Contos do Makai

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Notas iniciais
O último episódio do anime, mostra de forma rápida que Hiei faz parte de uma equipe que resgata humanos perdidos no Makai. Um desses resgates acaba dando origem a um hilário relato de "abdução alienígena". O conto abaixo é uma releitura bem-humorada dessa ideia.

O batedor avistou o humano primeiro, como sempre.


— Humano às dez horas.


Anunciou aquilo sem qualquer entusiasmo, como quem informava que ia chover.


Hiei soltou um suspiro.


— De novo não…


Desde que a barreira entre o Mundo Humano e o Makai havia sido desfeita, acidentes daquele tipo haviam se tornado surpreendentemente comuns.


Humanos apareciam onde não deviam.


Alguns atravessavam para o Makai por puro azar. Outros eram arrastados por fenômenos que ninguém parecia compreender direito.


O problema era que o Makai não era um lugar feito para eles.


O ar carregado de energia demoníaca confundia a mente humana. Alguns ficavam apenas desorientados. Outros entravam num estado quase catatônico, incapazes de entender onde estavam ou de reagir ao que viam.


Por isso existiam patrulhas.


Encontrar os perdidos antes que algum youkai menos paciente os encontrasse ou que morressem envenenados pelo miasma.


Era um trabalho simples.


E Hiei odiava cada segundo dele.


O homem estava sentado sobre um banco de pedra em meio a ruínas, olhando para o vazio.


Hiei aproximou-se sem pressa.


— Ainda está vivo?


— Está respirando. — Constatou o batedor.


O homem piscou.


Depois outra vez.


O olhar começou a ganhar foco lentamente.


Quando finalmente enxergou Hiei diante dele, arregalou os olhos.


— ...Alienígena?


Hiei fechou os olhos por um instante.


— Não.


— Ah... então vocês preferem outro nome?


— Não.


— Entendi. É informação confidencial.


Hiei respirou fundo.


— Você caiu no Makai. Vou levá-lo de volta.


O homem assentiu com toda a seriedade.


— Makai... esse é o nome do planeta?


— Não.


— Da galáxia?


— Também não.


— Então vocês usam nomes diferentes dos nossos...


Hiei simplesmente desistiu de corrigir.


O homem já parecia completamente desperto agora.


O que, para surpresa de Hiei, era muito pior.


— Sua nave ficou estacionada longe?


— Eu não tenho nave.


— Ah! Tecnologia de teletransporte!


— ...


— Faz sentido. Viajar bilhões de anos-luz de carro seria complicado.


Hiei começou a caminhar.


— Venha.


O homem o acompanhou imediatamente, olhando ao redor com um brilho infantil nos olhos.


— Posso fazer uma pergunta?


Hiei lançou-lhe um olhar de lado e não respondeu.


O homem interpretou o silêncio como autorização.


— Vocês comem?


— Sim.


— O quê?


— Comida.


— Fascinante...


Hiei respirou fundo e ficou alguns segundos em silêncio. Depois concluiu que responder só estava piorando a situação.


Seguiram o resto do caminho sem que ele dissesse mais uma palavra. A passagem para o Mundo Humano já estava aberta quando o homem cambaleou de repente.


Piscou algumas vezes.


Levou a mão à cabeça.


— Acho que...


Nem terminou a frase.


As pernas cederam, e ele apagou completamente antes mesmo de atravessar o portal.


Hiei o segurou antes que caísse no chão.


— Hm.


Melhor assim.


Inconsciente, faria menos perguntas.


Sem dizer mais nada, atravessou a fenda carregando o humano no ombro. Deixou-o em segurança no Mundo Humano e voltou ao Makai antes que alguém aparecesse.


Não lhe passou pela cabeça, nem por um instante, que aquele homem pudesse se lembrar de qualquer coisa.


Afinal, nunca acontecia.


---


Uma semana depois, já no fim da tarde, a pequena barraca de ramen de Yusuke estava relativamente tranquila.


Yusuke limpava o balcão.


Kurama terminava sua tigela em silêncio.


Kuwabara pedia uma terceira porção.


Hiei apenas esperava que ninguém começasse uma conversa.


A televisão velha presa num canto chamou a atenção de todos.


— Mais um relato envolvendo o misterioso "alienígena de olhos vermelhos" foi registrado esta semana.


Hiei ergueu os olhos bem devagar. No canto da tela apareceu um desenho.


Baixinho.


Cabelos espetados.


Olhos enormes.


As orelhas tinham sido desenhadas pontudas demais, e por algum motivo haviam colocado duas anteninhas saindo da cabeça.


A legenda dizia:


"SERÁ QUE ELE VOLTA?"


Silêncio.


Foi Kuwabara quem explodiu primeiro.


— TERCEIRO AVISTAMENTO!


Começou a rir tão alto que quase derrubou a tigela.


— Você já é oficialmente um fenômeno urbano!


Yusuke tentou manter uma expressão séria. Durou aproximadamente três segundos.


— Você já têm uma seção fixa no telejornal agora.


Respirou fundo.


— "Alien do Canal 7: as aventuras continuam."


Kurama levou a mão à boca. Tentava esconder o sorriso atrás do copo de chá. Funcionou por cerca de um segundo. Os ombros começaram a tremer discretamente.


— Kurama... — disse Hiei, olhando para ele.


— Perdão…


Ele respondeu imediatamente. Mas claramente não estava conseguindo parar de rir.


Kuwabara bateu na bancada.


— Talvez devêssemos sugerir um nome oficial.


— O anão do espaço!


— Eu vou matar todos vocês.


— Isso não vai ajudar sua imagem pública — respondeu Yusuke, já enxugando lágrimas de tanto rir. — A população espera mais equilíbrio emocional dos visitantes interplanetários.


A reportagem continuou. O apresentador entrevistava o homem resgatado.


— Tenho certeza absoluta de que ele era pacífico. Muito educado.


Na dramatização aparecia um desenho ainda pior de Hiei. Agora com olhos ocupando metade do rosto e um brilho verde completamente aleatório.


— Ele respondia "não" para quase tudo. Muito misterioso.


Kuwabara perdeu completamente o controle.


— Até acertaram essa parte.


Yusuke tentou respirar. Não conseguiu. Começava a rir outra vez. Cinco minutos depois ainda não tinha conseguido parar.


Hiei terminou o chá.


Levantou-se em silêncio.


Colocou algumas moedas sobre o balcão.


E saiu sem dizer uma única palavra.


Na manhã seguinte, Yusuke chegou cedo para abrir a barraca.


Parou na calçada.


A placa de madeira pendurada sobre a entrada estava cortada exatamente ao meio.


Um único golpe e com alguns pontos chamuscados.


Perfeito.


Os dois pedaços descansavam no chão.


Yusuke ficou olhando aquilo durante alguns segundos.


Depois ergueu a cabeça.


— HIEI!!!!