Contos de um velho caderno
16 Perspectivas
Naquela noite o céu estava sem estrelas, mas de um azul profundo e vívido. Lembro-me de olhar para ele através da janela antes de partir. Em retrospectiva, nosso começo parecia feliz e despreocupado. Agora, eu sentia no peito o peso daquela partida. Seu rosto estava inexpressivo, mas eu sabia que aquilo o corroia por dentro. Ah, querido, eu sabia que você ainda me amava, mas não podia mais deixar aquilo me sufocar. E quando eu fui sair pela porta, eu passei a mão em seu rosto, e desejei que ainda pudéssemos ser amigos no fim de tudo. Mas seus olhos carregavam tristeza, e aquilo reduziu meu coração aos pedaços. Quando parti, senti que deixara parte de mim para trás. Uma parte minha que ficava em você, e que, eu sabia, remanesceria ali, intocada, até que você desse o seu último suspiro.
* * *
O momento que antecedeu a sua partida foi como ver um filme em um projetor antigo. Quadro por quadro. Naquela noite eu dirigia para casa e o rádio tocava uma canção triste, como se tentasse prever o que aconteceria. O sol estava se pondo e misturando seus tons de laranja a um azul que parecia diferente, quase vibrante. Você estava olhando pela janela, distante, e dessa vez não me recebeu com um abraço. Encarei seus olhos nervosos e tentei entender o que se passava em sua mente. Então você disse “Querido, eu já não o amo”, e a gravidade de repente pareceu mais pesada, esmagadora. Revivi em minha mente algumas de nossas memórias, tentando encontrar em que ponto eu errara, o que eu havia feito para que você me deixasse. Mas tudo parecia borrado e desconexo agora, como uma história cujos capítulos estavam desorganizados. Uma história que não tinha um final feliz. Ela terminava com você partindo.
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