Contos de Outubro
3 Perda
A dor da perda é uma das mais difíceis de se superar. Pode levar anos, até décadas, para que um humano consiga deixar a perda em seu passado.
Mas algumas pessoas escolhem não esquecer.
O rapaz observava o corpo inerte da garota, repousando calmamente em um adornado caixão, decorado com flores brancas. Ao acomodar a única rosa vermelha sobre seu belo buque, o garoto observou, pela última vez, como ela ficava linda de branco.
Os anos se passaram e, naturalmente, as pessoas tentaram seguir em frente, esquecer o que havia acontecido há cinco anos atrás. Aquela fatídica noite de outubro, onde os belos olhos azuis daquela menina perderam seu brilho. Mas ele não iria esquecer tão fácil. Ele não poderia simplesmente esquecer.
Muitos tentaram o convencer de que havia sido um acidente, mas ele sabia a verdade. Ele sabia que as mãos de um homem continham o sangue de uma jovem inocente, e que tal homem — não, tal monstro — ainda vivia sua vida normalmente, como se nada tivesse acontecido. Mas ele sabia que aconteceu. E ele não iria se esquecer daquilo.
Após o sétimo aniversário da morte, o garoto passou a frequentar cada vez mais aquele cemitério. Ele a visitava todos os dias, ás vezes durante o dia todo, e já começava a alarmar as pessoas mais próximas a ele, aquelas que ainda não haviam se afastado por conta dessa estranha obsessão com a morte daquela garota. Era só sobre isso que ele falava, isso quando falava. Recentemente, perdera o costume de se comunicar com tanta frequência quanto antes, apenas falando para se lamentar pela morte de alguém.
Já haviam se passado treze anos e, desde o aniversário da morte da garota, ele não havia deixado seu túmulo. Nem para se alimentar, nem para dormir, nem por nenhum motivo. Estava começando a perder suas forças, porém se recusava a sair de lá. As pessoas da cidade já estavam começando a criar lendas e estórias sobre o velho do cemitério, mas nada disso o abalava mais. Tudo o que ele pensava era sobre a garota enterrada á sua frente. Ele ao menos parou de usar preto e, em seus últimos dias, estava vestido dos pés a cabeça em branco. A última coisa que pensou antes de sentir seu coração parar, foi como ela ficava linda de branco.
. . .
Já haviam se passado treze anos desde aquela fatídica noite de outubro, quando sua afiada faca de cozinha havia manchado aquele belo vestido branco com o vermelho do sangue dela. Ele se lembrava vividamente daquela noite. Porém estava se lembrando com mais frequência desse acontecimento, pois seus sonhos começaram a ser assombrados pela imagem daquela noite. O homem já não podia dormir direito.
Uma semana após o décimo terceiro aniversário daquele incidente, o homem passou a ouvir um leve e grave lamento sob sua grande janela da sala todas as noites. Porém, quando ele se atrevia a checar o som, não havia nada lá.
Ou era isso que ele preferia acreditar.
Aquele rapaz de luto eterno não havia conseguido descansar. Ele sabia quem havia tirado a vida daquela garota, e ele não iria se esquecer. Ele não o deixaria esquecer.
Por mais três meses, ele continuava visitando a casa do assassino, o fazendo relembrar do que ele havia feito.
Sempre lamentando por uma morte que estava para chegar.
Sempre lamentando pelo dia em que iria se vingar.
Sempre escolhendo se lembrar.
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