"É só um pesadelo... É só um pesadelo... É só um pesadelo..."

A criança repetia mentalmente para si mesmo sem parar, na esperança de que ele enfim acordasse.

Seu quarto era um dos poucos lugares que o fazia se sentir seguro. Quando ele trancava a grande porta de madeira escura de seu quarto, nada e ninguém poderia o machucar. Ele se divertia com o papel de parede roxo com pequenos morcegos esbanjando sorrisos amigáveis. O carpete azul em seu chão era a estrada para suas muitas brincadeiras com seus carrinhos e bonecos, que eram sempre muito bem guardados no pequeno baú ao pé de sua cama quando era a hora de ir dormir. O cheiro de madeira antiga de seu guarda roupas era algo que o reconfortava e, se mesmo em seu quarto ele passasse a sentir medo, sua pequena cama sempre estaria lá para o proteger, com seus lençóis estampados com o novo personagem por quem ele estava obcecado naquela semana.

Porém, desde que ele havia se deitado para dormir naquela noite, seu quarto não parecia ser o mesmo. A sensação de segurança se transformou no sentimento de alerta, de perigo. Era como se seu quarto não fosse inteiramente real.

"Eu só posso estar sonhando".

Os morcegos em suas paredes pareciam rir ominosamente dele, as cerdas de seu carpete eram como milhares de dedos tentando agarrá-lo vorazmente. Ele sentia que não eram seus brinquedos que estavam guardados em seu baú, mas sim algo terrível e grotesco desesperado para sair. O cheiro que emanava de seu guarda roupas era podre, como carne em decomposição. Talvez fosse sua mente lhe pregando peças no meio da escuridão, porém ele podia jurar que algo escorria pelas frestas e cantos da madeira escura de seu guarda-roupas, e uma fraca luz vermelha brilhava sob sua porta, a qual ele já não tinha mais certeza de que havia sido trancada.

O menino tentava se manter de olhos fechados, mas parecia que mesmo que ele cerrasse suas pálpebras com toda a força, era possível ver através delas, e ele sempre retornava àquela imagem desconcertante de um quarto que já não era mais o seu. No canto de seu olhar, silhuetas escuras vagamente humanas se movimentavam rapidamente, mas nada estava realmente lá.

Subitamente, um som grave de batida pode ser ouvido por trás da porta, seguido de outra batida, e assim sucessivamente. Como passos pesados, se aproximando cada vez mais. E a cada batida, a leve luz sob a porta ficava um pouco mais forte. O cheiro de podridão do armário se intensificava, os milhares de dedos no carpete chegavam um pouco mais perto da cama, a coisa presa no baú se tornava mais feroz, e os sorrisos maníacos dos morcegos nas paredes aumentavam. Um grave lamento pode ser ouvido, como o choro de uma banshee, chegando cada vez mais perto.

Seja lá o que estivesse atrás da porta, parecia furioso e faminto.

E estava muito mais perto do que deveria.

Os sons eram quase ensurdecedores, as batidas pareciam vir de dentro da cabeça do garoto e os lamentos ecoavam por toda a casa. O cheiro de podre era nauseante e impregnava toda a cena, e todas aquelas imagens perturbadoras pareciam mais reais e mais perigosas a cada minuto. A luz sob a porta quase o cegava de tão forte.

Até que, tão subitamente como começaram, os passos sessaram, e o silêncio se fez no quarto.

A respiração descompassada do garoto era a única coisa que era possível ser ouvida, assim como as batidas aceleradas de seu coração era a única coisa que ele sentia. Estava prestes a começar a chorar em desespero, porém, ele prestou um pouco mais de atenção, e percebeu que era possível ouvir algo além de sua própria respiração.

Um leve, grave e faminto arfar que parecia vir debaixo de sua cama.

E foi naquele momento que o garoto percebeu que não estava sonhando.