Contos de um velho caderno
17 Aquele quarto
Paredes brancas e grandes janelas cobertas por uma cortina feita de um fino tecido. Em um canto, uma vitrola girava melancolicamente, tocando um disco qualquer que você pusera no fim da tarde. A cama estava desfeita. Havia algo de especial na atmosfera daquele ambiente. Eu não sabia dizer o quê. Talvez fosse o conjunto todo. Talvez fossem as manchas alaranjadas que o sol poente que passava através das cortinas deixava nas paredes. No fundo eu sabia, mas tentava achar outros motivos que explicassem porque eu me sentia tão bem. A imagem daquela garota esticada à minha frente, deitada despreocupada no fundo da cama, olhando para um ponto fixo no teto enquanto sua mente viajava, tomada pela música.
Eu estava escorado na cabeceira, observando-a, vendo como seus cabelos negros se espalhavam e contrastavam com o branco dos lençóis. Como a minha camisa cobria o seu corpo. Como seu batom vermelho destacava-se em seu rosto, e dividia minha atenção entre seus lábios e seu olhar perdido.
Você levantou-se, subitamente, e andou até a janela, daquele jeito leve e balançado. Afastou um pouco a cortina, e eu notei que escurecera. Andei também, até você, e enlacei meus braços em sua cintura. Lentamente, beijei-lhe o pescoço e a clavícula. Pude sentir um arrepio percorrer o seu corpo, e depois passar para o meu, como uma corrente elétrica. O disco chegou à sua última música. Balancei nossos corpos no ritmo da melodia, calma e envolvente. Se fosse para permanecer ali, assim, eu colocaria todos os discos que tinha, várias e várias vezes, até o fim da noite.
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