Contos de Lamarya
2 O Technolince - Parte 02
Parte II
Quarenta minutos se passaram desde que o grupo de mercenários humanos e robôs chegaram no local da missão. Eles se dividiram em duplas (um humano e um robô) e se espalharam pela floresta de “árvores metálicas” (como Archie as chamou). Na verdade, a parte metálica era uma espécie de incubadora de árvores. As sementes eram jogadas ali e um processo automático alimentava-as com nutrientes especiais para crescerem mais rápido. Essa foi uma medida tomada há alguns séculos atrás devido ao baixo nível de oxigênio que era registrado anualmente em toda Lamarya. Os cientistas perceberam que era devido à redução massiva do número de árvores de grande porte que eram as que produziam o oxigênio. Então uma medida emergencial foi tomada para que uma crise ambiental e mortal fosse impedida. Plantar florestas inteiras e faze-las crescer o mais rápido possível. Os defensores do meio ambiente riram da ironia e fazem piadas até hoje nas redes sociais da cybernet.
— Isso é engraçado. – disse Mark. – O nome oficial desta região é Brodan, mas ela é mais conhecida como Terrarosa.
— Sei que sou um robô e consequentemente desprovido de emoções. – disse Azimu. – Mas meus processos lógicos não conseguiram concluir o motivo deste fato geográfico ser engraçado.
A dupla caminhava lentamente entre as altas árvores incubadoras. A luminosidade era mínima. Apenas provida pela luz da Lua cheia que entrava entra as copas das arvores e por alguns vagalumes-de-tungstênio. Estes são pequenos robôs voadores que possuem uma lâmpada fluorescente. Foram desenvolvidos por uma antiga empresa de robótica para iluminar locais de difícil acesso para ajudar em trabalhos noturnos. Entretanto outras empresas criaram suas versões e elas se espelharam por toda Lamarya. Algumas por terem partes orgânicas criadas em laboratório foram capazes de se multiplicar.
— É engraçado porque ela é conhecida por Terrarosa em vez de Brodan que é o nome oficial. – explicou Mark. – E este lugar não tem motivo pra se chamar Terrarosa.
— O subsolo do local possui uma enorme jazida de lítio liquido. Devido a uma falha geológico abaixo da jazida gazes de temperatura altíssima sobem e aquecem o lítio. Ele acaba entrando em combustão, o elemento lítio quando em combustão libera uma chama rosada, e expelindo labaredas de chamas cor-de-rosa em algum solo externo que esteja com uma rachadura profunda. Desta maneira se original o termo “terra do fogo rosa”, que virou o nome Terrarosa.
Mark olhou para Azimu com uma expressão neutra.
— Impressionante. – disse ele.
A noite passava devagar e a dupla de caçadores nada convencionais continuava a caminhada lenta na mata. Mark olhou as horas no relógio. Eram quase quatro da manhã. Nenhum sinal do technolince. O relógio de Mark emitia uma pequena tela holográfica. Além de mostrar as horas ele tinha inúmeras funções. Como mostrar a situação dos seus 3 companheiros. Ela mostrava o nome de Archie e dos outros dois mercenários: Steve e Soares. Abaixo de seus nomes piscava uma barra horizontal de cor verde. Isso indicava que a saúde deles estava bem. Cada mercenário carregava um desses relógios, eles possuíam nanosensores que avaliam a condição física do usuário e transmite a informação para os demais companheiros. Barra verde é a melhor condição, laranja represente médio perigo e vermelho é risco de morte. E se o usuário perder todos os sinais vitais a barra muda para a palavra MORTO.
— Capitão, posso fazer um questionamento? – disse Azimu.
— Claro, manda.
— Percebi que você e seus outros companheiros não carregam armas de grande porte. Apenas simples revolveres de plasma. Parece-me um arsenal pouco adequado para esta missão.
Mark deixou um sorriso aparece no canto da boca.
— Não precisamos muito de armas de fogo, Azimu. Nosso “verdadeiro arsenal” é mais eficiente, por assim dizer. Você vai ver.
Azimu não disse mais nada.
Após mais meio quilometro de caminhada na densa floresta incubadora Azimu parou de repente.
— O que foi, Azimu. – Mark também parou e olhou para o robô. Azimu girava a sua cabeça de um lado para o outro lentamente.
— Ele está aqui. – disse.
No mesmo instante Mark ficou em alerta total. Olhava de um lado para o outro e aguçava a sua audição. A mão esquerda segurava a pistola de plasma que ainda estava no coldre. Sua mão direita estava fechada na altura de seu rosto.
Azimu também se preparou para o combate. Puxou rapidamente um rifle que carregava nas costas. Ele engatilhou e um som de energia sendo carregada soou.
— Meus sensores dizem que ele está a sete metros e cinquenta e oito centímetros. – alertou o robô.
— Direção? – sussurrou, Mark.
— Direção imprecisa. As arvores estão causando interferência em meu radar.
— Que ótimo. – Mark olhava freneticamente para os lados. Seu coração acelerava.
— Me de cinco segundos para regular meu radar e informar a direção correta.
— Não tenha pressa. – Mark apertava o punho direito com força.
— Cinco.
Um zunido metálico ecoou levemente no ar.
— Quatro.
Mark tentou localizar a origem mas parecia vim de todos os lados.
— Três.
A mata que envolvia as grandes árvores farfalhou.
— Dois.
De repente faíscas elétricas começaram a pular da mão direita de Mark.
— Um.
Finalmente o monstro atacou. Ele surgiu por de trás de Mark com um pulo veloz. Suas garras estavam esticadas para frentes e sua boca aberta mostrando presas de metal afiadas. Seus olhos emanavam uma luz vermelha que iluminou o rosto de Mark. Então algo aconteceu rápido demais para ser visto. Um brilho relampejante e um som de um trovão se espalharam para todos os lados. E tudo silenciou.
— Interessante. – disse Azimu. Ele olhava ao seu redor. Estava cercado por pequenas centelhas de luz que piscavam velozmente antes de evaporarem. No chão o corpo do technolince jazia caído. Sua carcaça de metal liberava um cheiro forte de circuitos queimados. Faíscas saiam de várias juntas de seu corpo. Mark estava ajoelhado sobre um só joelho ao lado da fera. O revolver de plasma ainda estava preso ao coldre. Sua mão direita emitia um brilho cintilante.
— Então você é dominador de magia. – disse Azimu. – Magia elétrica pelo que se constata.
— É isso aí – Mark se levanta, mas continua olhando para a carcaça do technolince. – Eu e minha equipe possuímos um nível bem alto nesse tipo de magia.
— Foi isso o que você quis dizer com “verdadeiro arsenal”. – disse Azimu olhando para a arma de plasma no coldre.
— Exato. Lutamos com nossas magias até esgotar. Depois que passamos pras armas de plasma.
— Compreendo. Tudo se explica agora. – disse Azimu.
— O que quer dizer?
— Apenas eu e outros robôs fomos designados para extinguir o technolince. Mas ele se mostrou mais desenvolvido do que nós e sempre escapou. Então meu criador contratou pessoas com habilidades elétricas. Capaz de queimar os circuitos de qualquer máquina.
— Exatamente. – disse Mark. – Somos especialista em magia de eletricidade. Archie queria até que colocássemos em nosso uniforme a frase ‘ELETRICIDADE É NOSSA ESPECIALIDADE. Porque rima. Mas fiquei com medo que achassem que fossemos uma companhia elétrica.
Mark deu uma risada esperando que Azimu risse também. O que logicamente não aconteceu.
— Bem – continuou ele olhando de volta para o technolince no chão. – Parece que estamos no caminho certo para pegar o chefão.
— Então você notou. – disse Azimu.
— Claro ele foi na minha cara. E seus olhos eram de luz vermelha. O technolince que queremos emite luz verde pelos olhos. Este deve ser uma reprodução daquelas que você disse.
— Correto. – confirmou Azimu.
— Bem, espero que o original seja tão fácil de derrubar quanto este. Mas nunca é. Vamos continuar.
Mais algum tempo depois Mark e Azimu continuavam a caçada entre as densas árvores incubadoras. Estavam em uma parte em que elas eram tão altas que as suas copas bloqueavam a luz a Lua. A escuridão era tamanha que Mark ligou a lanterna que fica no ombro direito do seu uniforme e Azimu ligou uma pequena lâmpada no meu de seu peito. Mark olhou seu relógio para ver a condição dos companheiros. Todos os três tinham barras verdes. Tentou se comunicar via rádio, mas a interferência das incubadoras causava muita estática.
— Pelo menos sei que estão bem. – pensou. – Ei, Azimu. O que vão fazer com o technolince depois que pegarmos ele? Quero dizer, ele parece ter evoluído bastante a inteligência artificial dele. Consegue criar copias até. Deve ter algum valor cientifico, sei lá.
— Ele foi um acidente. Sua IA foi inicialmente desenvolvida apenas para caçar os porcos mutantes. Uma falha pode ter feito com que sua IA se desenvolvesse fora do normal, mas ele não é único. Minhas pesquisas na cybernet me fizeram descobrir que há vários outro robôs capazes de desenvolver sua IA. Até mesmo podem se passar por humanos. Os androides.
— Sim, é verdade. Eu tenho um tio em Badarashi que tem um bordel de prostitutas androides. Nenhum cliente nunca reclamou.
Azimu vira a cabeça e olha para Mark.
— Foi meu tio que me disse numa reunião de família...
Azimu voltou a olhar para frente.
— De todo modo o technolince foi feito para um propósito, ele saiu de sua diretriz e deve ser desmontado ou reaproveitado em outras necessidades.
— Hum, entendi. E o que vai acontecer com você e seus companheiros. Vão atrás de outro “emprego”?
Azimu demorou a dar a resposta.
— Seremos desmontados e nossas parte reaproveitadas em outras necessidades.
Mark ficou meio pasmo. Olhava para Azimu como se esperasse ver uma expressão de tristeza na face do robô.
— Sinto muito. – disse ele.
— Não sinta. – Azimu falou de imediato. – É o meu propósito. Todos nós, máquinas ou seres vivos, temos um propósito para existirmos, capitão. A diferença é que quando uma máquina cumpre o seu ela é inutilizada, já vocês humanos partem para outro propósito até sua vida lhe ser tirada. E quando um de vocês humanos sentem que não possuem um se deprimem, podem até tirar a própria vida. Eu não ficarei triste, ou alegre ou satisfeito quando pegarmos o technolince. Meu propósito e dos meus companheiros é e sempre foi apenas isso. Sem recompensas e sem agradecimentos.
—Entendi. – Mark não conseguiu deixar de sentir pena daquela máquina ao seu lado. De repente ela parou e ergueu a rifle subitamente. – O que foi?
— Olhe para o seu relógio, capitão. – disse o robô. Seus pequenos olhos de vidro começaram a piscar freneticamente.
— Meu relógio? – Mark baixou o olhar até o relógio de pulso. Ele estava emitindo estática e a imagem da tela não estava uniforme. – Mas o que é isso?
— Meus GPS e radar interno também estão desorientados. Isso quer dizer que todos os sinais de localização estão sendo interferidos. Seu relógio mostrava a localização de seus companheiros.
— Sim, mas por que isso agora. São as árvores incubadoras causando interferência de novo? – Mark perguntou.
De repente, no meio da densa selva, dois olhos de luz esverdeada brilharam iluminando a dupla.
— Acho que não é isso, capitão.
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