Contos de um velho caderno

2 Coisas que eu pensaria se fosse um cara


A primeira vez que a vi foi em uma festa underground. Eu estava escorado no bar observando, já que dançar não é meu forte. Ela estava abrindo caminho em meio à pista de dança. Sem que eu percebesse, ela já estava ao meu lado, me encarando com um olhar que fez com que toda a confiança que eu fingia aparentar desaparecesse junto com qualquer palavra que pudesse sair da minha boca. Ela abriu um sorriso, e eu percebi há quanto tempo estava olhando para ela. Saí dali rapidamente, e com a mesma velocidade ela me alcançou.

– Decidiu partir para outra ou é mesmo todo esse poço de mistério? – ela perguntou.

E eu, sorrindo, respondi:

– Acho que a segunda opção.

* * *

Quando a vi se aproximar, minha mente remetia apenas uma palavra. A jaqueta de couro por cima do vestido, as botas coturno, o cabelo repicado e o batom cor cereja. A imagem que ela transmitia era apenas uma: perigo. Perto dela eu me sentia como se estivesse a ponto de me meter em alguma encrenca, e o pior, por livre e espontânea vontade. Perto dela eu tinha uma sensação distinta que ninguém mais me permitia sentir. Eu me sentia vivo, excêntrico e único. A presença dela me fazia sorrir com o canto da boca, como alguém que entende sarcasmo, tem uma ideia maquiavélica ou está prestes a cometer um crime.