A sexta-feira do Baile de Inverno chegou rapidamente, como se as duas semanas que faltavam tivessem se passado em apenas dois dias. Parte disso era pela imensa ansiedade dos alunos. Naquela tarde, fomos dispensados das aulas para termos um tempo extra para nos arrumarmos, e para que os professores que estavam organizando a festa pudessem preparar o ginásio sem que nenhuma turma estivesse tendo horários de educação física.

No nosso dormitório, Lindsay e eu abrimos o armário e olhei para a parte reservada para as minhas roupas, para o único vestido que eu trouxera. Na carta de recomendações que a escola enviara uma semana antes das aulas iniciarem, havia uma nota dizendo para que os alunos trouxessem um traje formal, caso houvesse algum evento. Quando li aquilo pensei: “Que tipo de evento pode haver em uma escola dessas?”. Quase não coloquei vestido nenhum dentro da mala, mas depois acabei colocando. Não tenho muitos vestidos, de modo que trouxe apenas um. Nas outras escolas em que estudei havia bailes, mas eram apenas para os formandos do ensino médio. Você só poderia ir se um deles tivesse lhe convidado, e eu mal tinha amigos na minha turma, quanto mais os veteranos do terceiro ano.

Tirei meu vestido do armário, coloquei-o em cima da cama e fiquei olhando para ele por um tempo. Era um vestido tomara que caia, com a parte de cima branca, uma faixa prateada na cintura e uma saia de tule preto. Sempre achei que era um vestido bonito, mas então vi Lindsay tirar o dela do armário. Era um vestido tomara que caia vermelho, de um tecido lustroso com uma saia pregada. Rosas feitas com o mesmo tecido detalhavam a cintura.

O baile começava às seis horas. Depois de tomarmos banho, nos vestimos e arrumamos. Combinei meu vestido com um sapato preto enquanto Lindsay calçou uma sandália prateada. A caminho do ginásio, encontramos Aaron e Oliver, vestidos em ternos pretos e quase irreconhecíveis. Oliver estava com os cabelos penteados para trás e usava uma gravata borboleta preta e uma rosa vermelha verdadeira na lapela do paletó, combinando com o vestido de Lindsay. Aaron havia penteado os cabelos rebeldes com gel e ajeitado a franja. Sem os cabelos sobre a testa, a impressão que se tinha era de que seus olhos eram ainda mais verdes. Sobre a camisa branca, ele colocara uma gravata cinza-escura com algumas listras mais claras que a detalhavam.

Oliver pegou a mão de Lindsay e passou seu braço por cima da cabeça, fazendo-a dar uma volta em torno de si.

– Você está linda! – disse ele.

Ela agradeceu, corando, e eles engancharam os braços um com o outro.

– Vamos? – disse Oliver, olhando para mim e para Aaron por cima do ombro.

Aaron e eu nos entreolhamos em silêncio e seguimos Lindsay e Oliver a caminho do ginásio.

Quando chegamos lá, quase não acreditamos no incrível trabalho que os organizadores fizeram e que transformara a velha quadra de esportes em uma decorada pista de dança. As tabelas de basquete serviram para pendurar os canhões de luz que jogavam seu feixe diretamente para um globo de espelhos que pendia no centro do ginásio e espalhava quadrados de luz refletidos por todo o salão. Poucos alunos haviam chegado, e os presentes estavam todos sentados em bancos ou servindo-se na mesa de aperitivos e bebidas. Não havia ninguém dançando, embora a música já estivesse em alto e bom som.

Mais alunos chegavam. Avistei Susan, em um belíssimo vestido azul celeste de saia franzida. Não foi difícil perceber quando ela havia chegado, pois no momento em que ela entrou pela porta, os garotos foram, um por um, virando a cabeça naquela direção.

Quando todos já haviam chegado, o diretor Edmond subiu no palco no fundo do ginásio e pediu para que o DJ parasse a música por um instante. Ele falou algumas coisas, sobre estar fazendo a festa depois de anos, e sobre como a escola agora tinha conseguido arrecadar mais fundos para realizar esse tipo de evento para os alunos. Depois, desejou a todos uma boa festa, e saiu.

A música recomeçou, e logo a pista de dança estava cheia. Lindsay e Oliver foram em direção à pista e se misturaram à multidão que dançava.

– Você quer ponche? – Aaron perguntou.

– Pode ser. – respondi, apesar de não estar com a mínima sede. A verdade era que eu estava me sentindo constrangedoramente sozinha, em uma festa onde todos dançavam aos pares e até os novatos do primeiro ano pareciam mais enturmados.

Aaron voltou com duas taças cheias de um líquido avermelhado com um forte aroma de cereja e estendeu uma delas para mim. Bebericamos alguns goles enquanto conversávamos. De repente, Aaron colocou sua taça ainda pela metade em cima de uma mesa próxima e falou, rápida e diretamente:

– Você quer dançar?

O pedido me deixou surpresa. Ele deve ter percebido a confusão estampada em meu rosto, porque em seguida completou:

– Apenas como amigos. – fez uma pausa. – Anda, não aguento mais ficar parado.

Aaron puxou- me pelo pulso, e só tive tempo de colocar minha taça em cima da mesa ao lado da dele antes de ser levada em direção à pista. Ficamos em um dos cantos da quadra, pois o meio estava apertado e tumultuado demais.

A música que tocava era eletrônica e ficamos apenas nos movimentando um de frente para o outro. Quando ela terminou, o DJ pôs uma música lenta para tocar.

Aaron e eu ficamos nos encarando.

– Hum... E então? – falei. – Sentamos?

– Não. – Disse Aaron, e seu tom parecia sério. Ele se aproximou e pôs as mãos em minha cintura. Coloquei os braços em volta de seu pescoço e ficamos nos balançando suavemente para os lados, vez ou outra saindo do lugar.

Aaron chegou mais perto. Eu podia sentir seu hálito quente tocando meu rosto. Fechei os olhos. E presenciei algo que quase me fez desabar, não fosse pelos braços de Aaron me dando apoio.

Tudo havia ficado escuro, mas flashes de luz emitiam clarões aqui e ali. Explosões, com sons terrivelmente ensurdecedores que preenchiam o local. Pessoas corriam e gritavam, dirigindo-se para todos os lados, seus rostos estampando pânico e puro horror.

Quando abri os olhos, só havia o ginásio e as pessoas dançando. Tudo estava em perfeito estado. Me afastei de Aaron. Seu olhar era de preocupação.

– Está tudo bem? – Era claro que minha expressão demonstrava que eu estava aterrorizada.

Não respondi. Recuei lentamente, depois me virei e comecei a caminhar depressa em direção à saída do ginásio.

– Catherine! — ouvi Aaron gritar. Não olhei para trás, e comecei a correr. Saí porta afora e disparei pelos corredores externos do colégio, que cruzavam pela frente da biblioteca, do refeitório e pelo meio do pátio. Enquanto corria, aquelas cenas perturbavam meus pensamentos. Eu só tinha uma coisa em mente: uma voz no fundo da minha cabeça ficava me dizendo “Essa não, uma visão outra vez”. E aquela tinha me deixado assustada e confusa. Mais uma vez, eu previa algo que não conseguia compreender.

Continuei correndo, apesar dos sapatos de salto dificultarem muito a ação e me deixarem duplamente cansada devido ao esforço. Eu queria me afastar das pessoas. Queria ir aonde a música não me alcançasse e eu pudesse ficar a sós no silêncio para pensar sobre o que acontecera. E só havia um lugar que me permitia isso.

Quando cheguei ao limite do pátio da escola, não diminui o ritmo e entrei na floresta. Apesar de conhecer aquele lugar, tinha de tomar cuidado para não bater contra as árvores no caminho. A silhueta dos troncos era fracamente iluminada pela lua, mas isso era o suficiente para me fazer enxergar. Os saltos dos meus sapatos atolavam e meus pés estavam cheios de barro. Quando estava quase chegando ao lago, parei repentinamente, ofegando, enquanto me dava conta de uma coisa.

O sonho que eu tivera. Eu mesma correndo em uma floresta, por entre as árvores, em busca de alguma coisa desconhecida. A imagem do que estava acontecendo naquele momento era exatamente aquela. Enfim, aquilo era uma visão, mas de uma coisa talvez não tão urgente quanto outras que eu já tivera. Pelo menos, eu pensava que correr na floresta não fosse algo muito importante. E agora eu sabia para onde estava indo quando sonhei.

Continuei meu caminho até o lago. Quando cheguei lá, o lugar estava mergulhado em completo silêncio. A superfície da água refletia o céu noturno, e ela parecia tão obscurecida quanto a própria noite. A lua cheia estampava-se no centro do lago, imaculada, e no céu ela estava posicionada exatamente em cima da clareira, iluminando todo o local com sua luz branca, deixando tudo com um clima um tanto fantasmagórico.

Respirei fundo. Minha respiração ainda era ofegante, mas já estava voltando ao normal. Foi quando senti algo se aproximar. Seria algum animal? Eu nunca havia visto nenhum animal naquela floresta antes, mas também nunca tinha estado lá à noite. Poderia ser algum que tivesse hábitos noturnos. Mal tive tempo de me virar, e a criatura já estava atrás de mim, no encalço de meus calcanhares.

– Sabia que dá para chegar ao lago muito mais rápido se você entrar na floresta ao lado do ginásio?

Aaron. Sua voz me deu um profundo alívio, ao saber que eu não seria atacada por nenhum animal feroz. Mesmo assim, eu não queria ficar com ele ali, mesmo que esse lugar fosse praticamente particular para nós.

– O que está fazendo aqui? – gritei. – Você quase me matou do coração!

– O que você está fazendo aqui? – ele perguntou. – Porque fugiu daquele jeito?

Eu não sabia o que responder. Como explicar o motivo da minha insana fuga para a floresta? Continuei em silêncio por alguns segundos, depois abri a boca para falar, mas não consegui nada mais do que um engasgo.

– Eu... eu só...- gaguejei. Não havia nenhuma boa desculpa que viesse à minha cabeça naquele momento.

– Catherine, está tudo bem? – Aaron falava com a voz cheia de preocupação. – Você está com algum problema?

– Eu estou bem. – falei, tentando parecer o mais séria possível. – Estou ótima.

– Ah, jura? – a voz dele passou de preocupada para carregada de sarcasmo. Ele começou a andar ao redor de mim, fazendo um círculo à minha volta. – Porque, no meu ponto de vista, uma pessoa que admite estar bem não corre para uma floresta no meio da noite com uma cara aterrorizada como a que você tinha quando paramos de dançar.

Continuei calada.

– Está escondendo alguma coisa, não está, Catherine?

– Aaron, eu... Você não pode saber o que é. Ninguém pode saber. É o motivo de eu ter vindo estudar nessa escola. O que vem me causando problemas desde sempre. Eu jurei a mim mesma não contar mais a ninguém.

Ele assentiu e continuou:

– Catherine, eu já te contei o que eu fiz para vir parar aqui?

Seu tom era tão sombrio que cheguei a pensar que ele tivesse cometido um crime.

– Não. Você nunca me contou. – respondi.

– E você já parou pra pensar porque eu nunca disse nada?

Aquilo estava começando a me irritar. Onde Aaron queria chegar com aquela estranha conversa?

– E se eu e você – começou ele – estivermos aqui pelo mesmo motivo?

Aquilo me deu um arrepio. Não, com certeza Aaron não fazia idéia do que estava se passando comigo. Ele estava apenas confundindo a si mesmo pensando dessa forma.

– Você certamente não faz idéia do que me fez vir estudar aqui. – afirmei. – O que quer que esteja pensando não chega nem perto do motivo real.

Virei as costas e comecei a voltar pela trilha que me trouxera até ali. Vir à floresta foi uma péssima idéia. Já estava quase saindo da clareira e adentrando em meio às árvores, quando Aaron gritou:

– Eu consigo ver o futuro. – houve uma pausa. — E sei que você também pode.

Virei o corpo rapidamente e encarei Aaron nos olhos. Sua expressão era séria e imutável, e passava a impressão de que ele estava tentando ler minhas feições e interpretar a mistura de surpresa, medo e incredulidade que estampava meu rosto.

Caminhei lentamente de volta a ele.

– O que você disse? – falei, tentando confirmar o que havia ouvido.

– Eu só juntei as peças, Catherine. – disse ele. – O sonho que eu tinha sobre esse lago, que na verdade era uma visão. O sonho que você teve, e o fato de eu ter sonhado com você correndo na floresta em minha direção naquela noite. A ligação entre os dois sonhos. – ele inspirou profundamente o ar gelado e o soltou pela boca, fazendo a fumaça branca espalhar-se ao redor de sua cabeça. – Se apenas eu tivesse sonhado, eu interpretaria como uma visão qualquer. Mas quando você me contou aquilo, eu achei que tinha algo estranho nessa coincidência. Fiquei dias pensando sobre isso, e essa foi a única conclusão que consegui. A única explicação para que existisse essa ligação entre as nossas mentes era se nós dois fôssemos iguais.

Eu estava pasma.

– Mas... mas como... – gaguejei, exasperada. – Como você conseguiu descobrir a partir disso? Como sabia que existia essa coisa de mentes iguais compartilhando sonhos e visões...?

– Eu tenho esse dom desde os sete anos. – disse Aaron. – Acho que tive muito tempo para treinar e aprender sobre mim mesmo.

Sorri para ele. Meus pensamentos estavam num ritmo desenfreado, tentando entender aquilo tudo. De repente, meu sorriso se desfez ao pensar em como deve ter sido para Aaron, ainda criança, visualizar imagens amedrontadoras, que me causaram tantos traumas quando eu tinha onze anos.

– Você tem que prometer que não vai contar isso para ninguém. – falei.

– Será nosso segredinho. – disse ele com um sorriso, voltando a assumir a voz sarcástica que usava para fazer brincadeiras.

Pensei em contar a ele o que tinha visto durante o baile, mas deixei de lado. Aquilo podia ficar para outra hora. Aaron olhou para mim, os braços nus cruzados sobre o peito, completamente cheia de arrepios devido ao frio daquela noite de inverno, tirou o casaco do paletó e o colocou sobre meus ombros.

– Obrigada. – sussurrei.

– De nada. – disse ele, e ajuntou uma pedrinha que estava próxima ao seu pé. Jogou a pedra para cima e a pegou de volta algumas vezes, e depois a atirou no lago.

Ficamos em silêncio, observando a superfície negra e lisa da água ondular e fazer com que o reflexo da lua se tornasse um borrão esbranquiçado dançando diante de nossos olhos.