Contos de Outubro
1 Medo
Era uma noite fria de outubro. A única fonte de luz que iluminava seu caminho naquela mata sombria era o ominoso brilho da lua, mas nem isso era algo constante naquela situação, graças ás poucas nuvens que vez ou outra a encobriam.
Ele sabia que aquele brilho seria a ultima coisa que veria.
O vento gélido golpeava seu rosto enquanto corria pela floresta, assim como as folhas e galhos das árvores por onde passava, deixando leves rasgos por sua pele bronzeada. Algumas folhas, por vezes, se enroscavam em seus cachos castanhos, mas o rapaz não se preocuparia em consertar isso. Não agora.
O cheiro da mata, que antes o tranquilizava, agora era atordoante e deixava um gosto amargo em sua boca. Ele arfava rapidamente, tentando pegar mais fôlego para continuar correndo. Seu coração estava a mil, seus pulmões quase falhavam e suas pernas imploravam para que ele parasse, só por um segundo. Mas ele não iria parar. Ele não podia parar.
O som da vegetação afagando a sua pele se misturava com seus firmes passos e sua respiração descompassada, porém não foram o bastante para abafar o estrondoso uivo que pode ser ouvido á distância. Não estava distante o suficiente. Estava, em fato, perto de mais.
Tão perto, na verdade, que não demorou muito para que o garoto conseguisse ouvir graves arfadas atrás dele, passos ainda mais pesados que os dele, e a vegetação acariciando uma pele que não era a dele. Neste momento, o garoto sentiu todo o sangue se esvaindo de seu rosto e seu coração pareceu parar por um momento. Toda a esperança de um dia voltar para casa havia sido devorada, e o garoto sabia que logo ele também seria.
Mas ele não desistiu.
Seu medo de morrer era maior que sua desesperança, então ele continuou correndo. Pulando sobre as pedras em seu caminho, fazendo curvas e sando da trilha, tentando ao máximo escapar de seu terrível destino.
Mas bastou um passo em falso para que todo o seu esforço se provasse ser em vão.
No meio do breu daquela noite, o brilho da lua o abandonou, selando sua sina. Em um segundo, estava no cão, com seu pé preso em uma raiz que ele falhou em perceber.
Ele já sabia o que iria acontecer á seguir.
O máximo que conseguiu fazer foi se virar para encarar de frente a sua morte.
Conseguiu ver aquela silhueta grotesca, colossal e monstruosa que o caçava. Contra o que restou do brilho enfraquecido da lua, aquela criatura parecia ser algo saído de seus mais profundos pesadelos. Sua forma era algo vagamente humanoide, com enormes chifres saindo de sua cabeça, se enrolando e contorcendo em formatos que não pareciam ser reais, que não podiam ser reais. Suas mãos quase nem pareciam ser realmente mãos, mas sim veias e ossos se contorcendo entre si, formando algo que um dia talvez tenha se parecido com uma mão humana, e suas garras eram de tamanhos muito maiores do que qualquer unha humana seria biologicamente capaz de alcançar. Seu rosto não era visível daquele ângulo, porém a única coisa que se destacava era o brilho vermelho de seus olhos. No momento em que ele os viu, ele soube.
Aquele brilho era a última coisa que veria.
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