com o qual eu sonhara. Poderia ser qualquer lugar no mundo onde houvesse uma floresta de coníferas.
Apesar da decepção que se apossou de mim logo que me dei conta de que a idéia de “verificar” a floresta fora completamente inútil, decidi andar ao longo das árvores, entrando cada vez mais no bosque. Eu não iria voltar todo o trajeto até a sala da diretora, ainda mais depois daquela corrida cansativa que fizera para chegar até ali.
Eu já havia perdido a noção de quanto tempo eu estava andando e a que distância eu estava da escola quando percebi que as árvores começaram a ficar mais dispersas, dando lugar a uma clareira. Dei mais alguns passos, entrando na clareira, o sol que antes era bloqueado pelas árvores agora brilhava diretamente sobre o solo, ofuscando meus olhos. Toda a luz que havia no lugar quase não me fez perceber que meus pés estavam prestes a cair em um barranco.
Olhei para baixo. A clareira, que parecia ter poucos metros, possuía um declive, como se fosse a encosta de um penhasco, porém menor, obviamente. E abaixo desse barranco, estendia-se um lago, refletindo a luz do sol como um imenso espelho de prata.
Um movimento sobre a superfície da água chamou minha atenção. Uma pedrinha pulou uma, duas, três vezes e depois afundou. E quem havia atirado a pedrinha estava sentado sobre uma pedra.
Aaron.
Eu o havia conhecido no dia anterior, mas mesmo à distância seus cabelos negros desgrenhados e a jaqueta de couro preta eram inconfundíveis.
– Costuma matar aulas na floresta com muita freqüência? – gritei.
Ele olhou para cima, procurando a origem da voz. A princípio, seu olhar pareceu pavoroso, mas seu rosto relaxou e ele abriu um sorriso quando viu que a única pessoa que se encontrava ali era eu.
– Só quando alguma coisa me aborrece. – ele respondeu.
Seguiram-se alguns instantes de silêncio enquanto eu descia o barranco por uma trilha estreita. Quando cheguei perto da pedra em que Aaron estava, ele me perguntou:
– E você, com que freqüência mata aula na floresta?
– Essa foi a primeira vez. – respondi.
Ele ergueu as sobrancelhas com ar de surpresa e depois olhou ao longe, para a superfície do lago. O silêncio que se seguiu começou a me constranger, principalmente porque uma pergunta insistente não saía da minha cabeça.
– O que está te aborrecendo? – perguntei. Eu não esperava uma resposta. Não éramos chegados o suficiente para que eu perguntasse alguma coisa que pudesse ser pessoal demais para ele, mas mesmo assim Aaron respondeu, como se medisse as palavras que deveria dizer:
– Tive uns sonhos estranhos, só isso.
– E porque isso te aborrece?
– Não aborrece. Me deixa confuso.
Lembrei do sonho que eu tivera na noite passada. Em como aquilo não fazia sentido para mim.
– Ah, sei como é. – falei. – Também tive um sonho que me tirou o sono ontem à noite.
– O que era? – ele perguntou. – Quer dizer... se você não se importa em contar.
Contei a ele sobre estar correndo em uma floresta. Sem saber se estava fugindo, ou perseguindo algo, ou tentando chegar a algum lugar inalcançável. E como aquilo me intrigava por não saber o que significava. Mas deixei de lado a minha dúvida quanto aquilo ser uma previsão.
Quando acabei de contar, ele apenas contraiu os lábios.
– Sabe, — Aaron começou – eu venho tendo sonhos parecidos com o que você teve há bastante tempo. Eu nunca soube o que eles queriam dizer, mas era sempre a mesma coisa. Eu estava andando em um bosque. E de repente, o bosque se abria em uma clareira com um enorme lago. E eu ficava lá, olhando para a superfície dele. Mais nada acontecia até a hora em que eu acordava. Quando vim para essa escola no ano passado, decidi explorar a floresta, e dei de cara com isso aqui. – ele atirou outra pedrinha contra a superfície da água. – O lago que sempre aparecia em meus sonhos era esse. Então, comecei a vir até aqui sempre que queria buscar respostas para alguma coisa. Não qualquer resposta, como se eu viesse até o lago para saber o que iria cair no próximo teste de álgebra. – ele fez uma careta, indicando que achava isso uma atitude imbecil. — Algo que realmente me intrigasse.
– E o que te intriga agora? – perguntei. – Nesses sonhos que você teve ontem à noite?
– Esse sonho que eu tenho com o lago não se repete todas as noites. Mas toda vez que ele aparece, é o mesmo sonho.
– E qual o problema nisso? – insisto.
– Ontem à noite... foi diferente.
– Oh. – exclamei, surpresa. – E qual foi essa mudança?
– Você, Catherine. Você estava no meu sonho. – ele fez uma pausa. — E você corria pela floresta.
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