Contra O Tempo
10 Capítulo 10
Depois daquele dia, eu não conseguia mais me concentrar em praticamente nada. Durante certo período, as visões cessaram, deixando-me além de outras preocupações a não ser a guerra que eu enxergara. Depois, comecei novamente a ter pesadelos com as mesmas imagens, ou com a cena inteira, o que fazia com que eu passasse noites em claro e dormisse profundamente em quase todas as aulas.
- Senhorita Hemfort! – a professora gritou, como vinha gritando há semanas, assim como todos os professores gritavam, sempre a mesma coisa: “Se quiser dormir, por favor, saia da minha sala.” “Sala do diretor, AGORA!” ou então “Se continuar assim, vou ter uma conversa com seus pais.”.
Ultimamente, eu passava mais tempo na sala do diretor do que nas salas de aula. Ele era muito atencioso, e ao contrário dos professores, não gritava comigo sobre dormir em classe. Ele sempre pedia porque eu não conseguia dormir à noite e se eu tinha algum problema que estava me atormentando, e eu, obviamente, não respondia. Então ele falava que se isso se repetisse, ele seria obrigado a chamar meus pais. Eu realmente não acreditava que ele faria isso, considerando o quão longe a escola era.
Mas ele fez. Numa manhã ensolarada no fim de abril, quase um mês depois da última conversa que tive com ele, o diretor Edmond convocou meus pais na escola. Ele conversou com eles durante toda a manhã. Era sábado, e eu levantei tarde, como de costume. Quando estava a caminho do refeitório, os avistei. Parei no meio da calçada, e Lindsay, que conversava comigo animadamente, parou e encarou-me confusa. Depois acompanhou o meu olhar e entendeu a situação.
- Não acredito que realmente chamaram seus pais na escola. – disse ela.
Eles me viram e começaram a andar em minha direção. Virei-me para Lindsay:
- Vá almoçar. Encontro você e os garotos depois.
Ela assentiu e seguiu o caminho que estávamos tomando. Respirei fundo, e me preparei para o pior. Meus pais chegaram até mim, com um olhar que eu reconhecia. Era uma mistura de preocupação e censura.
- Catherine – falou minha mãe. – O diretor nos falou que você anda dormindo demais durante as aulas. Ele acha que talvez você possa ter algum distúrbio do sono ou algo assim, mas nós sabemos que você não tem. Conte-nos, querida, o que você viu? Só há uma explicação para isso, você deve ter visto algo que está te preocupando.
Fiquei em silêncio. Não sabia se devia realmente contar o que vira para eles. Eles ficariam aterrorizados e, além do mais, não adiantaria nada contar. O que eles poderiam fazer? Eles eram apenas dois cidadãos comuns, vivendo vidas comuns, com uma filha totalmente diferente. Eu era a “aberração”. Eu vira aquelas cenas. E apenas eu poderia pensar num meio de impedir aquilo.
- Não é nada demais, mãe. Apenas as visões de sempre. Você sabe que elas me fazem perder o sono, quaisquer que sejam. E, sendo como sou, vou ter que aprender a conviver com isso.
Eles ficaram em silêncio por alguns segundos, ponderando a minha resposta. Depois, pareceram aceitá-la.
- Temos que ir, Cath – falou meu pai. – Cuide-se, ok? E se por acaso algum sonho ou qualquer outra coisa te deixar perturbada, sabe que pode nos ligar e viremos buscar você, se quiser.
- Estou bem, papai. E tenho certeza de que as coisas continuarão tranquilas.
Despedimos-nos com beijos e abraços, e eles foram em direção à saída da escola. Fui até o refeitório, mas já não estava mais com fome. “Tenho certeza de que as coisas continuarão tranquilas” ressoava em minha mente.
Definitivamente, as coisas não estavam tranquilas. E, sendo que já haviam se passado dois meses desde que eu tivera aquela visão no lago, a situação estava próxima de ficar completamente fora do controle.
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