A noite passou tão rapidamente que, quando me dei por conta, já estava amanhecendo. Levantei da cama, abri as cortinas e fiquei um bom tempo olhando para fora. A janela do quarto dava vista para as montanhas ao longe, na linha do horizonte. A paisagem era realmente muito bela. Talvez até fosse melhor dar um tempo nas escolas das cidades grandes e esperar a poeira baixar desde o último escândalo que ocorrera devido ao meu segredo. E talvez aquela escola no interior, mesmo longe de casa, não fosse tão ruim assim.

Lindsay saiu do banheiro com a escova de cabelo na mão.

– É melhor você se apressar. O horário do café da manhã acaba em 45 minutos.

Tratei de me arrumar depressa e saímos andando rapidamente pelos corredores. Depois de sair do pavilhão de dormitórios, cruzar um jardim e passar pela frente de outros blocos, conseguimos finalmente chegar ao refeitório. Ainda tínhamos 20 minutos para tomar café antes da primeira aula. Depois que nos servimos, Lindsay me guiou até uma mesa onde dois garotos estavam sentados, sentou-se e, quando viu que hesitei, fez um gesto para que me sentasse também.

– Esta é Catherine Hemfort. – Disse ela aos garotos. – Aluna nova e minha colega de quarto.

Ela olhou brevemente para mim e depois apontou para o garoto à nossa frente que estava à esquerda.

– Catherine, este é Oliver. – Eu o observei por alguns instantes. Tinha o cabelo liso da cor de palha e olhos cinzentos.

– Muito prazer. – Disse ele, estendendo a mão.

Lindsay continuou:

– Oliver é meu namorado. Nos conhecemos desde a escola primária. Viemos para cá juntos no ano passado.

Depois, ela apontou para o garoto que estava à direita. Um jovem de cabelos pretos despenteados e olhos intensamente verdes.

– Este é Aaron. Nosso melhor amigo desde que chegamos aqui.

Aaron estendeu a mão e trocamos um cumprimento.

– Prazer em conhecê-la.

Depois das apresentações, tratamos de comer o que estava em nossos pratos antes que o tempo acabasse. Quando levantamos da mesa, Lindsay virou-se para mim:

– Pode sentar com a gente sempre que quiser, ok?

– Ok.- Eu disse, e fomos para a aula.


* * *

As aulas da manhã passaram rapidamente. Apesar de já ter ouvido falar que o ensino nos colégios internos era “diferenciado”, não havia nada de especial no jeito que os professores davam as aulas. Tive um horário de História, dois de inglês, um de álgebra e um de arte, e foi tudo como nas outras escolas em que já estudei.



Em alguns dias tínhamos aulas também à tarde, porém naquela estávamos livres, então Lindsay, como prometido, me levou em um pequeno tour pela escola.


Passamos pela biblioteca, salas de aula e laboratórios, diretoria e diversos pátios e áreas de convivência, onde vários alunos aproveitavam a folga da tarde para conversar sob as árvores. Eu estava adorando conhecer todo aquele imenso lugar e, além disso, conhecer melhor minha colega de quarto. Lindsay era uma pessoa muito amigável e extremamente comunicativa. Pessoas assim tornavam fácil o início de uma amizade. Eu era muito tímida para começar as coisas.

Enquanto conversávamos, íamos descobrindo uma sobre a outra: os gostos, o que tínhamos em comum ou não, nossos defeitos e qualidades. Porém, por mais que eu me tornasse uma grande amiga de Lindsay, eu estava decidida a não contar nada sobre meu dom sobrenatural de vislumbrar o futuro. Não importava o quanto ela fosse confiável. Eu não iria arriscar todo o esforço que meus pais faziam para que eu tivesse uma vida normal. Não mais uma vez.

No fundo, talvez o que eu mais temesse era que, se meu segredo se espalhasse novamente, meus pais me mandassem para uma escola ainda mais distante do que esta. Talvez em outro estado. Ou em outro país. Eu sabia que eles estavam cansados de lidar com isso. Mas acho que não conseguiria ficar tão longe assim de casa.

Enfim, chegamos ao último lugar do tour de Lindsay: o ginásio.

Era um grande pavilhão e ficava mais para trás do que todos os outros blocos da escola. Estava aberto e ouviam-se sons de pessoas gritando e tênis derrapando no chão da quadra vindos do interior. Entramos.

Havia mais ou menos dez pessoas lá dentro. Três ou quatro eram garotas sentadas na arquibancada assistindo aos meninos – que constituíam o restante dos alunos que estavam dentro do ginásio – jogando basquete.

Oliver e Aaron, os dois amigos de Lindsay que eu conhecera durante a manhã passavam a bola de um para o outro. Quando nos viram entrar, eles deram um sorriso e acenaram rapidamente, depois passaram a bola para outro garoto, que deu a enterrada na cesta para marcar o ponto. Lindsay e eu sentamos na arquibancada e ficamos conversando por algum tempo. Quando os garotos cansaram de jogar, vieram se juntar a nós.

– Mostrou a escola a ela? – perguntou Oliver, logo após dar um beijo em Lindsay.

– Mostrei. – ela respondeu.

– Então que dizer que você está livre para dar uma volta pelo jardim principal comigo, não é? – disse ele, erguendo as sobrancelhas para ela de um jeito provocativo, como se estivesse propondo um desafio.

Lindsay virou-se para mim e para Aaron:

– Pessoal, vocês não se importam que eu deixe vocês sozinhos, não é?

– Sem problemas. – falei. – Você já ocupou quase toda a sua tarde comigo.

– Bom, nos vemos no jantar. – ela concluiu. – Aaron, deixe de ser antipático e converse com ela!

Depois disso, Lindsay e Oliver deixaram o ginásio.

Olhei para Aaron. Apesar de não ter falado muito desde que o conheci, ele não parecia antipático. Talvez fosse apenas tímido. Ou solitário. Mas depois, pensei em Lindsay e Oliver, e como eles eram pessoas legais, e descartei a última hipótese. Não tinha como alguém se sentir solitário tendo amigos como eles.

Decidi puxar assunto:

– Ahn... então, porque decidiu estudar nessa escola? Quero dizer, ela é boa mas, o que fez você vir estudar aqui?

– Eu... não tive escolha. Meus pais me mandaram para cá. – disse ele.

– É sério? Estamos aqui pelo mesmo motivo então. – falei.

– Causou muitos problemas?

– É... posso dizer que sim.

Depois disso, ficamos em silêncio por alguns segundos, até que ouvi o som abafado de uma risada. Aaron estava rindo.

– Qual é a graça? – perguntei.

– É que a maioria dos alunos daqui vêm para cá porque querem estar em contato com a natureza, ou porque os pais são ocupados demais para acompanhar os estudos dos filhos e os colocam em colégios internos, onde possam ter a supervisão de bons professores, etc., etc. Sempre achei que eu fosse o único encrenqueiro por aqui. Que foi mandado para cá depois de várias escolas que não deram certo. Meus pais cansaram de lidar com meus problemas. Então vim parar aqui. Lindsay e Oliver foram os únicos que quiseram se aproximar de mim. Todos os outros, quando ouviram falar que eu criei algumas “encrencas” em outras escolas, ficaram me olhando de um jeito diferente, sem nem mesmo saber o que eu fiz. Como se eu tivesse matado alguém. – ele falou a última frase com a voz carregada de sarcasmo. – E agora, há mais alguém como eu. E os dois criadores de problemas estão sentados lado a lado. Uh, imagino como os outros alunos devem estar com medo de nós.

Ele falava e ria sarcasticamente. Eu estava tensa, com medo de que ele me perguntasse o que foi que eu fiz de errado. Mas depois de um tempo eu vi que ele acabara o assunto, pois não parava de rir. Não sei o que ele via de tão engraçado nessa situação. Talvez estivesse rindo de alívio, quando viu que não era o único aluno-problema naquela escola. De qualquer forma, depois de um tempo, comecei a rir junto com ele. Sem saber muito bem o motivo, ficamos ali por uns cinco minutos, sentados na arquibancada, rindo juntos.


(Imagem de como seriam os personagens principais):



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