Contra O Tempo
2 Capítulo 2
Não sei dizer quanto tempo passei escorada à janela, olhando a paisagem. Peguei no sono sem perceber e só acordei quando o trem deu o solavanco típico de uma frenagem. Demorei alguns segundos para me situar, me dar conta de onde estava e o que estava acontecendo.
Eu estava em um trem, em algum lugar isolado dos Estados Unidos. Longe da minha família e dos poucos amigos que tinha feito nos últimos três meses em que estudei na minha antiga escola.
Ouvi o som de passos em debandada no corredor e o murmúrio de conversas, e deduzi que era hora de desembarcar. Nenhuma das outras paradas que o trem fizera no meio da viagem, pelo menos enquanto estivera acordada, tinha causado tanto alvoroço nos corredores.
Arrastando minha mala atrás de mim, saí da cabine onde estava e me dirigi ao tumulto de alunos, todos igualmente levando grandes malas atrás de si. Percebi, ao reparar em duas garotas que saíam de uma cabine, que eu era a única que viajara sozinha. Todos dividiram as cabines com parceiros de viagem. Ótimo, pensei. Vou ser a garota isolada de novo.
Respirei fundo e continuei meu caminho até a saída do trem, afinal, não tinha muita escolha.
Estávamos em uma pequena estação férrea, no meio do nada. Para chegar até a escola, teríamos de ir andando, porque os trilhos do trem só alcançavam até ali. Dei outro suspiro. Mais dois anos, pensei. Agüente isso, pela mamãe.
Prossegui apenas indo aonde os outros iam, já que conheciam o caminho. Esse não era o tipo de escola que deveria receber muitos alunos novos por ano, a não ser os do primeiro ano, que também não eram muitos. Porém, por mais que fossem novatos, todos conversavam entre si com animação, alguns porque já eram amigos ainda da escola primária, e outros porque eram extrovertidos o suficiente para fazer amizade com os veteranos, ainda dentro do trem. Cheguei à conclusão de que eu poderia ser a única ali que estava completamente sozinha e quieta. Todos, com exceção a mim, é claro, conversavam animadamente em grupos de duas a cinco pessoas. Baixei a cabeça e fui caminhando em silêncio, um pouco afastada da multidão. Depois de alguns minutos andando, era possível ver ao longe os portões de ferro da escola escancarados. À medida que o grupo se aproximava, eles pareciam se tornar assustadoramente maiores, não pelo ponto de vista, mas pela impressão de imponência que causavam. Atravessamos o portal de entrada e todos foram parando por ali. Eu não sabia o porquê, então parei também. Talvez estivessem esperando algum tipo de instrutor chegar e dar as boas vindas, ou perguntar como haviam sido as férias. Eu não saberia o que dizer. Minha antiga escola tinha o costume de começar o ano letivo antes das outras. Enquanto todos ali estavam de férias até uma semana atrás, eu estava tendo aulas, e vivendo o caos que tinha provocado e que me fizera vir parar ali.
Olhei ao redor. O lugar era sombriamente calmo. Não se ouvia nada — sem contar o barulho dos alunos — além do piar tímido de poucos pássaros. Talvez fosse porque as aves não arriscassem sair dos ninhos devido ao frio do outono.
Tudo que minha vista conseguia alcançar era verde. O lugar era um campo enorme, com uma floresta à esquerda e à direita, um caminho de terra que desaparecia ao longe e levava não sei onde. Na linha do horizonte, montes verdes fechavam a paisagem e me faziam sentir cada vez mais presa em um lugar distante da minha casa, de onde eu não sabia – e não podia – sair.
No fundo do campo, havia um casarão antigo, da cor de tijolos de barro, com imensas janelas e uma videira que subia pelo lado esquerdo da fachada frontal: o prédio da escola.
Fiquei mais uns cinco ou dez minutos esperando ali na entrada, em silêncio. Então, quando as conversas animadas dos outros alunos foram diminuindo até se tornarem apenas murmúrios, olhei ao redor e percebi o motivo: um homem de meia idade, de barba e cabelos castanhos e uma mulher, que aparentava ser um pouco mais nova, porém com uma expressão séria formada pelo seu olhar severo, pelo terninho preto que usava e pelos cabelos presos em um perfeito coque no alto da cabeça. Eles caminhavam em direção ao grupo de alunos, a mulher segurando uma pastinha e o homem com as mãos nas costas, tirando vez ou outra um dos braços para ajeitar os óculos que ficavam lhe caindo sobre o nariz. Só poderiam ser os diretores do colégio.
– Boa tarde, queridos alunos! – disse o homem. – Para aqueles que não me conhecem, me chamo Louis Edmond, e sou o diretor desta escola. Esta é Maria Smith, a coordenadora. – disse, apontando a mulher. De perto, vi que ela era latina e, apesar de séria, era bonita. — Quero desejar que sejam todos bem-vindos, e que tenham um ótimo ano! Os alunos do primeiro ano, por favor, coloquem-se à esquerda; os do segundo fiquem aqui no meio e os do terceiro ano, à direita. Eu acompanharei os calouros por um tour pela escola, e depois os levarei até seus dormitórios. Alunos do segundo e terceiro ano, sigam a senhorita Smith até seus quartos.
A maior parte dos alunos da escola eram os de segundo e terceiro ano. Depois de ouvir a ordem do diretor, uma massa de adolescentes se deslocou atrás da Srta. Smith, a mulher com cara de séria. Ela não falou nada além de “por aqui” e depois caminhou sem dizer uma palavra, os saltos fazendo um poc poc poc irritante pelos corredores. É difícil julgar uma pessoa que você conhece em cinco minutos, mas eu poderia jurar que o Sr. Edmond parecia muito mais... humano.
No meio do caminho, comecei a pensar que talvez devesse ter ido ao tour junto com os calouros do primeiro ano. Era óbvio que entre segundo e terceiro eu era a única aluna nova, e a direção da escola não iria fazer com que todos as alunos que já conheciam a instituição passassem novamente por uma apresentação só por causa de uma garota. Eu teria de me enturmar com os outros e deixar que alguma pessoa simpática me mostrasse a escola. Como foi em todas as outras. Adotei a possibilidade de conhecer aquilo tudo sozinha, mas descartei a idéia logo em seguida. A escola era enorme. Eu me perderia facilmente ali dentro.
Finalmente chegamos ao pavilhão de dormitórios femininos do segundo ano. A Srta. Smith tirou uma folha da pasta e a pregou em um mural que havia em uma espécie de “sala de convivência”, uma área em comum com sofás e uma televisão para as garotas do pavilhão se reunirem no tempo livre. Depois disso, apenas falou:
– Garotas, sua parada é aqui. Os meninos do segundo e o pessoal do terceiro, me acompanhem.
Aproximei-me da folha para ver o que dizia. Era uma lista, indicando o número do quarto de cada aluna. O meu era o 215. Sem demora, ajuntei minha mala e fui até o quarto. Era o último do corredor. Quando já estava fechando a porta atrás de mim, uma voz gritou:
– Ei, você no 215! Espere!
Parei e olhei para fora. Uma garota ruiva, de olhos castanhos e cabelos ondulados corria com uma mala meio surrada a tiracolo. Ela derrapou no fim do corredor, para poder parar, e quase bateu de lado na parede.
– Achei que fosse me trancar do lado de fora.
Fiquei olhando para ela sem saber o que dizer, mas antes mesmo que pudesse falar alguma coisa ela disse:
– Estou só brincando com você. Também tenho uma cópia da chave. – Ela balançou o chaveiro no ar.- É nova por aqui, não é? Nunca te vi pela escola durante o ano passado.
– Sim, estou começando esse ano mesmo. Meu nome é Catherine.
– Prazer, Lindsay. – disse a garota estendendo a mão. – Acho que seremos colegas de quarto.
– É, acho que sim.
– Você é de falar pouco ou está nervosa por ter trocado de escola?
Como se eu já não tivesse feito isso inúmeras vezes, pensei.
– Eu... bem, só estou um pouco cansada da viagem.
– Então é melhor descansar. As aulas começam amanhã cedo. De tarde eu posso te mostrar a escola, se quiser.
– Ok. – Eu disse, e pela primeira vez desde que recebera a notícia de que iria estudar nesse colégio, percebi que estava sorrindo.
Fale com o autor