Contos do Makai

6 Apenas amigos


Notas iniciais
Esse conto se passa após o final do torneio do Makai e antes da volta do Yusuke pro Ningenkai.

O acordo nunca chegou a ser discutido.


Simplesmente aconteceu.


Duas ou três vezes por semana, depois da aula, Kuwabara aparecia na biblioteca. Alguns minutos depois, Kurama também.


Nenhum dos dois marcava horário.


Nenhum dos dois perguntava se o outro iria.


Ainda assim, quase nunca um chegava sem encontrar o outro.


O objetivo era simples.


Vestibular.


Depois dos acontecimentos envolvendo Sensui, Kuwabara decidira que não desperdiçaria a chance de construir uma vida comum. Para isso, precisaria estudar mais do que jamais imaginara.


E, para sua infelicidade...


Existia matemática.


Naquela tarde, Kurama fechou o livro e olhou para o amigo do outro lado da mesa.


— Você finalmente entendeu?


Kuwabara encarou a folha por alguns segundos.


— Acho que sim...


Fez uma pausa.


— Não. Mentira. Não entendi nada.


Kurama soltou um riso baixo.


— Qual parte?


— A parte em que alguém olhou pra isso e resolveu chamar de matemática.


Apontou para a página como se ela o tivesse ofendido pessoalmente.


— Logaritmos são uma afronta à humanidade.


— Tenho quase certeza de que eles não pretendiam ofender ninguém.


— Pretendiam, sim.


Kurama deu uma risada.


Kuwabara empurrou o caderno para ele.


— Explica de novo.


— Pela quarta vez?


— Pela quarta.


Kurama pegou o lápis.


— Tudo bem. Mas, se eu explicar pela quinta, vou começar a cobrar.


---


Quando deixaram a biblioteca, o sol já começava a desaparecer entre os prédios.


Fizeram o caminho de sempre até a estação, conversando sobre a prova da semana seguinte, sobre Yusuke e, por alguns minutos, sobre qual dos dois teria mais chance de sobreviver a outro semestre de matemática.


Foi então que um grupo de garotas passou por eles.


— Boa tarde, Kuwabara-kun!


— Boa tarde! — respondeu ele, acenando.


As garotas seguiram pela rua, mas não demoraram a começar a cochichar. Infelizmente, não baixo o suficiente.


— Será que ele ainda está solteiro?


— Acho que sim.


— E aquela garota com ele?


Kurama manteve o olhar fixo à frente, como se não tivesse ouvido. Mas os ombros ficaram um pouco mais rígidos, e a expressão, discretamente mais fechada.


Kuwabara suspirou.


— Ignora.


— Estou ignorando.


— Você ainda está acelerando o passo.


Kurama olhou para ele de lado.


— Isso é impressão sua.


— Não é, não.


---


Já na estação, encontraram alguns colegas de classe de Kuwabara.


— E aí!


Um deles cumprimentou Kuwabara com um tapa nas costas antes de olhar para Kurama.


Sorriu.


— Não vai apresentar sua namorada?


Kurama respirou fundo.


— Sou homem.


O rapaz piscou algumas vezes.


— Ah...


Olhou de novo.


— Sério?


— Sim.


— Nossa... foi mal.


— Tudo bem.


Os colegas seguiram caminho ainda visivelmente confusos.


Kurama esperou alguns segundos antes de voltar a andar.


— Não estava tudo bem, estava?


— Não particularmente.


Kuwabara coçou a nuca.


— Isso tem acontecido bastante.


Kurama lançou-lhe um olhar.


— E só estamos caminhando juntos há meia hora.


— É...


Andaram mais alguns metros em silêncio.


Então Kuwabara falou, com a naturalidade de sempre:


— Acho que o problema é que você é bonito.


Kurama virou a cabeça.


— Isso deveria me consolar?


— Era pra consolar.


— Não funcionou.


— Imaginei.


Kurama suspirou.


— Você tem uma maneira muito peculiar de tentar confortar as pessoas.


— Eu tentei.


— Reconheço o esforço.


---


O assunto morreu ali.


Os dois seguiram até uma pequena loja no centro.


Kuwabara parou diante de uma vitrine cheia de pequenos enfeites.


— O aniversário da Yukina está chegando...


Ficou alguns minutos observando cada prateleira, decidido a comprar algum presente.


Kurama apenas esperou. Depois caminhou até uma das vitrines laterais e pegou um pequeno enfeite de cristal. Era transparente, delicado, lapidado de forma que lembrava um floco de neve suspenso dentro de uma gota de gelo. Quando a luz o atravessava, pequenos reflexos azulados surgiam em seu interior.


Kuwabara pegou o pequeno cristal entre os dedos.


— É exatamente o que eu estava pensando, como você soube?


Kurama deu de ombros.


— Porque você passou vinte minutos procurando alguma coisa que lembrasse a Yukina.


Kuwabara sorriu sem perceber.


— É…


Olhou novamente para o cristal.


— Acho que ela vai gostar.


Kuwabara também escolheu um cartão para acompanhar o presente antes de se dirigir ao caixa. Enquanto pagava, a atendente sorriu para os dois.


— Vocês formam um casal muito simpático.


Os dois responderam exatamente ao mesmo tempo:


— Somos amigos.


A senhora riu baixinho.


— Claro, claro.


A forma como disse aquilo deixava evidente que não acreditara em uma única palavra.


A atendente agradeceu pela compra e entregou o pacote.


Quando saíram da loja, Kurama massageou a testa.


— Essa foi a terceira vez hoje.


Kuwabara tentou segurar a risada.


Não conseguiu.


— Quarta.


Kurama olhou para ele.


— Quarta?


— A atendente da papelaria também perguntou se eu queria colocar "o nome do casal" no cartão.


Kurama fechou os olhos por um instante.


— Sério?


— Preferi fingir que não ouvi.


Kuwabara começou a rir de novo.


Kurama tentou manter a expressão séria.


Tentou por quase dez segundos.


Depois acabou rindo também.


— Espero que a Yukina goste do presente — disse Kuwabara quando finalmente recuperou o fôlego.


Kurama olhou para o pequeno pacote em suas mãos.


— Vai gostar.


— Tem certeza?


— Kuwabara... você escolheu isso com mais cuidado do que qualquer prova que já fez.


Ele ficou em silêncio por um instante.


Depois sorriu, um pouco sem graça.


— É que ela merece.


Kurama apenas concordou com um leve movimento de cabeça.


Os dois retomaram o caminho para a estação.


Naquela altura, Kurama já tinha quase certeza de que, antes de chegarem em casa, alguém os confundiria com um casal novamente.


Infelizmente...


Ele estava certo.

Notas finais
Não lembro se o anime mostra isso, mas no manga existe uma ou duas situações em que o Kurama é confundido uma garota enquanto estava com o Kuwabara rs quis dar uma explorada nesse tema kkkk