Contos do Makai

11 Prioridade máxima



O maior erro que alguém pode cometer é acreditar que a paz é sinônimo de tranquilidade.


Quando as grandes crises terminam, muita gente imagina que o trabalho no Mundo Espiritual finalmente fica fácil.


Não poderiam estar mais enganados.


Meu nome é Jorge Saotome. Assistente direto do príncipe Koenma. Não sou um guerreiro lendário. Não possuo técnicas capazes de destruir montanhas. Meu nome raramente aparece nos relatórios oficiais.


Ainda assim, todos os dias, ajudo a manter o Mundo Espiritual funcionando.


E, modéstia à parte...


...faço isso muito bem.


Os últimos meses haviam sido estranhamente tranquilos. Nenhuma crise diplomática. Nenhum portal dimensional. Nenhum demônio poderoso exigindo audiência. Até Urameshi parecia ocupado demais para aparecer sem avisar e transformar o gabinete do príncipe em um campo de batalha.


Minha rotina havia se resumido a organizar arquivos, separar correspondências, acompanhar reuniões e entregar documentos entre departamentos.


Era um trabalho importante.


Mas, às vezes...


Eu sentia falta da sensação de participar de algo realmente grande.


Foi então que ouvi meu nome.


— Jorge.


Levantei a cabeça imediatamente.


À porta estava o diretor do Departamento Administrativo.


Seu rosto era sério.


Sério o bastante para fazer meu estômago apertar.


— Venha comigo.


Não perguntei o motivo. Apenas o segui.


Entramos em sua sala.


Ele fechou a porta.


Depois conferiu discretamente se ninguém permanecia no corredor. Só então abriu uma gaveta trancada à chave. Retirou um envelope grosso. Lacrado. Com o selo oficial do departamento. Segurava-o com extremo cuidado.


Demorou alguns segundos antes de falar.


— Preciso que isto chegue às mãos do Senhor Koenma.


Estendi as duas mãos para recebê-lo.


Mas ele não o soltou.


Primeiro, me encarou em silêncio.


— É de extrema importância que isso chegue o mais rápido possível.


Engoli em seco.


— Sim, senhor.


Ele permaneceu me observando.


Como se avaliasse minha determinação.


Então continuou.


— Não faça desvios.


— Sim, senhor.


— E, acima de tudo...


Fez uma pequena pausa.


— Não deixe este envelope cair nas mãos erradas.


Meu coração acelerou.


Aquela não era uma entrega comum.


Assenti lentamente.


— Entendido.


Só então ele soltou o envelope. Era leve. Mas a responsabilidade parecia enorme.


Levei-o junto ao peito.


Naquele instante compreendi. Depois de anos desempenhando funções discretas, finalmente havia recebido uma missão à altura da confiança depositada em mim.


Respirei fundo. Sorri. E deixei a sala.


Mantive o envelope firme contra o peito enquanto atravessava os corredores do Mundo Espiritual. Cada passo era calculado. Cada curva analisada antes de ser feita.


Não demorou muito para surgir o primeiro obstáculo.


Hiei.


Vinha na direção oposta com as mãos nos bolsos, a expressão fechada de sempre. Caminhava reto, sem olhar para ninguém.


Meu cérebro trabalhou imediatamente.


Se ele perguntar para onde estou indo...


Não posso responder.


Se insistir...


Também não.


Olhei rapidamente ao redor.


Havia uma enorme estátua de Enma Daioh alguns metros à frente.


Perfeito.


Com a agilidade de um verdadeiro profissional, deslizei para trás da base da estátua exatamente quando Hiei passou.


Prendi a respiração.


Esperei.


Cinco segundos.


Dez.


Então espiei discretamente.


Hiei já estava no fim do corredor.


Sem diminuir o passo.


Sem sequer olhar para os lados.


...


A primeira barreira havia sido superada.


Segui por outro corredor.


Mais seguro.


Ou assim imaginei.


Lá na frente, Botan conversava animadamente com Ayame, outra guia espiritual. As duas riam de alguma coisa enquanto caminhavam devagar, ocupando praticamente toda a passagem.


Meu coração disparou.


Botan fazia perguntas.


Muitas perguntas.


E, pior...gostava de conversar.


Se me visse, poderia perguntar para onde eu estava indo. Por que estava tão apressado. O que carregava. Quanto mais tempo eu permanecesse ali… maior seria o risco.


Observei rapidamente o ambiente. À direita havia um enorme vaso ornamental. Era largo e alto. Suficientemente largo para esconder um homem de baixa estatura.


Sem pensar duas vezes, mergulhei atrás dele.


As vozes das duas se aproximaram.


— Você viu o Jorge hoje? — perguntou Botan.


Prendi a respiração. Ayame pensou por um instante.


— Agora que você falou... não.


— Estranho. Geralmente ele aparece para dar bom dia.


As duas continuaram andando. Permaneci imóvel até que as vozes desapareceram.


Soltei o ar lentamente. Por pouco. Muito pouco.


Retomei a caminhada.


Dois encontros.


Dois riscos evitados.


A missão prosseguia dentro do esperado. Faltava apenas uma curva antes do gabinete de Koenma. Respirei aliviado.


Foi então que virei o corredor...e dei de cara com Yusuke Urameshi.


Parei tão abruptamente que quase deixei o envelope escapar das mãos. Yusuke me encarou por um instante. Abriu um sorriso.


— Fala, Jorge! Beleza?


— O-oi, Urameshi.


Ele apontou com o polegar para o envelope.


— Tá ocupado?


Olhei para o envelope.


Depois para ele.


Depois para a porta do gabinete, logo adiante.


— ...Muito.


— Ah, então tá.


Deu de ombros.


— Depois a gente se esbarra.


E seguiu pelo corredor, assobiando como se não tivesse a menor preocupação no mundo. Permaneci imóvel por alguns segundos, acompanhando-o com os olhos.


Nem perguntou o que eu carregava.


Nem tentou espiar o envelope.


Nem insistiu.


Sorri discretamente.


Impressionante.


Urameshi realmente sabia reconhecer quando alguém estava em uma missão importante.


Apertei o envelope contra o peito. E segui meu caminho.


A porta do gabinete do senhor Koenma estava entreaberta. Respirei fundo uma última vez.


Bati duas vezes.


— Com licença.


— Entra logo! Tô ocupado!


Empurrei a porta com cuidado.


Senhor Koenma sequer ergueu os olhos da montanha de documentos espalhados pela mesa. Com uma das mãos assinava papéis em velocidade impressionante. Com a outra, carimbava folha após folha num ritmo quase mecânico.


Clac. Clac. Clac. Clac.


Parecia uma linha de produção.


Aproximei-me em passos firmes.


Parei diante da escrivaninha.


E, com toda a solenidade que a missão exigia, estendi o envelope com as duas mãos.


— Entrega concluída, senhor.


O senhor Koenma abriu o envelope, leu rapidamente o conteúdo, assinou a última folha e a carimbou.


Separou duas vias, colocou cada uma em um novo envelope e me entregou novamente.


— Esta volta para o Departamento Administrativo.


Apontou para o outro.


— Esta vai para o Financeiro.


— Sim, senhor!


Já me preparava para sair, mas hesitei por um momento.


— Senhor...


— Hum?


— Posso perguntar... do que se tratava?


Ele respondeu sem sequer erguer os olhos da pilha de documentos que assinava.


— Autorização para compra de café.


Fiquei imóvel com aquelas palavras.


— ...Café?


— Acabou.


Silêncio.


Koenma finalmente ergueu a cabeça.


— Jorge.


— Senhor?


— Você realmente ac

ha que o Mundo Espiritual funciona sem café?


Olhei para os envelopes que carregava e refleti por um instante.


— Não, senhor.


— Foi o que pensei.


Saí da sala ciente do real peso da minha missão.


Algumas missões salvavam vidas.


Outras garantiam que o expediente começasse no horário.