Contos do Treinador

2 Ninho de Problemas


Argos avançou em um salto e fez com que seu corpo caísse sobre o do pequeno Meowth, usando seu peso para o manter preso e mordendo o corpo do pokémon. Obedecendo aos comandos de seu treinador, o Growlithe recuou, prendendo as quatro patas no chão e cuspindo três pequenas esferas de fogo em seu inimigo.

A pokébola voou pelo ar e atingiu o já derrotado Meowth, balançando como se apenas seguisse um protocolo já definido e confirmando a captura sem muita demora. Nikolas olhou a PokéGear, agora presa em seu pulso esquerdo, conferindo as horas. De acordo com o relógio estava na floresta da Rota 7 há exatamente uma hora.

Desde que saíra de Celadon ficou decidido que não usaria a rua principal, uma vez que por ela bastaria uma caminhada simples de vinte minutos para estar em Saffron. Nikolas avançou por entre as árvores, pela trilha alternativa, uma vez que assim poderia ter chances de não apenas testar o aprendizado de sua formação e treinar seu Growlithe, mas também capturar novos pokémons, como aquele Meowth.

Até agora, das seis pokébolas iniciais que recebera ao completar seu registro, havia gasto quatro. A primeira em um Vulpix, onde Argos e seu treinador tiveram sua primeira batalha juntos, mostrando que existe esperança entre os dois. Logo após isso, acabara gastando duas pokébolas para capturar um Rattata e agora o Meowth.

Tinha de agradecer a formação. Ao contrário dos treinadores de antigamente, agora todos eram formados e graduados, e isso trazia enormes benefícios. Durante as simulações de batalha e estudos, aprendiam tudo sobre tipologia dos pokémons, efeitos de golpes e como agir em combate, além, claro, de táticas básicas de sobrevivência, como montar acampamentos, lidar com climas gélidos e coisas do tipo.

Durante as batalhas a afinidade entre pokémon e treinador começava a crescer, assim é claro, como a confiança de Nikolas no que fazia. Ali, em ambiente selvagem, com pokémons lutando sem toda a pomposidade das salas de aula, a coisa se mostrava um pouco mais complexa, mas aos poucos se adaptava, e muito disso devia ao companheiro. Argos reagia com maestria aos comandos de seu treinador, e não apenas isso, quando julgava necessário sabia o momento de esquivar e contra-atacar com rapidez sem que fosse preciso lhe ordenar.

Não demorou muito para que o Growlithe aprendesse golpes novos, como o ember, permitindo que atacasse com seu tipo fogo, o que lhe dava alguma vantagem em combate, pelo menos contra a maioria dos pokémons daquele lugar. Lembraria de agradecer muito ao pai pelo presente assim que chegasse em Saffron e conseguisse fazer contato pela PokéGear para avisar que tudo estava bem.

Estava caminhando por entre uma fileira natural de árvores quando um som lhe roubou a atenção. As orelhas de Argos levantaram para confirmar que havia algo ali perto, e provavelmente um pokémon. Nikolas sentiu a adrenalina começar a correr e a animação de mais uma batalha. Lentamente, para não assustar a criaturinha, esgueirou-se por trás de uma árvore para observar com cautela, enquanto Argos caminhava com o corpo abaixado ao seu lado,como se preparasse um bote.

Em um espaço aberto entre as árvores, não grande o suficiente para ser uma clareira, mas bastante amplo, o que permitiria uma batalha, um Spearow parecia limpar as asas após comer seu almoço. No chão o resto de pequenas frutas indicava que ele já havia se alimentado. Uma das asas estava aberta e o pokémon bicava suas penas distraidamente, limpando-se de sujeiras desnecessárias.

Era um alvo perfeito, uma vez que Nikolas andava fazendo certa questão de se manter afastado de pokémons que já havia capturado. De acordo com a PokéGear, caso capturasse aquele Spearow, teria conseguido todos os pokémons de evolução primária do lugar, o que seria um começo genial em sua carreira de treinador. Sorriu, sentindo a ambição se unir a adrenalina.

Argos entendeu o sinal quando seu treinador balançou a cabeça na direção do seu mais novo inimigo. O Growlithe se esgueirou lentamente por entre arbustos até que conseguisse uma distância favorável e saltou contra o Spearow, a boca aberta com as presas amostra, tentando realizar um bite e morder o pássaro. Mais pelo susto do que por vontade própria, o pokémon bateu as asas, afastando-se o suficiente para desviar da mordida por milésimos.

— Argos, ataque com o Ember! — Nikolas avançou por detrás das árvores, tomando sua posição no combate, agora que haviam sido revelados.

Agindo quase que no mesmo instante que seu treinador dava a ordem, ele inspirou, prendendo suas patas no chão e cuspindo as pequenas esferas flamejantes na direção de seu alvo, que apesar de ter desviado, acabou sendo atingido de raspão e conseguindo uma asa chamuscada que o atrapalharia a se movimentar.

O Spearow não parecia que ia se deixar atacar dessa forma e muito menos que facilitaria sua captura. Em seu voo desconcertado, por causa do ferimento recente, lançou-se contra o Growlithe, bicando-lhe o alto da cabeça por duas vezes seguidas antes de sair para o lado e cair rolando na grama. Nikolas sorriu e sentiu uma oportunidade, lançando uma de suas pokébolas restantes contra o pokémon.

Ao ver o pássaro cair após atacar, precipitou-se em achar que havia se ferido o suficiente para ser capturado, e viu que estava muito errado assim que a pokébola engoliu o Spearow, quebrando quase que no mesmo momento e mostrando que o pássaro ainda tinha muito para dar. Praguejou mentalmente, reprimindo a si mesmo pela ansiedade em capturar o último restante daquela Rota, uma vez que a batalha mal tinha começado e acabara perdendo uma pokébola atoa.

O Spearow percebeu o pequeno momento de indecisão do treinador de seu inimigo e fugiu por entre a floresta com certa pressa. Argos olhou confuso para Nikolas, que voltava a xingar aos ventos enquanto começava a correr para onde o pássaro havia ido, com seu Growlithe logo o acompanhando. Não perderia a chance de começar tão bem sua jornada por um erro daqueles.

Seguiu pelo caminho entre as árvores, deixando que Argos tomasse a frente. Com os sentidos mais aguçados do pokémon. Não demorou muito até que se visse de frente para uma pequena clareira, mas diferente de outras da floresta, essa terminava de frente para um gigantesco paredão de pedra que indicava o fim da Rota 7 ao norte. O Growlithe rosnou para o morro, chamando atenção de Nikolas para um ponto cerca de cinco metros acima, em uma saliência peculiar onde o Spearow de antes estava apoiado.

Sob seus pés ficava óbvio pela palha que cercava que estava em seu ninho, e isso não demorou para confirmar que era um péssimo sinal. Ouviu-se um som agudo ameaçador cortar o ambiente acima do treinador, que logo percebeu o Fearow entrando em seu campo de visão. Era enorme, devia ter mais de dois metros de comprimento do rabo à ponta do bico, e parecia furioso por estarem próximos de seu ninho e perseguindo um de seus filhotes.

Nikolas sentiu um arrepio gelado subir por sua espinha, imóvel, diante do pokémon que descia até sua frente, cerca de três metros de distância, batendo as asas sem tocar o chão, ainda que praticamente parado no ar. Argos, de forma protetora e instintiva, tomou a frente de seu treinador, rosnando ameaçadoramente para o novo oponente. O rapaz engoliu a seco, tentando por a mente em ordem para arrumar um jeito de sair daquilo.

O Fearow parecia analisar os dois, como se esperasse que eles fizessem o primeiro movimento. Era mais do que claro que Argos não daria conta de derrotá-lo, e assim que tentassem fugir, ele atacaria. Nikolas fechou a mão em punho, forçando as unhas contra a palma para que a dor lhe acordasse do medo súbito. Precisava por em prática o que aprendera no curso, era um treinador pokémon, e situações como aquela eram comuns. Respirou fundo e tomou a ação que julgou mais correta no momento.

— Argos, ataque com o Ember o chão a frente do Fearow, assim que a terra subir usaremos a distração para correr.

O Growlithe emitiu um latido como se compreendesse a intenção de seu treinador e preparou-se para a ação. Inspirou profundamente e cuspiu as esferas flamejantes, que atingiram em cheio a grama a frente do Fearow. O estouro fez com que a terra se soltasse do chão, criando uma espécie de “cortina de fumaça” improvisada, com restos queimados de mato e terra revirada, e nesse momento Argos e Nikolas viraram para correr para longe dali.

Quando sentiu um pequeno gostinho da esperança lhe tomar a cabeça ouviu um grunhido atrás de si que chamou atenção. O Fearow havia levantado voo quando as chamas se aproximaram e agora tentara atacar Nikolas de costas, mas Argos bloqueou o pokémon usando o próprio corpo como escudo para proteger seu treinador.

Os olhos do rapaz se arregalaram ao ver o Growlithe voando contra uma árvore enquanto gritava seu nome. Virou o mais rápido que seu corpo permitia, retornando-o para pokébola em uma tentativa desesperada de minimizar seus ferimentos, e ficando frente a frente contra uma mãe furiosa que defendia seus filhotes de invasores. Tentou voltar a correr, tropeçando nas raízes soltas de uma árvore e caindo indefeso contra o chão.

Encolheu completamente o corpo, ciente de que seria seu último momento como treinador, e de certa forma satisfeito pelo bom começo. Ouviu um bater de asas frenético atrás de si e o Fearow voltar a emitir seu grito agudo e assustador. Respirou fundo e aguardou o impacto que nunca aconteceu. Acordou de sua conformidade para com a morte ao ouvir os baques do corpo do pokémon inimigo contra o chão, virando-se de sobressalto para tentar entender o que acontecera.

A sua frente, um outro rapaz estava parado, de costas para Nikolas e com os braços abertos no que parecia ser um gesto para o defender. O Fearow, que antes atacava voraz, agora se levantava com certa dificuldade, arrumando o corpo para preparar um novo voo. Entre os dois, um pokémon desceu dos céus e se colocou, pronto para agir. Era também um pássaro, mas seu corpo e suas penas, se é que podem ser chamadas de penas, possuíam um tom metálico assustador, demorou alguns segundos para assimilar que se tratava de um Skarmory, e o homem a sua frente era seu mais novo salvador.

Notas finais
Primeira aparição de confrontos na fic, além de um novo treinador. Tento começar a introduzir mais dinâmica, apesar do capítulo ser de certa forma corrido. Algumas coisas ficam claras, como a ideia de que não devo descrever toda batalha pokémon que ocorrer, podendo citar elas rapidamente para agilizar algumas coisas, assim como, não devo descrever detalhadamente cada ordem de Nikolas, narrando mais as ações de Argos e deixando subentendido que ele segue as ordens do treinador, uma vez que acho que no futuro vai trazer mais dinamismo. No próximo capítulo teremos uma noção melhor do homem misterioso e seu Skarmory, assim como provavelmente bem mais dinâmica, conversa e ação do que nesse. Espero que continuem lendo e gostando, pretendo tentar postar um capítulo todo domingo/segunda.