Contos de Lamarya

1 O Technolince - Parte 01


P a r t e I

Em uma estrada de terra quatro grandes carros militares modelo TX-TX.232 tentavam manter-se firmes enquanto enfrentavam a fúria de uma chuva ácida torrencial. Ao redor deles uma imensidão de árvores e mato os cercavam. A escuridão densa só era amenizada pelos faróis redondos na dianteira dos veículos. Mas isso só permitia ver nada mais do que alguns metros da estrada a frente.

— Argh. Que horas são, Mark? – perguntou um dos passageiros dentro do carro que liderava a rota.

Mark olha para o relógio digital no painel de controle do veículo e sua cara se torceu numa leve careta. Os números digitais marcavam 03:30.

— É tarde. – respondeu ele.

— O quê? Isso nem é uma resposta. Deixa pra lá. Eu não quero nem saber as horas pra não me irritar mais ainda com essa missão idiota.

— Então por que você se ofereceu no time, Archie? Toda missão você reclama.

— Primeiro: o dinheiro é bom. Segundo: eu não tinha mais nada pra fazer. E terceiro: o dinheiro é muito bom. – Archie se encostou na sua cadeira na parte de trás do carro e tentou relaxar. Ele era um cara grande com um esquisito corte de cabelo moicano e loiro. Já havia perdido a noção do tempo dentro daquele carro enorme. Odiava ficar parado sem fazer nada ali. O pesado uniforme de mercenário também contribuía para o seu desconforto. Um macacão preto com placas metálicas de proteção. Mas o que mais lhe incomodava era o seu vizinho de acento. Um robô de 1 metro e 90 centímetros. A lataria era de vários metais pesados e resistentes, haviam vários cabos e pequenos fios entre as juntas dos membros. Ele era bem encorpado e vestia um colete militar. Sua cabeça era como uma bola e apenas dois olhos redondos de vidro a completava. Mas o item mais chamativo era a arma que ele carregava: um rifle FZZ. Era uma arma grande e potente que disparava um lazer verde que perfurava quase qualquer superfície solida. Era uma arma pesada. Apenas pessoas muito fortes ou robôs conseguiriam usa-la adequadamente.

Archie olhava o robô de cima a baixo. Ela não movia um dedo a noite toda. Parecia mais uma estátua do que um robô, ele pensou.

— Ô meu querido enlatado, tudo bem aí com você? – ele perguntou.

O robô continuou imóvel.

— Alô, você me ouviu?

Nenhuma reação.

— Ah já sei. Você não responde porque não tem boca. Só olhos. – Archie começou a rir. – Pô, desculpe. Achei que tivesse um autofalante no seu peito ou algo assim. Como você faz pra pedir uma lata de óleo pra se refrescar. Ah não precisa responder.

— Cara, dá pra ficar sério? – reclamou Mark – A gente tem que ter foco nessa missão. Mais do que nunca.

— Ah, relaxa aí. Mas acho que esse brinquedo gigante tá carregando algo perigoso. Olha só.

Archie colocou a mão esquerda sobre o rifle FZZ. De repente o robô agarrou seus dedos e ele começou a gritar de dor.

— ARRGHH! Me largaaaa!!!

— Mas que merda é essa?! – Mark olhou para trás puxando sua pistola. Mas Archie já havia sido largado.

— Esse robô idiota quase quebrou minha mão, caramba! – gritou Archie.

Mark olhou desconfiadamente para o robô.

— Deixa eu ver isso aí.

Mark começou a examinar a mão de Archie. Ela estava levemente inchada.

— Não foi nada sério. – ele afasta a mão de Archie e volta pra frente do carro. — Não entendo. Por que ele reagiu assim? Ele olhou para o robô de novo. Estava na mesma posição imóvel de antes. De repente uma voz no banco do carona ao lado de Mark disse:

— Ele tem um proposito, capitão Mark. Aniquilar os alvos que lhe são dados. E, de acordo com sua programação, a melhor maneira de fazê-lo é com a arma que lhe foi dada. Logo ele deve protege-la. Sua reação foi neste intuito.

O dono da voz era outro robô. Mark e Archie olharam para ele. Era bem diferente do robô armado que estava no banco de trás. Este era mais parecido com um humano e menos encorpado. Mas sua carcaça era de metal igual ao do outro. Seu colete militar era idêntico também, mas tinha acrescentado um emblema dourado brilhava no lado esquerdo. Era um símbolo de líder. Em seu rosto metálico haviam duas esferas de vidro, igual ao outro, mas eram menores. E no local onde seria a boca de uma pessoa tinha três aberturas finas e horizontais uma acima da outra. Quando ele falava elas acendiam cada uma aleatoriamente.

— Esse fala. – disse Archie.

— Sim, fala. – Mark voltou sua atenção à estrada. – Ele é o líder deles. Se chama AZ77 alguma coisa.

—AZM 727. – corrigiu o robô. – Mas eu adotei um nome mais fácil para os não-máquinas memorizarem melhor. Azimu.

— Ok, Azimu... – disse Mark.

— E esse barriu de aço aqui do meu lado tem nome? – perguntou Archie enquanto segurava a mão dolorida.

— CY 100. – respondeu Azimu.

— Certo. E ele não tem um nome que não se pareça como uma estação de rádio, igual a você?

— Não. CY 100 não foi fabricado para interação linguística com humanos. Seu único propósito é eliminar os technolinces.

— Bah, technolince. Ainda não entendi que porcaria é essa e por que é tão perigosa.

— É porque você nunca lê o arquivo da missão todo. – disse Mark.

— Sou pago pra atirar não pra ler. Esse é o seu trabalho, líder.

— Tá certo... Então vou aproveitar e repassar novamente o objetivo da missão para todos. Estamos bem perto do local.

Mark aperta algumas das teclas que estão no painel do carro. De repente o para-brisa pisca e três telas aparecem nele. Em cada tela era mostrado um mercenário com uniformes iguais aos de Mark e Archie. Ao lado de cada um estava um robô de identico ao CY 100. Eles estavam nos veículos que vinham atrás. Mark aperta mais alguns botões e o carro-tanque muda para o modo automático de direção.

— Tudo bem aí atrás? – perguntou ele.

— Tudo sim, capitão. – disse um.

— Exceto por essa chuva ácida que provavelmente vai nos derreter. – disse outro.

— Não se preocupem. O computador diz que a acidez é quase neutra. – respondeu Mark.

— Isso mesmo. No máximo vamos apenas perde os cabelos. – disse Archie.

Mark fez sinal com a mão para ele ficar calado.

— Ok, pessoal de acordo com o GPS estamos bem perto do local. Então eu vou recapitular a missão e o objetivo mais uma vez. Vou transmitir algumas imagens para auxiliar na minha explicação. Principalmente para o Archie que não sabe ler (Archie mostra o dedo do meio) – ele aperta alguns botões no painel e a imagem das telas muda para uma só tela. Nos outros veiculo o para-brisa mostrava a mesma coisa.

— Certo, basicamente nós iremos caçar um robô hibrido. Ele é chamado de technolince. Ele foi criado a cerca de um ano e meia pelo Laboratório Taitaka. Eles são os melhores no ramo da cibernética do quadrante norte de Lamarya. Sua sede fica na cidade de Ôma. Os technolinces são biorobôs de caça. Eles têm a forma semelhante aos grandes felinos selvagens já extintos. – Uma pequena janela na imagem da tela se abriu mostrando a aparência do Technolince. Era como um tigre ou onça com partes metálicas cor de prata e preto. Seu formado era aerodinâmico, seus olhos eram redondos e verdes, suas presas eram grandes como suas garras.

— Esses “bichos” foram desenvolvidos por encomenda a mando de um ricaço dono de uma fazenda de soja transgênica que fica na província de Madece. A soja dele estava sendo devorada por uma praga de porcos mutantes do sul. O objetivo dos technolinces era extermina-los. E foi o que eles fizeram, mas daí que as coisas saíram de controle. Eles foram construídos com um programa que era pra ser ativado quando todos a praga fosse eliminada. Esse programa faria os technolince voltarem ao laboratório de origem pare serem desativados. Mas não foi o que ocorreu. Algo deu errado e os animais fugiram para o Deserto de Sucata e se espalharam por toda Lamarya. Daí a coisa piorou mais ainda.

Mark aperta mais alguns botões e surge um vídeo na tela mostrando várias cenas intercaladas. Nelas haviam imagens de casas destruídas e pessoas mutiladas. Todas com cortes e rasgos profundos. Essas cenas se repetiam em várias localidades diferentes mostradas no vídeo.

— Foi então que os chefões do Laboratório Taitaka ficaram loucos da vida. Afinal a reputação deles estava em jogo sem falar nas ações despencando a cada minuto. E foi aí que eles criaram nossos amigos blindados que estão do nosso lado. Eles foram desenvolvidos especialmente para caçar os technolinces e...

— Deixe-me apresentar minha equipe, capitão. – interrompeu Azimu.

— Ahn, tudo bem, vai em frente.

— Continuando a explicação do Capitão Mark. Me chamo Azimu. Sou o líder deste grupo de robôs. Como o capitão Mark disse, fomos desenvolvidos para eliminar os technolinces. Fomos feitos especialmente e apenas com este objetivo. Somos feitos por metais de ultima qualidade de resistência. E nosso sistema cibernético é da mais complexa tecnologia.

— Ele quis dizer que são muito caros. – gritou Archie. Mas Azimu continuou como se não tivesse sido interrompido.

— Como vocês podem notar somos no total de cinco. Este número é igual ao total de technolinces que foram criados originalmente. Como podem notar também meus parceiros são iguais em aparência. Apenas eu possuo uma significante diferença. Basicamente eles foram feitos para a ofensiva direta e eu para a tática e estratégia. Mas posso atirar se necessário. No total de 141 dias conseguimos destruir quatro dos alvos. Entretanto o quinto escapou mais de nove vezes. A princípio nossos criadores não sabiam definir a causa de nossa falha em capturar o último, mas meu cybercomputador chegou a uma conclusão. Este último na verdade foi o primeiro a ser desenvolvido e ele tinha uma constituição diferente. Ele é dotado de uma inteligência artificial superior. E com o passar do tempo ele vai se tornando um melhor caçador e melhor fugitivo. Além disso ele aprendeu a habilidade de criar outros technolinces.

— Peraí, tá dizendo que esse robô se reproduz? – perguntou Archie.

— Reproduzir não é bem a palavra correta. Ele seleciona e recolhe as peças necessárias e constrói outras criaturas semelhantes a ele. Não tão inteligentes, mas igualmente letais. Todas as onze vezes que tentamos capturá-lo ele havia criado esses pesudo-techonolince. Sempre destruíamos eles, mas na caçada seguinte surgiam outros.

— Não foi à toa que ele fugiu pro Deserto da Sucata. Lá ele poderia encontrar todo o material necessária pra criar esses outros robôs. – explicou Mark.

— Exato capitão. Continuando: tentamos capturá-lo onze vezes. E também tivemos nossas baixas. Posso dizer que apenas eu sou o membro do grupo de caça inicial. E após todas essas tentativas o Laboratório Taitaka decidiu que precisávamos de ajuda humana nessa caçada.

— E é aí que a gente entra, rapaziada. – disse Mark. – Os chefões do laboratório estavam perdendo muito dinheiro repondo robôs caçadores e pagando os estragos dos technolinces. E perceberam que era mais barato contratar a gente pro serviço.

— Dá minha parte não vai ser nada barato. – disse Archie.

Vinte minutos se passaram e os quatro carros-tanque chegaram em uma área bem diferente da estrada que percorreram. A paisagem era repleta de arvores altas e grossas. Da raiz até dois metros acima as arvores eram revestidas de placas metálicas com vários circuitos elétricos contornando-as. Continuando para cima eram arvores de casca grossa e escura, a copa delas era imensa. Entretanto havia também pequenas colinas isoladas mais ao sul do local. Os mercenários saíram dos veículos. Cada um tinha um robô armado com um rifle de parceiro.

— Bem, é aqui. – disse Mark olhando em volta. De repente do alto de uma colina um jato de fogo púrpura jorrou para o alto. Todos, exceto os robôs, olharam aquilo surpreendidos. – Rapazes. Bem-vindos à Terrarosa.