Contos do Makai

8 Confiança - Parte 2


Um mês se passou e, como sempre, Kurama fez questão de se esquecer do rapaz que havia encontrado.


O dinheiro do último roubo estava acabando.


Um mercador oferecia uma recompensa generosa a quem recuperasse um antigo pergaminho espiritual roubado por um rival. Era exatamente o tipo de trabalho que gostava. Kurama aceitou o serviço sem fazer perguntas.


O alvo era uma pequena fortaleza construída sobre um penhasco.


Durante dois dias, observou o lugar de longe. Contou os guardas. Anotou os horários da troca de turno. Descobriu onde ficavam as barreiras.


No terceiro dia, chegou à única conclusão possível.


Sozinho…era quase impossível.


Passou alguns instantes observando o desenho da fortaleza que fizera. A cauda balançou atrás dele de forma nervosa enquanto percorria o desenho com o dedo. Havia um ponto cego na muralha. Uma única entrada viável. O problema era o restante do plano.


Se alguém chamasse a atenção dos guardas na hora certa…o trabalho ficaria ridiculamente simples. Mas não havia ninguém em quem confiar.


Dobrou o mapa. Guardou-o dentro da roupa. Teria de improvisar.


—


Na noite do roubo, aproximou-se da fortaleza em silêncio. Foi então que ouviu uma voz familiar atrás de si.


— Você também veio pelo pergaminho?


Kurama virou a cabeça. O rapaz das asas estava sentado tranquilamente sobre um galho de árvore, como se estivesse esperando por alguém. Ele sorria.


As orelhas de raposa se inclinaram para trás por um instante em sinal de leve hostilidade.


— Você.


— Eu.


Os dois permaneceram em silêncio por alguns segundos. Foi o rapaz quem falou primeiro.


— Dessa vez eu cheguei antes.


Kurama lançou um olhar para a fortaleza. Depois voltou para ele.


— Como descobriu esse trabalho?


O outro deu de ombros.


— Ouvi dois mercadores comentando. Eles falavam alto.


Kurama acreditou. Era um motivo perfeitamente plausível.


O rapaz inclinou a cabeça.


— E você?


— Fui contratado.


— Então estamos competindo outra vez?


Kurama ficou alguns segundos pensando. Olhou novamente para a fortaleza. Depois para o desconhecido.


Respirou fundo.


— Não necessariamente.


O rapaz arqueou uma sobrancelha.


— Está propondo uma parceria?


Kurama não respondeu de imediato. Voltou os olhos para a fortaleza. Poderia invadi-la sozinho. Mas gastaria mais tempo, correria mais riscos e, se algo saísse do previsto, não teria ninguém para cobrir sua fuga. Pedir ajuda era uma ideia de que não gostava. Mas também não gostava de morrer.


— Apenas para este trabalho.


O sorriso voltou imediatamente ao rosto do rapaz.


— Fechado.


Kurama permaneceu alguns segundos observando a muralha. Depois retirou um pequeno pergaminho de dentro da roupa e o desenrolou sobre uma pedra. Era um esboço simples, mas detalhado. Havia marcado a posição das torres, o trajeto dos guardas e até os pontos onde as barreiras espirituais eram mais fracas.


O outro aproximou-se e assobiou baixinho.


— Você desenhou isso tudo?


— Passei dois dias observando o lugar.


— Eu passei dois dias procurando um jeito de escalar a muralha.


Kurama nem comentou. Apontou para uma das torres.


— Os guardas trocam de turno a cada vinte minutos.


O dedo deslizou pelo desenho.


— Existe um intervalo de pouco menos de um minuto em que a ala oeste fica praticamente sem vigilância.


Depois apontou para o centro da fortaleza.


— O pergaminho está aqui. Protegido por três barreiras espirituais. As duas primeiras consigo desativar. Na terceira… — Fez uma pequena pausa. — Vou precisar de tempo.


As asas estremeceram levemente quando ele cruzou os braços.


— Quanto?


— Cinco minutos.


— Só isso?


— Só.


Kurama levantou os olhos.


— Você consegue manter todos os guardas ocupados por esse tempo?


Um sorriso apareceu em seu rosto. As pequenas asas se agitaram uma vez, como se também estivessem animadas.


— Depende.


— Do quê?


— Você quer uma distração discreta… Ou memorável?


Kurama encarou aquele sorriso por alguns segundos. Já estava começando a se arrepender da parceria.


— Discreta.


— Entendi.


Ele fez que sim com a cabeça. Mas Kurama duvidava que ele tinha mesmo entendido.


— Sério, seja discreto.


— Vou tentar.


— Estou falando sério.


— Eu também.


Silêncio. Kurama voltou a apontar o mapa.


— Quando ouvir três assobios... é o sinal. Só então comece.


Ele inclinou a cabeça.


— E se der tudo errado?


Kurama respondeu sem hesitar.


— Não vai.


— Mas se der?


Kurama dobrou o pergaminho.


— Improvise.


Ele abriu um sorriso satisfeito.


— Finalmente uma parte do plano em que eu sou especialista.


Os dois finalmente trocaram um último olhar.


— Três assobios — lembrou Kurama.


O rapaz abriu um sorriso despreocupado.


— Relaxa.


Num instante, seguiram em direções opostas. Kurama desapareceu entre as árvores. O outro caminhou tranquilamente até a estrada que levava ao portão principal da fortaleza.


Esperou.


Um.


Dois.


O terceiro assobio cortou o silêncio da noite.


Ele sorriu.


— Minha vez.


Do lado oeste da fortaleza, Kurama permanecia oculto entre as sombras. O primeiro grito ecoou pelo pátio. Depois outro. Em seguida, o som de metal se chocando.


— Intruso!


Guardas correram de um lado para o outro exatamente como ele previra. Kurama saltou o muro.


Silencioso.


Enquanto todos olhavam para o portão principal, atravessou o jardim sem ser notado. A primeira barreira espiritual cedeu em poucos segundos. A segunda exigiu um pouco mais de cuidado. Ao longe, ouviu um estrondo. Depois outro.


Kurama olhou para a direção do som e ergueu discretamente uma sobrancelha.


"..."


Talvez a distração estivesse ficando um pouco maior do que o necessário. Mas ainda funcionava. Chegou à última porta. Desativou o selo. Empurrou-a lentamente.


O pedestal estava vazio.


Todas as barreiras estavam intactas. Os selos espirituais permaneciam ativos. Ninguém havia atravessado aquela porta antes dele.


Então... como?


As orelhas moveram-se lentamente enquanto seus olhos percorriam a sala.


Não havia sinais de invasão. A marca de poeira, no formato do pergaminho, deixava claro que ele havia sido retirado a pouco tempo.


A informação vazou.


Antes que Kurama pudesse reorganizar os pensamentos, um estrondo ainda mais alto ecoou do lado de fora. Depois outro. Um brilho alaranjado refletiu nas janelas.


Kurama deslizou pelo corredor sem fazer o menor ruído. A confusão do lado de fora trabalhava a seu favor. Quase todos os guardas abandonavam seus postos para reforçar o pátio principal.


Passou por duas esquinas, desceu uma escada estreita e alcançou uma varanda de pedra. Dali conseguiu enxergar parte da fortaleza.


Parou por um instante.


…


Aquilo não era uma distração discreta.


Era uma guerra.


Parte do depósito de óleo ardia em chamas, espalhando o fogo para os prédios adjacentes. Guardas corriam em todas as direções tentando conter as chamas.

No alto de um telhado mais a esquerda, o rapaz das asas recuava um passo de cada vez enquanto três guardas tentavam cercá-lo.


Kurama observou a cena em silêncio. Não era problema seu. O serviço havia fracassado. A parceria terminara no instante em que descobriram que o pergaminho não estava ali.


Bastava ir embora.


Deu um passo.


Depois outro.


Parou.


As orelhas moveram-se para trás num gesto de irritação. O idiota tinha seguido o plano. Chamou toda a atenção da fortaleza. Fizera exatamente a parte que lhe cabia. Kurama soltou o ar lentamente.


— Tsc…


Mudou de direção.


— Eu realmente odeio trabalhar em equipe.


Cortou caminho pelo telhado, vinhas surgiram e se enrolaram nas pernas dos guardas, os puxando de surpresa para fora do telhado. Kurama alcançou o rapaz bem quando ele perdia o equilíbrio, quase caindo entre as chamas.


— Você.


— Eu.


— Achei que fosse embora.


— Eu também.


Kurama o puxou pelo braço, os dois saltando para o telhado vizinho enquanto flechas de fogo cortavam o ar atrás deles.


— O que você fez? — Kurama perguntou, olhando o prédio em chamas a poucos metros.


— Derrubei uma tocha.


— …


— Foi um acidente.


— Acidente?


— Mais ou menos.


Kurama desistiu de perguntar. Atrás deles, mais guardas surgiam sobre os telhados.


— Pela esquerda! — gritou um deles.


Kurama lançou um olhar rápido ao redor.


Ruim.


Muito ruim.


Havia uma distância considerável para o telhado seguinte, assim como para o chão lá em baixo. Não havia como saltar aquela distância. Os guardas diminuíam o espaço. Kurama levou a mão até uma das sementes escondidas na manga. Não daria tempo. Foi quando o rapaz sorriu.


— Confia em mim.


Kurama nem teve tempo de responder. O rapaz agarrou seu braço e mergulhou para fora do telhado.


— VOCÊ ENLOUQUECEU?!


No último instante, as asas se abriram. Não eram fortes o bastante para voar. Mas bastavam para quebrar a queda. Os dois atravessaram o vazio e atingiram o telhado seguinte rolando.


Atrás deles, os guardas pararam na beirada, incapazes de acompanhar. Os dois imediatamente pularam para o chão, disparando em direção a floresta e sumindo da vista dos youkais que os perseguiam.


Aos poucos as vozes foram ficando distantes. Só então os dois diminuíram o ritmo. Pararam atrás de um velho muro de pedra, ainda ofegantes. Por alguns instantes, nenhum dos dois falou.


Foi Kurama quem quebrou o silêncio.


— Admito...foi uma boa ideia.


O rapaz ergueu uma sobrancelha.


— A questão das asas.


O elogio pareceu o surpreender por um instante. Logo depois Kurama completou:


— Mas ainda acho que você é inconsequente.


— E eu acho que você pensa demais.


Por um instante, os dois apenas trocaram um olhar.


Então Kurama respirou fundo.


— Perdemos o pergaminho.


O rapaz ergueu uma sobrancelha.


— Perdemos?


Enfiou a mão por dentro da roupa, remexeu por um instante e puxou um pergaminho preso por uma fita vermelha.


— Você está falando deste aqui?


Kurama ficou olhando para o objeto.


Depois para ele.


Depois para o pergaminho outra vez.


— Como?


O outro deu de ombros, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.


— Quando você estava lá dentro, um guarda saiu correndo com isso debaixo do braço.


Sorriu.


— Achei estranho alguém fugir com um pergaminho durante um incêndio.


Estendeu o objeto para Kurama.


— Então peguei.


Kurama permaneceu alguns segundos em silêncio. Ainda incrédulo. Não sabia dizer se aquele sujeito era brilhante ou simplesmente o youkai mais irresponsável que já conhecera.


Talvez as duas coisas.


— Não vai perguntar?


Kurama lançou-lhe um olhar confuso.


— O quê?


— O nome do cara que salvou seu plano infalível?


Kurama não conseguiu evitar um discreto sorriso. Era uma pergunta surpreendentemente razoável.


O outro estendeu a mão.


O outro estendeu a mão aberta:


— Kuronue.


Kurama encarou a mão estendida. Nomes tinham peso. No Makai, oferecer a mão a outro youkai era o mesmo que entregar o próprio pescoço. Durante anos, Kurama fizera questão de esconder quem era. Porque nomes criavam rastros. Criavam vínculos. Criavam fraquezas.


Ele hesitou por uma fração de segundo. Olhou para o sorriso despreocupado do rapaz e, finalmente, apertou a mão dele.


— Kurama.


O sorriso de Kuronue se alargou imediatamente. Guardou as mãos atrás da cabeça e começou a caminhar pela estrada.


— Vamos.


Kurama arqueou uma sobrancelha.


— Vamos?


— Temos um pergaminho para entregar.


Fez uma pausa.


Sem olhar para trás, acrescentou:


— Acho que formaríamos uma boa dupla.


Kurama observou suas costas por alguns segundos.


Depois olhou para o pergaminho nas próprias mãos.


Soltou um suspiro quase imperceptível.

Então guardou o pergaminho dentro da roupa e começou a caminhar atrás dele.


Pela primeira vez em muito tempo…


Kurama não estava sozinho.