Contos do Makai

1 O plano perfeito


Notas iniciais
Minha ideia é que cada capítulo traga uma história inédita do universo de Yu Yu Hakusho, sempre respeitando o cânone. Este conto se passa antes dos acontecimentos do anime, quando Kurama ainda era conhecido como Youko Kurama e vivia no Makai. Nessa época, Kuronue (personagem que aparece apenas no filme) e Yomi faziam parte de seu círculo de companheiros. Como o material oficial mostra muito pouco dessa fase, boa parte da dinâmica entre eles foi imaginada por mim, tentando respeitar suas personalidades e os acontecimentos canônicos.

O plano era perfeito.


Pelo menos era isso que Kuronue dizia.


Agachado diante dos outros dois, ele riscava o chão com um graveto, desenhando o mapa da fortaleza.


— Escutem bem. — Seu sorriso confiante fazia parecer que não havia a menor chance de algo dar errado. — Entramos pelos fundos, pegamos o artefato e saímos antes que percebam. Sem luta. Sem perseguição. Sem problemas.


Sentado sobre uma pedra, Kurama apoiou o queixo na mão e arqueou uma sobrancelha.


— Curioso... sempre que você diz "sem problemas", acabamos fugindo de alguma coisa.


Kuronue levou a mão ao peito, fingindo ofensa.


— Coincidência.


Ao lado deles, Yomi cruzou os braços.


— Da última vez fugimos de um dragão.


Kuronue apontou para ele imediatamente.


— Porque VOCÊ acordou o dragão!


— Ele roncava alto demais. — respondeu Yomi, completamente sério.


Kurama soltou um pequeno suspiro.


— Era um dragão dormindo, Yomi.


—


Cinco horas depois…


Os três estavam escondidos atrás de um velho muro de pedra.


As roupas estavam rasgadas.


Os braços cobertos por pequenos cortes.


Havia poeira até nos cabelos prateados de Kurama.


Por alguns minutos, ninguém disse absolutamente nada.


Kuronue permanecia com o rosto escondido entre as mãos.


Kurama observava o horizonte, respirando fundo para decidir se ria ou estrangulava o amigo.


Já Yomi mantinha a postura relaxada, como se estivesse apenas descansando depois de uma caminhada comum.


Foi Kurama quem finalmente quebrou o silêncio.


— Então…


Nenhum dos dois respondeu. Kurama virou lentamente o rosto para Kuronue.


— Em qual parte exatamente o plano começou a dar errado?


Kuronue ergueu um dedo, como um aluno prestes a defender uma tese.


— Tecnicamente…


Kurama estreitou os olhos.


— Não diga "tecnicamente".


— ...o roubo deu certo.


Kurama piscou algumas vezes.


— Sim. Nós pegamos o artefato.


— Exatamente! — respondeu Kuronue, satisfeito.


— Também acordamos quarenta guardas.


— Um detalhe.


— Derrubamos metade da muralha.


Kuronue deu de ombros.


— Ela já estava velha.


Kurama continuou a lista sem alterar o tom de voz.


— Você incendiou o depósito.


— Foi sem querer.


— Um rinoceronte demoníaco nos perseguiu por oito quilômetros.


Kuronue fez uma careta.


— Quem imaginaria que ele corresse tão rápido?


Yomi finalmente resolveu participar da conversa.


— Eu avisei para você não puxar o chifre dele.


Kuronue abriu as mãos.


— Eu achei que fosse uma alavanca!


O silêncio voltou por alguns instantes.


Depois, Kuronue suspirou.


— Ainda acho que a pior parte foi a ponte.


Kurama concordou imediatamente.


— Sem dúvida.


Yomi balançou a cabeça.


— Discordo.


Os dois olharam para ele.


Com a mesma expressão séria de sempre, Yomi respondeu:


— A pior parte foi quando Kuronue tentou se misturar aos guardas.


Kuronue arregalou os olhos.


— Funcionou por uns dez segundos!


Kurama finalmente sorriu.


— Funcionaria melhor se você não tivesse chegado dizendo: "Boa tarde, colegas da segurança."


— Eu estava sendo simpático.


Kurama olhou para as roupas completamente pretas do amigo.


— Você era o único vestido como um ladrão.


— Detalhes.


Mais alguns minutos se passaram.


Os três continuavam sentados entre os escombros, cansados demais para pensar em voltar.


Então Kuronue abriu um sorriso satisfeito.


— Pelo menos conseguimos.


Kurama franziu a testa.


— E com quem está?


Os três congelaram.


Kuronue olhou para as próprias mãos.


Depois para o cinto.


Depois para a pequena bolsa presa à cintura.


Seu sorriso desapareceu lentamente.


— Ah...


Kurama fechou os olhos por um instante.


— Kuronue...


— Acho...


— Não termine essa frase.


Kuronue coçou a nuca, claramente envergonhado.


— ...acho que deixei o artefato lá dentro.


Yomi ficou completamente imóvel. Então começou a rir.


Uma gargalhada verdadeira, rara e tão inesperada que fez Kurama olhar para ele, incrédulo.


Bastaram alguns segundos para Kurama também perder a compostura.


Logo os dois riam tanto que mal conseguiam respirar.


Kuronue olhava de um para o outro sem entender.


Quando finalmente percebeu o tamanho do desastre, levou a mão ao rosto e começou a rir junto deles.


Sentados sobre pedras quebradas, cobertos de poeira e arranhões, os três não conseguiam mais parar.


Tinham escapado de uma fortaleza cercada por dezenas de guardas, sobrevivido a um rinoceronte demoníaco e destruído parte da muralha...


Mas haviam esquecido justamente o motivo de terem entrado lá.