Aquilo me atingiu em cheio. Definitivamente, era algo que eu não esperava ouvir. Seria só uma coincidência? Não, não podia ser. O tom de voz com que ele pronunciara aquelas palavras era sério, sombrio, quase o mesmo tom que alguém usa para dar um aviso de perigo. Havia um enigma escondido nas entrelinhas daquelas sentenças. E aquilo me intrigou tanto que tomou meu sono por mais uma noite, e desviou completamente minha concentração nas aulas, de manhã. Cheguei ao ponto de levar duas advertências na mesma aula e nem ao menos me importar com isso. Tudo em que eu pensava eram hipóteses que pudessem explicar a relação que o meu sonho poderia ter com o dele, e na frase de Aaron, ecoando várias e várias vezes na minha mente. Parte de mim dizia a mim mesma: “Esqueça isso, não passa de uma bobagem.” Mas a outra parte insistia: “Você sabe o poder que possui. Não pode ser apenas uma coincidência.” Será que eu podia invadir os sonhos das pessoas, e ainda não sabia disso? Por que o sonho de Aaron, de alguma forma, tinha a ver com o meu?

Depois da aula, Lindsay me encontrou no refeitório.

- O que há com você? – ela perguntou. – Está com uma cara de quem não dorme há séculos!

Demorei alguns segundos para processar a pergunta.

– Não é nada. Falta de sono há noite e excesso durante o dia. –falei, dando de ombros.

Ela riu e depois olhou para meus olhos, marcados pelas olheiras.

– Você precisa dormir. É sério. – disse ela, de um jeito alegre e descontraído que fazia qualquer vestígio de seriedade em suas palavras desaparecer.

Depois de enchermos nossos pratos com o almoço, saímos da fila e fomos à procura da mesa onde estavam Oliver e Aaron, que geralmente guardavam um lugar para nós. Corri o olhar pelo salão, e os encontrei. Os dois conversavam e comiam como de costume. Parei o olhar sobre Aaron por alguns instantes, tentando captar alguma coisa que parecesse estranha, algum tipo de comportamento diferente. Mas ele parecia ser exatamente o garoto que era, o garoto que eu conhecera há alguns dias atrás.


* * *

O tempo foi passando e rapidamente o outono deu lugar ao inverno. Depois daquela manhã em que quase enlouqueci em busca de respostas, mais nada de anormal aconteceu. Passaram-se um, dois, três meses, e nenhum sonho, nenhuma visão, ou qualquer comportamento estranho por parte dos outros estudantes. Não voltei a sonhar com a minha correria pela floresta e acho que Aaron também não me viu mais em seus sonhos. Não que ele tenha mencionado. Porém, retornei à floresta, várias e várias vezes, nas tardes livres de que dispúnhamos. Em certas ocasiões, eu ficava sozinha na floresta. Andava ao redor do lago, apreciando no silêncio apenas os sons da natureza. Algo naquele lugar fazia com que eu me sentisse bem, com que eu quisesse retonar depois que fosse embora. Em outras vezes, encontrava Aaron no lago, e tínhamos longas e animadas conversas. Falávamos sobre nós mesmos, ou sobre a escola. Em todo aquele tempo, nenhum dos dois voltou a falar sobre sonhos.

As horas que passamos juntos fizeram com que nos tornássemos grandes amigos. Também me tornei cada vez mais amiga de Lindsay e Oliver e, depois de três meses, já convivia com eles sem me sentir uma completa estranha. Enfim, parecia que minha vida estava finalmente normal. Nada de sobrenatural acontecera, de modo que até mesmo deixei de lado os pensamentos e enigmas que minhas visões proporcionavam. Eu prestava atenção nas aulas. Eu tinha amigos. E nenhuma preocupação além das que qualquer garota comum de 16 anos tinha tomava meu tempo.

Certa tarde, eu e Lindsay voltávamos da biblioteca quando um alvoroço dentro do pavilhão de dormitórios femininos chamou nossa atenção. As garotas se espremiam e tagarelavam sem parar, enquanto iam em direção do mural de avisos na sala de convivência.

Junto aos outros papéis que estavam presos no mural desde o início das aulas, como horários e regras da escola, havia um panfleto enfeitado, com detalhes que pareciam imitar a textura de renda. Quando olhei mais de perto, vi que eram desenhos de delicados flocos de neve distribuídos por todo o pequeno cartaz, que provocava o alvoroço. No topo do papel estava escrito “Baile de Inverno”.

– Baile de Inverno? – disse Lindsay, intrigada. – Susan Mitchell me disse que a última vez que houve um Baile de Inverno nessa escola foi antes de ela entrar no primeiro ano. O irmão mais velho dela estava no último e, pelo que ela me falou, naquela época eles faziam a festa anualmente.

Susan Mitchell estava um ano a nossa frente. Ela estudava nessa escola porque, assim como o irmão mais velho, morava em uma cidadezinha do interior, longe demais de qualquer escola que exigisse que os alunos fossem e voltassem diariamente. Ela disse uma vez que a maioria das crianças e adolescentes de lá estudam em colégios internos, e grande parte da população é composta de fazendeiros. É a primeira vez que eu vejo uma garota como ela não ser alvo de piadas dos outros por vir do campo. Em uma das outras escolas que estudei, havia um garoto assim como ela que vivia sendo chamado de caipira e ouvindo piadas de mau gosto. Porém, Susan não passa por isso e creio que nunca passou. Ela é líder de torcida do time de basquete da escola, e com seu cabelo loiro dourado e seus olhos azuis, nunca vi quem não a admirasse.

Lindsay e eu saímos do meio do tumulto e fomos para o nosso quarto. Uma pergunta em minha cabeça não parava de me perturbar.

– Lindsay – falei. – Você sabe por que eles pararam de realizar o baile?

– Não sei. – ela franziu a testa. – Susan deve saber. Mas não deve ser algo muito importante. Vai ver a escola estava sem dinheiro, ou alguma coisa assim. Pelo menos vamos ter algo diferente, pra variar. A feira de ciências era o único evento que tínhamos por aqui, e a coisa já estava ficando entediante.

O comentário de Lindsay me fez rir. Entramos no quarto e continuamos falando sobre o baile. Nas duas semanas seguintes, foi o assunto que mais se ouviu pelos corredores da escola.