Contos do Makai
2 Só duas doses
Notas iniciais

Yusuke tinha apenas uma regra na barraca.
— Nenhum bêbado fazendo bagunça no balcão. — Disse Yusuke olhando para Kuwabara que havia derramado um pouco de cerveja sobre a bancada.
Kuwabara apontou para Hiei.
— Então explica por que você deu bebida pra ele.
Yusuke olhou para o pequeno copo vazio sobre a mesa.
Depois para a garrafa.
Depois para Hiei.
— Eu dei UMA dose.
Kurama sorriu discretamente.
— Tecnicamente... foram duas.
— Duas?
— A segunda ele serviu sozinho.
Yusuke arregalou os olhos.
— Desde quando esse anão bebe?
Hiei permanecia sentado tranquilamente.
Segurava a garrafa como se fosse a coisa mais natural do mundo. As bochechas estavam levemente avermelhadas. Os olhos pareciam um pouco mais pesados.
Ainda tinha aquela postura séria…
Mas algo estava definitivamente diferente.
Muito diferente.
Kuwabara cutucou Yusuke.
— Ele tá bêbado?
— Não faço ideia.
Kurama observou Hiei por alguns segundos.
— Nunca o vi beber…
— Então?
— Também nunca o vi... sorrindo desse jeito.
Os três olharam ao mesmo tempo. Era verdade. Havia um pequeno sorriso no rosto de Hiei.
Pequeno.
Mas inconfundível.
Yusuke se aproximou devagar.
— Ei…
Hiei levantou os olhos.
— Fala.
Yusuke congelou.
"Ele respondeu sem resmungar.”
"Sem cara de quem vai me matar."
Aquilo era preocupante.
— Você tá bem?
Hiei olhou para a própria garrafa. Pensou seriamente na pergunta por alguns segundos.
— Acho… que gosto deste lugar.
Silêncio.
Kuwabara deixou os hashis caírem. Kurama piscou algumas vezes. Yusuke virou lentamente para os amigos.
— Vocês ouviram isso?
Kurama assentiu.
— Ouvi.
— Eu também. — disse Kuwabara.
Hiei tomou outro gole.
— A comida é boa.
Yusuke abriu um sorriso enorme.
— Tá ouvindo isso, Kuwabara?!
— Ele elogiou sua comida!
— AH MOLEQUE, EU FUI ELOGIADO PELO HIEI!
Kuwabara cruzou os braços.
— É a bebida.
— Não estraga o momento garoto!
Cinco minutos depois…
Hiei já estava um pouco mais solto. Não falava muito. Mas ria. Baixinho. Toda vez que Kuwabara reclamava de alguma coisa.
— Eu pedi carne!
— Você já comeu três porções.
— Mas essa era diferente.
Hiei soltou um riso curto. Quase imperceptível. Kurama levou a mão à boca para esconder o próprio sorriso.
— Acho que descobrimos um fenômeno raro.
— Qual? — perguntou Yusuke.
— Hiei... bem-humorado.
Mais tarde, a barraca já estava quase fechando.
Hiei levantou-se.
Pegou a garrafa.
Olhou para ela por alguns segundos. Depois a colocou cuidadosamente sobre o balcão.
— Obrigado pela comida.
Yusuke ficou imóvel.
Kuwabara também.
Kurama apenas observava.
Hiei deu meia-volta.
Caminhou até a saída.
Parou.
Olhou discretamente por cima do ombro.
— Semana que vem...faça o mesmo ensopado.
E desapareceu na noite.
O silêncio permaneceu por vários segundos. Até que Kuwabara respirou fundo.
— Ninguém… — Kuwabara começou.
— Vai acreditar na gente. — Yusuke concordou. — Se eu contar que o Hiei bebeu, elogiou minha comida, deu risada e ainda disse que volta semana que vem…
— Vão achar que foi você quem bebeu.
Os três caíram na gargalhada. — Kurama terminou a frase.
No alto do telhado, já longe da barraca, Hiei parou por um instante. Levou a mão ao rosto.
As bochechas ainda estavam quentes. Bufou, irritado consigo mesmo.
— ...Nunca mais bebo.
…
Na quinta-feira seguinte, ele apareceu exatamente no mesmo horário. E, discretamente, enquanto Yusuke servia os pratos, empurrou o copo de saquê vazio na direção dele.
Yusuke sorriu de canto.
— Só uma dose?
Hiei fechou os olhos.
— ...Duas.
E Yusuke fez um esforço sobre-humano para não rir na cara dele.
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