Os olhos bem abertos e o sorriso largo no rosto demonstravam com clareza toda a ansiedade que sentia naquele momento. No peito o coração batia com a força de um Onix, sentia como se a qualquer momento ele fosse atravessar a pele e pular para fora do corpo para ficar saltando de animação sobre o balcão do Centro de Registro. A atendente do local veio em sua direção com a expressão cordial de sempre, já devia estar mais do que acostumada a ver pessoas naquela situação.

A sua frente foi colocada a bandeja com os pertences que eram recebidos da Confederação como boas-vindas aos novos cadastrados. Assim que recebia sua Tag, como eles denominavam o registro para uso profissional de pokémons, era entregue uma PokéGear, equipamento de alta tecnologia que funcionava como um mini-computador, podendo ser carregado em mãos ou preso ao pulso como um relógio, por ele era possível acessar a pokédex, seu registro de pokémons capturados, mapas das região, contatos cadastrados e muitas outras coisas, como conta bancária e etc. Além da Gear, também era dado aos novos usuários de pokémon seis pokébolas iniciais e três mil Créditos, a moeda corrente desde a criação da Confederação.

O uso de pokémons estava muito diferente do que fora no passado. Com o passar do tempo e a chegada de novas tecnologias e resultado de pesquisas, os pokémons foram totalmente integrados na vida humana e passaram a ser parte ativa do desenvolvimento da sociedade. Agora, pessoas estudavam desde cedo sobre o uso de pokémon e aos dezessete anos tinham o direito por lei de tirar um registro que os permitia usá-los de forma profissional. Alguns optavam pelo registro de treinador ou coordenador, enquanto outros pediam para pesquisas e uso no trabalho.

Aquela era a vez de Nikolas, que acabava de se formar no curso de treinadores e, já com seus dezessete anos completos, realizava naquele momento o seu registro oficial. Agradeceu com um simples manejar de cabeça e saiu em corrida pelas portas duplas do Centro que se abriram para que ele passasse, ouvindo de longe a reclamação do membro da segurança por correr ali dentro.

O menino partiu em alta velocidade pela calçada de pedras encaixadas da cidade de Celadon, na região de Kanto, onde nasceu e cresceu. Com o passar dos anos, o local acabou se tornando o maior centro econômico de toda Kanto, sendo também a maior cidade em extensão territorial. Todas as ruas da cidade eram ligadas por trilhos metálicos que cortavam o asfalto no meio, por onde passava o bondinho em intervalos regulares de dez minutos, sendo o meio de transporte mais usado do lugar, tanto por ser grátis, como pela facilidade de acesso.

Assim como todas as outras cidades, Celadon era constituída de uma região central apinhada por prédios comerciais e alguns residenciais, enquanto as áreas mais externas se dedicavam a casas e lojas de rua, até que chegassem na área mais isolada da cidade, onde eram cultivadas algumas fazendas e criadouros para pesquisa de pokémons. Não tardou para que o jovem Nikolas se encontrasse mais uma vez na Rua 4 do Distrito residencial, onde morava desde que sua memória podia recordar.

Saltou do bonde, que andava em velocidade moderada para que todos pudessem entrar e sair sem que ele tivesse de interromper seu curso, uma vez que era automatizado e não contava com alguém que o dirigisse. Atravessou em um salto o pequeno portão de madeira localizado no ponto central da cerca viva que demarcava o início da casa de número 43, seguindo pelo caminho de pedra que cortava o jardim frontal.

A casa era bonita, de tijolos vermelhos, com dois andares e um sótão. O telhado tinha uma coloração cinza, indicando que o branco que residia ali já havia se desgastado pelo tempo. Na entrada, entre a cerca viva e a varanda da casa, havia um gramado bem aparado cortado no meio por um caminho de pedras, largo, mas não o suficiente para caberem duas pessoas lado a lado. De frente para a varanda, uma pequena fileira de flores cheias parecia contornar a casa, dando a ela um ar mais leve. Do lado de fora, na calçada, era possível ver a caixa de correios com o nome “Campbell”.

Entrou pela porta como um furacão, largando a mochila sobre o sofá e correndo para o cômodo lateral, onde ficava a sala de jantar junto da cozinha, divididos apenas por um balcão de altura mediana. Os olhos esverdeados de Nikolas analisavam o lugar de forma frenética, buscando qualquer presença dos pais. A ansiedade de contar para eles que fizera o registro e estava pronto para partir em sua jornada era gigantesca, principalmente pela notícia da manhã que teria uma surpresa o aguardando quando voltasse do Centro de Registro.

A porta de correr que levava à área externa se abriu e o garoto pode ver seu pai entrando distraidamente em casa. Eles se olharam por um momento, até que o mais velho sorriu, deixando o jornal sobre a mesa de jantar e voltando-se para o filho.

— Aí está você, rapazinho, achei que não ia chegar nunca!

George Campbell era um homem de altura mediana, cabelos castanhos levemente ondulados cortados acima dos olhos de mesma cor. Tinha por volta dos seus cinquenta anos e era professor na Universidade Oak, famosa por formar pesquisadores e criadores pokémon por todo o mundo. Ele voltou a abrir a porta de correr que levava ao quintal traseiro da casa, estendendo o braço para que o filho passasse.

— Vai ficar aí pra sempre? Vamos ali fora ver sua surpresa.

Os dois atravessaram juntos o portal para a parte de fora da casa. Nikolas já se mostrava mais alto que o pai, possuindo os mesmos cabelos castanhos ondulados do mesmo. Enquanto os do pai eram mais arrumados e aparados, os do menino se mostravam um pouco mais rebeldes, soltos sobre o rosto, as vezes chegando a cair sobre os olhos esverdeados, que puxara da mãe.

Lauren Campbell esperava do lado de fora, sobre a grama. Tinha a altura muito parecida com a do marido, sendo ligeiramente mais baixa. Seus cabelos eram castanhos em um tom mais escuro que o dos outros dois, e completamente liso, normalmente preso em um rabo de cavalo. A mulher era conhecia por toda a região de Kanto por seu trabalho no ramo da Psicologia. Junto de Magnus, seu Alakazam, ela fora capaz de tratar de todos os casos que apareciam a sua frente, além de ser responsável por algumas descobertas sobre o funcionamento da mente humana. Tinha por volta da mesma idade do marido, conheceram-se na época da escola e desde então, nunca mais haviam se separado.

— Ora, achei que seria mais rápido, estávamos aqui achando que só chegaria amanhã — Ela soltou uma risada baixa e calorosa, levantando-se de sua posição abaixada para abraçar o filho — E então, como foi?

— Correu tudo bem, bastou eu passar as informações e o certificado de conclusão do curso e receber os equipamentos — Nikolas mostrou a PokéGear que estava no bolso.

— Que bom. Seu pai vai te entregar aquela surpresinha que falamos mais cedo, enquanto isso, vou buscar Magnus para podermos comemorar seu início como treinador.

Nikolas confirmou, afastando-se da mãe para que ela pudesse voltar a entrar na casa. Respirou fundo, sentindo a excitação crescer dentro de si. Desde que se lembrava por gente, o garoto sonhava em se tornar um verdadeiro treinador pokémon e viajar o mundo, batalhando e capturando todos aqueles que conseguir. Foi interrompido de seus devaneios ao ver o pai se aproximando com uma embalagem quadrada um pouco maior que a sua mão.

— E isso seria?

— Sua surpresa, é claro. Com isso você vai poder começar sua jornada de treinador da forma correta.

O garoto sorriu, em um misto de nervosismo e felicidade, e pegou seu presente, apressando-se em rasgar o papel da embalagem e abrir a caixa. Dentro do papelão havia uma pequena pokébola que fez seu coração querer sair pela boca. Engoliu seco, incapaz de proferir mais uma palavra sequer, e segurou a esfera em sua mão. Os olhos buscaram o pai com certo nervosismo, quase sem saber reagir.

— Consegui na Universidade, nasceu já tem algum tempo, e ainda é um pokémon inexperiente, mas vai lhe servir bem, disso tenho certeza.

Nikolas lançou a pokébola sobre a grama, fazendo-a abrir e revelar seu conteúdo. A criaturinha não tinha mais de meio metro de altura, apoiando-se sobre as quatro patas. Os pelos eram negros, com diversas listras em cor laranja, e algumas partes mais cheias em um tom mais claro, beirando o bege. O Growlithe tinha a coloração de seu corpo invertida, o que o tornava de certa forma especial. Ele soltou um grunhido em tom de dúvida, como se buscasse reconhecer o local onde estava.

O rapaz abaixou, passando a mão de forma carinhosa sobre o pelo do Growlithe, que parecia começar a se animar com a ideia de ter saído um pouco da pokébola. O pokémon abanou o rabo, mordendo sutilmente os dedos do novo dono antes de começar a correr e pular pelo gramado, divertindo-se sozinho com qualquer coisa que encontrasse.

— Ele é incrível! Obrigado pai, realmente não sei nem como agradecer por isso.

— Vai me agradecer seguindo seu sonho e se tornando o melhor treinador da Liga de Kanto, mas por enquanto, só o obrigado já me basta — O homem riu, indicando o Growlithe com a cabeça — Não vai dar um nome para o nosso amigo?

— Vai se chamar… — Nikolas se adiantou para pegar o Growlithe em suas mãos, levantando-o em cima da cabeça — Argos!

E assim seguiu a rotina de comemorações da família Campbell naquela tarde de domingo. O recém batizado Argos parecia se divertir importunando Magnus enquanto Nikolas comia e se divertia com seus pais, ouvindo histórias sobre treinadores e conselhos sobre o mundo pokémon.

Na manhã seguinte, adiantou-se para comprar os equipamentos necessários na Tri-tour, arrumando uma barraca de camping, cordas e todos os outros equipamentos que havia aprendido a manejar nas aulas para viajar de forma segura. O começo da jornada seria tranquilo, e apesar de Celadon possuir um Ginásio licenciado da Liga de Kanto, Nikolas havia decidido que esse seria o último que enfrentaria.

Arrumou suas coisas e partiu logo após o almoço, despedindo-se dos pais, graças a tecnologia do PokéGear, sabia poderia manter contato, mas não os veria de fato por algum tempo. Rumo para o leste, seguiria pelo estreito da Rota 7 em direção a cidade vizinha de Saffron. Ao seu lado, Argos parecia animado com a ideia de viajar tanto quanto o treinador. Começariam ali, juntos, a jornada em busca do topo da Liga de Kanto, e sabia que os desafios estavam prestes a começar.

Notas finais
É um capítulo totalmente introdutório. Além de apresentar o personagem principal e seu pokémon inicial, o capítulo tem como foco maior mostrar a evolução natural do mundo pokémon, como eles passaram a se integrar na humanidade e como tudo se desenvolveu durante os anos, mostrando a criação da Confederação, a formação da Liga de Kanto, assim como as leis de uso de pokémon para maiores de dezessete anos e outros detalhes. Mais adiante teremos uma melhor exploração do personagem principal e seu companheiro, testando sua personalidade diante de desafios e da jornada que segue.