Contra O Tempo
9 Capítulo 9
Depois que o feriado acabou, a rotina escolar começou novamente. O inverno foi passando e tudo parecia completamente normal – aulas prosseguindo, alunos estudando – exceto para mim, é claro, que tinha de conviver com meu pequeno “problema” que se tornava cada vez mais perturbador.
Parecia que aquilo nunca ia acabar. Eram sempre cenas de destruição, explosões, luzes, gritos e pânico. Eu cheguei a falar com Aaron sobre isso algumas vezes, mas até mesmo ele parecia confuso e, por causa do inverno e da neve, ficava difícil de nos encontrarmos na clareira: o caminho até lá ficou escorregadio e era quase impossível atravessar até o lago sem cair ou atolar os pés na mistura de lama e neve. E conversar sobre esse assunto fora da clareira estava fora de cogitação. Sempre havia alunos por todos os lados.
Estava começando a pensar que meu dom talvez pudesse ter invertido e eu estivesse vendo cenas de guerras que aconteceram no passado, já que tudo aquilo não cessava e parecia muito improvável e distante de acontecer.
Mas então chegou a primavera.
E a coisa toda mudou drasticamente.
Era início de março e, apesar de a primavera estar apenas começando, o clima estava quente e abafado. O sol brilhava e, como era sábado, o pátio da escola estava repleto de alunos – conversando, lendo ou apenas tentando encontrar uma brisa. Passei a manhã com Lindsay, Aaron e Oliver. Almoçamos juntos, mas, depois, Lindsay e Oliver pediram um tempo para ficarem sozinhos. Enquanto observava eles se afastarem, braços entrelaçados um ao outro, virei-me para Aaron e falei:
– Vou para o meu quarto. Tenho que adiantar meu dever de casa.
Ele percebeu o desânimo em minha voz e falou, sorrindo:
– Quem manda você dormir durante as aulas? Ganhou dever em dobro agora. Há, há.
Ele sorria de um jeito debochado, e sua ironia me fez rir.
– Vou fazer só uma parte dele. Então não terei de fazer tudo amanhã. – expliquei.
– Nossa, como você é organizada!
Olhei para ele e ergui as sobrancelhas. Dei um passo para trás e falei:
– Vou indo.
Observei-o colocar as mãos nos bolsos e se afastar. Virei- me de costas e segui para o pavilhão de dormitórios.
* * *
Enquanto terminava minha lição de álgebra, ouvi uma leve batida na porta do quarto. Olhei naquela direção e um pedaço de papel, com uma das pontas ainda debaixo da brecha entre o chão e a porta, chamou a minha atenção. Desdobrei-o e li o que estava escrito:
“Encontre-me no lago quando terminar.”
“P.S: Leve uma roupa de banho.”
“- Aaron.”
Quando terminei de ler, um esboço de sorriso cruzou o meu rosto. Olhei para trás, para minha escrivaninha, ignorei os cadernos e fui até o guarda roupa pegar meu biquíni. Eu havia trazido um biquíni e meu maiô de natação, pensando que essa escola talvez tivesse uma piscina no ginásio. Eu nunca gostei muito das aulas de natação que tive em algumas das minhas outras escolas, mas trouxe as peças mesmo assim. Caso tivesse que frequentar essas aulas, eu não precisaria pedir um maiô emprestado a ninguém, já que obviamente não haveria onde comprar um nas redondezas.
Vesti o biquíni por baixo das roupas e fui até a floresta. O sol estava quente e, na metade do caminho até a clareira, eu já estava suando e pensando em parar para descansar. A possibilidade de mergulhar na água refrescante do lago me fez seguir até onde eu queria chegar. Recostei-me a uma árvore que ficava na divisa da floresta com a clareira, ofegando, e vi que Aaron já estava lá embaixo sentado na grande pedra onde sempre sentava. Desci o barranco e fui ao seu encontro. Ele acenou quando percebeu a minha presença.
– Terminou o dever? – gritou.
– Dei um tempo a ele. – gritei em resposta. – É muita álgebra para uma tarde só.
Ele ficou em pé sobre a pedra e disse:
– Então, pronta para um mergulho?
– Apenas uma pergunta antes – falei. De repente, veio à minha cabeça que nadar ali talvez não fosse assim tão seguro. — Você já entrou nesse lago antes?
– Uma vez, no ano passado. — ele respondeu. – Ah, vamos, está com medo?
– Não. – menti. – Só queria saber se... Lindsay e Oliver sabem que esse lugar existe?
– Não. – ele falou. – Eu sempre vim aqui sozinho. E só entrei na água uma vez, porque o dia estava muito quente. Mas podemos convidá-los para vir aqui, se você quiser.
A voz dele mudara de tom quando pronunciou a última frase, e eu entendia o porquê. E também compartilhava do mesmo motivo: aquele era o nosso lugar particular. Apenas nós sabíamos da existência dele, e não queríamos que os outros alunos viessem ali. Era um lugar seguro para falar sobre nossos sonhos e visões, e para tentar entendê-los.
– Não. – falei. – Esse lugar é só nosso.
Ele exibiu o sorriso travesso que sempre usava quando estava brincando, depois virou-se de frente para o lago, tirou a camiseta e pulou.
Os respingos de água do seu mergulho chegaram até onde eu estava, batendo na minha pele e me fazendo lembrar de como eu mal podia esperar para me refrescar naquela tarde quente.
Tirei minha camiseta, ficando apenas com a parte superior do biquíni e pulei na água, mesmo de bermuda. A ideia de ficar inteiramente de biquíni na frente de Aaron fazia com que eu corasse instantaneamente de vergonha.
A sensação refrescante da água era maravilhosa, e fez com que todo calor que eu sentia desaparecesse no momento em que meu corpo afundou no lago. Eu estava ainda perto da margem quando, adiante, Aaron gritou:
– Isso aqui é maravilhoso, não é?
– Eu poderia ficar aqui o dia todo! – gritei.
Fui me impulsionando para frente na água, movimentando lentamente os braços, até que eu cheguei ao centro do lago. Olhei ao redor, procurando por Aaron, que parecia ter sumido de vista, quando a visão de sua cabeça emergindo bem ao meu lado quase fez com que eu saltasse sobre a superfície.
– Qual é, você nem molhou os cabelos! – disse ele.
Meus cabelos flutuavam ao redor de minha cabeça, como se fossem algas, porém só as pontas estavam molhadas. Ele mergulhou mais uma vez e, quando voltou à tona, sacudiu a cabeça com força, jogando os respingos de seus cabelos molhados sobre mim.
– Aaron! – exclamei. Ele começou a sorrir, debochando da situação. – Então, vai ser assim, é?
Empurrei as mãos sobre a superfície jogando sobre ele a maior quantidade de água que consegui reunir. Ele revidou, fazendo o mesmo.
Enquanto ríamos e jogávamos água um no outro, Aaron falou uma coisa que me fez parar:
– Sabe, gostei muito de ter conhecido você. De verdade, eu me sentia completamente sozinho antes disso.
Encarei-o, sem saber o que responder.
– Quer dizer, Oliver e Lindsay são ótimos amigos. – ele continuou. – Mas era como se eu sentisse que eles não me conheciam completamente. Não havia ninguém para compartilhar... você sabe, ninguém igual a mim. Igual a nós.
Sim, eu sabia perfeitamente do que ele estava falando. Eu me sentira assim durante os últimos cinco anos.
Então, sem dizer mais nada, ele foi se aproximando, chegando realmente perto, até que eu pudesse ver as gotículas de água acumuladas no seu rosto, e sentir a sua cintura encostando-se à minha sob a água. Ele colocou uma das mãos suavemente sobre a minha bochecha. Fechei os olhos e senti seus lábios de encontro aos meus. Tudo pareceu silenciar ao nosso redor.
E então algo terrível aconteceu.
Um clarão forte tomou conta do ambiente. Mais uma vez, ouvi o som de explosões, mas dessa vez parecia diferente. Não eram cenas entrecortadas; era a imagem do mundo em caos. Todas as pequenas visões perturbadoras que andara tendo nos últimos meses se juntaram para formar aquela cena.
Gritos e pânico estampado nos rostos das pessoas que corriam desenfreadamente pelas ruas, procurando abrigo. Tiros de metralhadoras ensurdecedores preenchiam o ambiente, alternados pelo som de bombas que explodiam e jogavam terra e concreto para todos os lados. Soldados corriam carregando armas gigantescas e um enorme tanque de guerra deslizava pela rua.
Guerra.
Era isso o que estava prestes a acontecer. E agora todas aquelas visões faziam sentido.
Afastei-me de Aaron, apavorada. Ele percebeu a minha expressão de terror, porque falou, com um olhar confuso:
– Catherine? O que houve?
Não respondi. Em vez disso, continuei dando passos para trás. De repente, a confusão no rosto de Aaron se desfez, ao passo que ele compreendeu o que estava acontecendo. Aaron começou a correr dentro do lago, jogando água para todos os lados, tentando me alcançar.
– Catherine! O que você viu?
Parei e deixei que ele chegasse até mim. Ele segurou os meus braços delicadamente, encarou- me nos olhos e sussurrou:
– O que houve? Pode me dizer, está tudo bem.
– Não. – respondi, seriamente. – Não está tudo bem.
Expliquei para Aaron o que eu tinha visto. Minha voz estava gaguejante, mas tentei contar todos os detalhes. Quando terminei, olhei para o rosto dele. Não havia sorriso brincalhão. Não havia aquele ar alegre e descontraído. Ele apenas me encarava com seriedade. Depois de alguns constrangedores segundos de silêncio, ele finalmente falou:
– Temos um problema. Um grande problema.
Assenti com a cabeça, e ficamos em silêncio.
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