Contos do Makai
10 Mais uma tigela
Kurama sabia exatamente o que esperar ao voltar da escola: a mesma avenida movimentada, o sinal de pedestres demorando mais do que o necessário, o dono da floricultura molhando as plantas na calçada, as crianças da escola vizinha correndo em direção ao parque, o cheiro de pão fresco vindo da padaria da esquina.
A rotina humana tinha algo de curiosamente confortável. Depois de tantos séculos vivendo no Makai, onde um dia podia terminar em uma emboscada, ele aprendera a apreciar a previsibilidade daquele mundo. Pouquíssimas coisas ainda conseguiam surpreendê-lo.
Abriu a porta de casa.
Parou.
Seus olhos se arregalaram. A pasta de couro quase escorregou de seus dedos.
Toda a inteligência, experiência e capacidade de prever situações que Youko Kurama havia acumulado ao longo de séculos simplesmente desapareceram por um instante, para colidir contra um muro de puro absurdo.
Hiei estava sentado à mesa da cozinha.
Comia uma tigela de arroz.
Não.
Corrigindo: devorava uma tigela de arroz.

Ao lado da tigela havia um prato já quase vazio de carne grelhada e legumes salteados — pelo estado da refeição, aquilo era apenas o que restava. Shiori, sorridente como sempre, estendia as mãos para pegar a tigela vazia.
— Acabou tão rápido! Vou colocar mais um pouco.
Hiei entregou a tigela sem dizer uma palavra, como se aquilo fosse perfeitamente normal.
Kurama piscou. Depois piscou de novo.
O que... está acontecendo?
— Ah, Shuichi! — Shiori abriu um sorriso. — Você chegou! Seu amigo apareceu aqui mais cedo procurando por você. Como você ainda estava na escola, convidei-o para esperar. — Ela olhou para Hiei com carinho. — Acho que ele estava com um pouquinho de fome.
Kurama voltou os olhos para a pilha de tigelas.
Um pouquinho...
O pequeno youkai tinha um grão de arroz grudado na bochecha, e parecia completamente indiferente ao fato.
— Mãe.
— Sim?
— Há quanto tempo ele está aqui?
Shiori pensou por um instante.
— Desde a hora do almoço.
Kurama olhou discretamente para o relógio. Eram quase cinco da tarde. Voltou a olhar para Hiei, depois para a pilha de tigelas vazias ao lado dele.
...
— Mãe.
— Hum?
— Quantas tigelas de arroz ele comeu?
Ela sorriu.
— Essa é a sétima.
Kurama respirou fundo.
— Entendo.
Na verdade, não entendia absolutamente nada. Shiori voltou da cozinha trazendo outra tigela fumegante.
— Tome.
Hiei recebeu o arroz.
— Obrigado.
Kurama congelou e olhou lentamente para Hiei.
— Você... acabou de agradecer?
Hiei ergueu uma sobrancelha.
— Tem algum problema?
— Não. Nenhum.
Só achei que o Makai tivesse congelado.
Shiori colocou mais um prato sobre a mesa.
— Shuichi, venha comer também. Fiz bastante.
Kurama finalmente sentou-se, ainda observando Hiei pelo canto dos olhos, como um cientista diante de um fenômeno que desafiava todas as leis conhecidas. Os três comeram em silêncio por alguns minutos. Foi Shiori quem voltou a falar.
— Hiei-chan é uma graça.
Kurama quase deixou os hashis caírem. Hiei também parou de mastigar.
— Ele até lavou a própria tigela quando terminou a primeira. Disse que não queria dar trabalho.
Kurama encarou o amigo. Hiei evitou seu olhar.
— Foi só educação — murmurou.
Shiori continuou sorrindo.
— Depois consertou aquela prateleira da sala. Disse que estava torta. E também apertou o parafuso da maçaneta da porta dos fundos. Ah, e me ajudou com uma caixa pesada que eu não conseguia guardar no armário.
Kurama virou lentamente a cabeça.
— Você... consertou a prateleira, a maçaneta, e organizou o armário?
Hiei deu de ombros.
— Ela estava precisando de ajuda.
Como se isso encerrasse completamente o assunto.
Alguns minutos depois, Hiei terminou a oitava tigela e pousou cuidadosamente os hashis sobre a mesa. Dessa vez, não pediu mais arroz. Talvez porque finalmente estivesse satisfeito. Talvez porque tivesse percebido o olhar incrédulo de Kurama.
Era impossível saber.
Quando Hiei finalmente foi embora, já era noite. Kurama o acompanhou até o portão. Os dois caminharam alguns passos em silêncio, então Kurama perguntou:
— Você gostou da comida da minha mãe, não é?
Hiei permaneceu calado, por tempo suficiente para Kurama imaginar que não responderia. Então veio a resposta, baixa, quase um resmungo.
— Faz tempo que ninguém cozinha para mim.
Kurama sorriu. Não disse mais nada. Também não precisava.
Na manhã seguinte, quando entraram na cozinha, encontraram sobre a mesa uma pequena sacola de papel. Dentro dela havia um pacote de chá extremamente raro do Makai. Sem bilhete. Sem assinatura.
Shiori pegou o pacote, curiosa.
— Será que alguém esqueceu isso aqui?
Kurama sorriu discretamente.
— Acho que não, mãe.
Ela inclinou a cabeça.
— Então quem deixou?
Kurama olhou pela janela. Podia ver ao longe um pequeno vulto preto sobre um dos telhados. Ele apenas sorriu.
— Um amigo que não sabe agradecer com palavras.
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