Contos de um velho caderno

3 Nem todos os anjos podem voar


Andando silenciosamente pela praia, eu divagava em meus pensamentos.

A pequena cidade litorânea, nos meses de inverno, ficava tranquila e inspiradora. A orla estava vazia e, apesar das roupas de malha, o vento gélido queimava meu rosto e emaranhava meus cabelos. O tom nublado do céu transmitia a sensação aconchegante de que eu estava em casa.

Tirando-me de meus devaneios, porém, uma figura encontrava-se alguns metros adiante, as calças dobradas até as canelas, como se pairasse sobre a espuma do mar. Os cabelos negros desgrenhados caíam em cachos sobre a testa. Aproximei-me e ele virou o rosto em minha direção, revelando olhos azuis que sob aquela luminosidade pareciam desbotados.

Milhões de perguntas percorriam minha mente. Mas fiz aquela que, de longe, era a menos importante:

– Por que está com os pés dentro dessa água gelada?

Ele me olhou como se estudasse cada mínimo detalhe do meu ser, e devolveu a pergunta estranha:

– Por que esconde um dos olhos sob o cabelo?

Nunca havia realmente pensado em porque fazia aquilo. Talvez gostasse demais de andar ao vento.

Sentindo o silêncio pesar, ele deu de ombros e falou:

– Dizem que quem esconde um dos olhos, esconde um dos lados da alma.

Absorvi aquelas palavras, encarando o chão. O rapaz virou as costas. Quando ergui os olhos, ele havia sumido.