Contos do Makai

9 O guardião



Yusuke gostava da barraca de lámen.


Gostava do movimento. Das conversas com os clientes. Do cheiro do caldo fervendo.


E, principalmente, da cara de espanto das pessoas quando descobriam que aquele balcão simples era, na verdade, a fachada do escritório de um detetive.


Com a abertura da barreira entre o Makai e o Mundo Humano, ele enxergara uma oportunidade simples: continuar fazendo aquilo que sempre soubera fazer.


Só que agora sem ordens do Mundo Espiritual.


Recebia casos particulares envolvendo espíritos, youkais e qualquer acontecimento estranho que ninguém mais soubesse explicar.


A clientela variava tanto quanto os problemas.


Alguns clientes realmente precisavam de ajuda.


Outros...


Nem tanto.


Uma adolescente apareceu dizendo estar possuída. Keiko conversou com ela por quinze minutos. Descobriu que ela só queria um motivo convincente para faltar ao cursinho.


Um rapaz jurava que estava sendo perseguido por um demônio. Depois de meia hora de investigação, Yusuke descobriu que o "demônio" atendia pelo nome de Cláudio e trabalhava cobrando dívidas para um agiota.


Uma senhora insistia que um espírito rondava sua cozinha todas as madrugadas. Yusuke encontrou o culpado em menos de cinco minutos. Era um gato muito gordo, que aprendera sozinho a abrir a janela para roubar peixe.


Mas, curiosamente, os casos que realmente envolviam youkais quase nunca eram os mais perigosos.


Um pequeno youkai invadia lojas de conveniência durante a madrugada apenas para roubar doces. Não atacava ninguém. Só tinha um gosto inexplicável por chocolate.


Outro empresário jurava que havia um monstro vivendo dentro da fábrica. Havia. Era um youkai aposentado que descobrira que a sala das caldeiras era um excelente lugar para tirar cochilos durante o inverno. O empresário permitiu que ficasse se vigiasse o turno da noite.


Até seus amigos acabavam envolvidos de vez em quando.


Certa vez, uma senhora pediu ajuda porque seu jardim parecia amaldiçoado. As flores desabrochavam fora de época, murchavam da noite para o dia e algumas chegavam a emitir um som estranho quando o vento passava.


Yusuke chamou Kurama.


Levou menos de cinco minutos para ele identificar o problema. Escondido entre os canteiros vivia um pequeno youkai vegetal, completamente inofensivo, que se alimentava da atenção das pessoas.


— Ela só queria companhia — explicou Kurama, acomodando a criaturinha em um vaso separado.


A senhora decidiu adotá-la imediatamente.


Até Kuwabara já participara de uma investigação. Passou quase duas horas perseguindo o que acreditava ser um espírito maligno escondido numa fazenda.


Era uma cabra.


Até hoje ele se recusa a entrar em detalhes sobre o assunto.


---


Naquela tarde, a barraca de lámen seguia tranquila. O movimento diminuía entre o horário do almoço e o início da noite, e Yusuke aproveitava a calmaria para organizar a barraca.


Foi quando Keiko apareceu.


Ela cumprimentou, pediu um chá e se sentou no banco do balcão, apoiando os cotovelos na madeira.


Yusuke ergueu os olhos.


— Caso novo?


Ela sorriu de canto.


— Acho que sim. Uma amiga minha me ligou hoje cedo.


Ele largou o pano que usava para secar uma tigela e prestou atenção.


— A avó dela faleceu há alguns meses. Agora a família decidiu vender a casa onde ela morava.


Yusuke assentiu para que continuasse.


— O problema é que, desde que começaram a esvaziar a casa, as coisas ficaram... estranhas.


Ela começou a contar nos dedos.


— Portas batem sozinhas. Ferramentas desaparecem. Corretores dizem que ouviram alguém gritando lá dentro. As luzes acendem e apagam sem motivo... e os operários que estavam fazendo algumas reformas simplesmente se recusam a voltar.


Yusuke permaneceu em silêncio por alguns segundos.


— E eles acham que é um fantasma?


— Acham que é alguma coisa.


Ela deu um gole no chá.


— Eu também achei que podia ser só impressão... mas, depois de ouvir a história toda...


Olhou para ele por cima da xícara.


— Acho que dessa vez não é uma cabra.


Yusuke soltou uma risada pelo nariz.


Keiko riu.


— Então...


Esperou até que ele levantasse os olhos outra vez.


— Você pode dar uma olhada?


Yusuke nem precisou pensar.


— Claro. Passamos lá depois do expediente.


Ela balançou a cabeça, divertida.


— Você administra um restaurante bem estranho.


— Restaurante, escritório e agência de investigação.


— Falta só colocar a placa.


— Aí perde o charme.


---


A casa ficava numa rua tranquila, escondida atrás de um muro baixo de pedras.


Era antiga.


Daquelas construídas quase inteiramente em madeira, com varanda estreita, portas de correr e um jardim que claramente já tivera dias melhores. O mato crescia entre as pedras do caminho. Algumas hortênsias ainda insistiam em florescer perto do lago seco.


Assim que atravessou o portão, Yusuke parou. Franziu a testa.


— Tem alguém aqui.


Keiko olhou ao redor.


— Você consegue sentir?


Ele fez que sim.


— É um youkai.


A energia era antiga.


Não parecia agressiva.


Só...


Velha.


Os dois caminharam até a varanda.


Yusuke bateu na madeira.


Nenhuma resposta.


Tentou de novo.


Silêncio.


Então...


— Cof... cof...


Uma tosse longa. Daquelas que pareciam vir do fundo dos pulmões.


Outra.


— Cof... cof...


Depois uma voz rouca atravessou a casa.


— Hein?


Yusuke trocou um olhar com Keiko. A porta deslizou lentamente. E uma pequena criatura surgiu de dentro da casa.


Tinha a altura de uma criança, as costas curvadas pelo tempo. Os cabelos eram completamente brancos e dois pequenos chifres despontavam das laterais. A barba chegava quase à cintura. Vestia um quimono gasto, remendado tantas vezes que era impossível dizer sua cor original, preso por uma faixa de tecido igualmente desbotada.


Caminhava apoiado numa bengala torta e piscava os olhos várias vezes antes de conseguir focalizar os visitantes.


— Boa tarde — disse Yusuke.


— O quê?


— Boa tarde!


— Você volta mais tarde?


Yusuke respirou fundo.


— Esse velho só pode tá me fazendo de otário.


O youkai aproximou uma mão da orelha.


— Ah... Estão procurando o Mário?


— Que Mario?


— Também não conheço esse tal de Mário.


Keiko mordeu o lábio para não rir.


Yusuke tentou novamente.


— O senhor é o youkai que mora nesta casa?


— Hã?


Yusuke respirou fundo.


— EU PERGUNTEI SE O SENHOR MORA NESTA CASA!


O velho franziu a testa.


— A praça?


Yusuke fechou os olhos por um instante. Keiko já escondia o sorriso atrás da mão.


— Você está rindo?


— Não.


Ela claramente estava.


Yusuke respirou fundo mais uma vez.


— O SENHOR MORA NESSA CASA?


O velho fez uma careta.


— Não precisa gritar.


Yusuke piscou.


— Eu escuto perfeitamente.


Silêncio.


Yusuke olhou para Keiko.


Depois voltou a olhar para o velho.


— ... Eu não cobrei o suficiente desse trabalho.


— Hein?


— Nada.


O velho finalmente pareceu notar a expressão cansada de Yusuke.


— A idade chega pra todo mundo, rapaz.


Tossiu outra vez.


— Cof... cof… Às vezes demora um pouquinho pra palavra chegar aqui.


Apontou para a própria orelha.


— Mas chega.


Keiko não conseguiu mais segurar. Virou discretamente o rosto e começou a rir. Yusuke lançou-lhe um olhar resignado.


— Não ajuda.


Ela respirou fundo, tentando recuperar a compostura.


— Desculpa...


Fez uma pausa.


— É que ele é muito simpático.


O velho sorriu, satisfeito.


— Obrigado.


Depois inclinou a cabeça.


— O quê foi que ela disse?


Yusuke suspirou.


— Ai, eu mereço…


---


Depois de algum tempo de conversa — e muitos mal-entendidos pelo caminho —, Yusuke finalmente conseguiu entender quem era aquele velho youkai.


Ele os convidou para entrar e sentou-se devagar na varanda, apoiando as duas mãos sobre a bengala. Tossiu mais uma vez antes de começar a falar.


— Faz muito tempo...


Olhou para o jardim, como quem tentava enxergar através das décadas.


— Eu era pequeno quando vim parar aqui.


Keiko sentou-se ao lado dele, em silêncio.


— Uns homens estavam me caçando. Eu era jovem... e não sabia me esconder direito. O dono desta casa me encontrou antes dos caçadores.


O velho apontou para uma fotografia antiga pendurada na parede da sala. Um homem e uma mulher de quimono sorriam para a câmera, cercados pela família.


— Ele espantou aqueles homens.


Ficou alguns segundos olhando a fotografia.


— Depois disse que eu podia ficar aqui.


Sua voz ficou mais baixa.


— "Pode chamar este lugar de lar até encontrar outro.” Eu nunca encontrei. Então fiquei.


Contou aquilo como quem descrevia algo absolutamente comum.


Falou das crianças correndo pelo jardim. Das noites em que espantava pequenos espíritos curiosos antes que chegassem perto da casa. Dos telhados que consertava escondido durante as tempestades. Das frutas que amadureciam um pouco mais rápido quando a colheita era fraca. De uma porta que insistia em emperrar todo inverno e que ele ajeitava sem ninguém perceber.


— A família cresceu...


A voz saiu quase num sussurro.


— Depois os filhos foram embora. Os netos passaram a visitar só nas férias.


Ele sorriu com nostalgia.


— A senhora desta casa fazia um chá muito bom.


Olhou novamente para o jardim.


— Sinto falta deles.


Keiko abaixou os olhos. Yusuke permaneceu calado. Só então fez a pergunta.


— Por que o senhor continua aqui?


O velho permaneceu em silêncio. Demorou tanto para responder que Yusuke chegou a pensar que ele não tivesse escutado.


Então ele olhou devagar para a varanda.


Para o jardim.


Para a casa.


Franziu a testa.

— Eu...


Coçou a cabeça, visivelmente confuso.


— Nunca pensei nisso.


Depois de alguns segundos, seus olhos encontraram a fotografia antiga pendurada na parede.


— O dono desta casa disse que eu podia ficar até encontrar um lugar para chamar de lar.


Sorriu de leve.


— Acho que... eu nunca procurei outro.


Passou a ponta dos dedos pela madeira da bengala.


— Porque... aquela família acabou sendo o meu lar.


A varanda mergulhou num silêncio tranquilo.


O velho voltou a olhar para a casa. As tábuas antigas. O telhado. As portas de correr. Tudo parecia exatamente igual mas, ao mesmo tempo, completamente diferente.


— Então...


Sua voz saiu quase como um pensamento.


— Por que eu continuo guardando uma casa vazia?


Yusuke esperou alguns instantes antes de responder.


— Se aquela família tivesse se mudado para outra casa... oitenta anos atrás... você teria ficado aqui?


O velho nem precisou pensar muito. Balançou a cabeça.


— Não.


Olhou novamente para a fotografia.


— Eu teria ido junto.


Só então as palavras pareceram fazer sentido até para ele. Seu olhar parou na imagem da família reunida. Um sorriso pequeno apareceu em seu rosto cansado.


— Nunca foi esta casa.


---


Keiko entrou em contato com a amiga naquela mesma noite.


A venda da casa ainda não havia sido concluída. A neta da antiga proprietária aceitou encontrá-los no dia seguinte, curiosa para entender por que Yusuke insistira tanto em conversar pessoalmente.


Ele explicou apenas o necessário.


— A casa não está assombrada.


Fez uma breve pausa.


— Tem alguém aqui... que só não havia percebido que vocês foram embora.


A mulher ficou em silêncio por alguns instantes. Então sorriu de um jeito distante, como quem acabara de encontrar uma lembrança perdida.


— Quando eu era pequena... — Ela sorriu, olhando para o jardim pela janela. — Às vezes eu acordava no meio da noite e via um senhorzinho andando pela varanda. Às vezes ele estava varrendo as folhas. Outras, parecia consertar alguma coisa que tinha quebrado durante a chuva. Ele sempre pareceu…gentil. Como se cuidasse da gente. Mas sempre que eu chamava minha mãe, ele já tinha desaparecido.


Keiko ergueu discretamente os olhos para Yusuke. A mulher continuou.


— Minha mãe dizia que eu estava sonhando.


Sorriu, emocionada.


— Mas eu lembro dele.


---


Naquela mesma tarde a neta juntou o restante das coisas e colocou no carro. Recolheu a fotografia dos avós. Fechou cuidadosamente as portas.


Antes de entrar no carro, voltou-se para a varanda. Não era como se pudesse ver alguma coisa alí, mas ficou alguns segundos encarando em silêncio. Depois sorriu.


— Obrigada...


Sua voz saiu baixa, quase um sussurro.


— Obrigada por cuidar da gente durante todo esse tempo.


O velho youkai permaneceu imóvel. Apertou a bengala entre as mãos. Tossiu uma vez. Sorriu como não sorria havia muitos anos.


— Foi um prazer.


Ela nunca ouviu a resposta. Entrou no carro e partiu.


O velho esperou até que o veículo desaparecesse na curva da estrada. Só então voltou-se para a casa. Olhou a varanda. O jardim. O telhado que consertara tantas vezes.


O carro já era apenas um ponto distante na estrada quando o velho deu o primeiro passo.


Depois outro.


Seguiu lentamente pela estrada, na mesma direção em que o carro havia desaparecido.


Não olhou para trás nenhuma vez.


---


Já era noite quando Yusuke e Keiko caminhavam pelas ruas quase vazias.


Foi Keiko quem quebrou o silêncio.


— Obrigada por ter vindo.


Yusuke deu de ombros.


— Era trabalho.


Ela sorriu.


— Foi um trabalho bonito.


Ele desviou o olhar por um instante, disfarçando um leve constrangimento.


— Tá tentando me deixar convencido?


— Tá funcionando?


Yusuke soltou um riso curto.


— Talvez um pouco.


Caminharam mais alguns passos, então ele estendeu a mão. Keiko olhou para ela.


— O quê?


— Essa rua é muito perigosa.


Ela riu, balançando a cabeça, mas entrelaçou os dedos nos dele mesmo assim. Yusuke sorriu daquele jeito pequeno, quase imperceptível.


— Bem melhor.


Continuaram andando.


Nenhum dos dois fez questão de soltar a mão do outro.