Contos do Makai

4 Dia de São Valentim


Notas iniciais
Este conto se passa após os acontecimentos da Saga do Capítulo Negro (3ª temporada do anime). Kaito é um personagem apresentado nessa saga, dono de um Território baseado em regras, e imaginei que Kurama e Kaito poderiam ter desenvolvido uma amizade discreta após os eventos da série, uma vez que os dois estudam na mesma escola. No dia de São Valentim, é comum que as mulheres ofereçam chocolates aos homens, seja por romance ou por amizade. Este conto brinca justamente com essa tradição.

Kaito já estava encostado nos armários de sapatos quando Shuichi chegou à escola.

— Você veio cedo. — comentou Shuichi.

Kaito deu de ombros.

— Também achei estranho.

Sem dizer mais nada, Shuichi abriu seu armário.

Uma pequena avalanche de caixas coloridas, envelopes e chocolates cuidadosamente embrulhados escorregou para fora. Alguns quase caíram no chão antes que ele os segurasse.

Kaito observou a cena por alguns segundos.

— Isso acontece sempre?

Enquanto recolhia os presentes com a tranquilidade de quem já esperava por aquilo, Shuichi respondeu:

— Todo ano.

— Sem exceção?

— Sem exceção.

Kaito desviou o olhar para a pilha de embrulhos.

— Deve dar trabalho.

— Um pouco.

Os dois seguiram para a sala de aula.

Quando Shuichi abriu a porta, encontrou sua carteira praticamente escondida sob outra montanha de chocolates. Caixas de todos os tamanhos dividiam espaço com cartões escritos à mão e pequenos laços de fita.

Kaito puxou a cadeira ao lado e ficou encarando a cena.

Depois de um longo silêncio, comentou:

— Tirei a maior nota da turma na última prova.

— Eu sei. Parabéns.

— Ninguém me deu chocolate por isso.

Shuichi sorriu de leve.

— Não costuma funcionar assim.

— Devia funcionar.

— Você quer chocolates como prêmio por desempenho acadêmico?

— Acho uma recompensa perfeitamente razoável.

Shuichi parecia se divertir.

— Vou sugerir isso ao diretor.

No intervalo, Shuichi tentou atravessar o corredor.

Não conseguiu.

Três garotas o interceptaram antes da escada. Tremendo mais do que provavelmente gostariam, entregaram outra caixa de chocolates.

— M-Minamino-san... por favor…

Ele recebeu o presente com ambas as mãos.

— Muito obrigado. Vou aceitar com carinho.

As três saíram dali sorrindo como se tivessem acabado de vencer uma competição.

Kaito acompanhou a cena inteira.

— Eu despertei poderes sobrenaturais há alguns meses.

— Sim.

— Consigo criar um território que altera as regras da realidade.

— Também é verdade.

— E, mesmo assim…

Apontou discretamente para a caixa recém-recebida.

— ...isso ainda é mais impressionante que poderes psíquicos.

Shuichi riu.

Os dois finalmente conseguiram chegar ao fim do corredor.Ou pelo menos era o que Kaito imaginava.

Um grupo de rapazes do clube de kendo surgiu na direção oposta. Eram todos muito maiores que os alunos ao redor e caminhavam com uma solenidade quase militar.

O primeiro carregava uma caixa enorme, embrulhada de maneira desajeitada. Outro vestia uma camiseta onde estava escrito, em letras gigantes: SHUICHI LOVE. Atrás deles vinha um sujeito de aparência suspeita, com o uniforme da escola mal ajustado e orelhas pontudas escondidas sob o cabelo. Shuichi teve quase certeza de que era um demônio menor tentando se misturar aos humanos.

Os rapazes pararam diante dele. Fizeram uma reverência tão sincronizada que parecia ensaiada.

— Minamino-san! Aceite, por favor!

Shuichi agradeceu com a mesma elegância de sempre.

Quando o grupo foi embora, Kaito permaneceu olhando para o corredor vazio.

— Isso… — Coçou o queixo. — ...já passou dos limites.

— Talvez um pouco.

— Minha autoestima acabou de sofrer um dano irreversível.

— Ela sobrevive.

— Não tenho tanta certeza.

Kaito suspirou, derrotado, e seguiu andando ao lado dele até o portão da escola. Foi nesse momento que ouviram passos correndo.

Uma garota da turma vizinha apareceu completamente sem fôlego e parou diante dos dois. Kaito já olhava para Shuichi, convencido de que o presente seria mais um para a coleção dele.

Mas a garota passou direto. Parou na frente de Kaito.

— K-Kaito-kun…

Ela estendeu um pequeno embrulho.

— Eu... gosto muito de matemática. Eu... reparei que você sempre resolve os problemas de matemática mais rápido que todo mundo. Achei isso... impressionante.

Silêncio.

Kaito olhou para o chocolate.

Depois para a garota.

Depois voltou a olhar para o chocolate.

Parecia estar tentando resolver um problema muito mais difícil do que qualquer equação.

— Eu…

— N-Não precisa responder!

Ela fez uma reverência desajeitada e saiu correndo antes que ele encontrasse as palavras.

Os dois ficaram observando a garota desaparecer pelo portão. Só então Shuichi perguntou:

— Algum comentário?

Kaito continuou encarando o embrulho.

— Acho...acho que desempenho acadêmico realmente pode render chocolates.

— Parece que sim.

— Eu sempre soube.

— Claro que sabia.

Kaito tentou manter a expressão séria.

Não conseguiu.

Ele demorou alguns segundos antes de finalmente guardá-lo, colocando o chocolate cuidadosamente no bolso interno do casaco, ajeitando-o para que não amassasse durante o caminho.

— Isso não significa absolutamente nada.

Um sorriso discreto surgiu no rosto de Shuichi.

— Evidente.

Os dois seguiram pela calçada em direção à estação. Kaito não comentou mais sobre os chocolates de Shuichi. Também não tirou a mão do bolso do casaco pelo resto do caminho, certificando-se, de tempos em tempos, que o pequeno embrulho continuava ali.

Shuichi percebeu.

Mas, por consideração, fingiu que não.