Contos de Halloween
1 Olga
Pé atrás de pé, Olga saltitou pelo murinho, a viela abaixo escura e úmida, aguardando um deslize para recebê-la de braços abertos. Levou pouco tempo para decorar os caminhos certos, os que evitavam lugares perigosos.
A vida não foi fácil para ela: perdeu a mãe e os irmãos, vítimas da violência do mundo. Entretanto, raramente pensava neles. Estava preocupada demais com o que iria comer.
– Psiu! – Marlow pousou bem em frente, fazendo-a sibilar.
– Você me assustou! – disse ela, o coraçãozinho frenético palpitando no peito. – Nunca faça mais isso, Marlow!
Ele só continuou andando, enquanto dizia:
– Depois de ver o que eu conseguir, vai me perdoar.
– Humpf. – Mas ela o seguiu, pulando os telhados habilidosamente, cuidadosa o suficiente para não fazer barulho.
Marlow não mentiu quando disse que ela o perdoaria.
– Isso é… – O cheiro fez seu estômago dançar.
– É seguro, ganhei da velhinha da rua de baixo. Pode comer o quanto quiser. – Ele piscou. – Já peguei a minha parte.
Ela comeu sem cerimônias. Cada mordida a fazia pensar que a vida ainda valia a pena. Era o melhor frango que já comera na vida.
– Tem razão. – ela disse, enquanto engolia o último pedaço. – Perdôo você.
– Mas, não foi só pela comida que a chamei aqui… – disse, a voz repentinamente séria.
Ela o encarou com seus olhos azuis, confusa.
– Qual o problema?
– Vem aí uma época do ano perigosa. – Ele suspirou. – Mais perigosa para alguns de nós.
– O que quer dizer?
– Quero dizer que eu vou pegar comida para você essa semana. Fique escondida na minha casa, não quero que nada de ruim aconteça com você. – Se ela não conhecesse Marlow, até poderia ficar alarmada.
Olga fez uma careta.
– Eu sou plenamente capaz de buscar comida para mim mesma, sabia?
– Ainda falta uma semana, mas já estão fazendo seus rituais. Alguns grupos já estão andando pelas ruas… Está chegando o Halloween. – Ele sussurrou. – Eles vão atrás dos pretos, Olga.
***
Até parece que ela iria ficar escondida por uma semana inteira! Marlow a super protegia desde que eles se conheceram: ela, ainda pequena e ele, só um pouco maior. Por mais que ele insistisse em contar histórias terríveis sobre sacrifícios, ela duvidava que seria pega. Era esguia, rápida, absolutamente capaz de cuidar de si mesma.
Foi por isso que ela ignorou completamente o conselho do amigo e foi explorar o bairro assim mesmo.
De fato, era uma época estranha. Havia crianças vestidas com roupas esquisitas, pedindo comida de porta em porta. Será que estavam passando fome?
– Doces ou travessuras! – Era algum tipo de código para conseguir comida, concluiu Olga. Assim que as crianças viraram a esquina, Olga saltou do telhado para o muro e depois pousou graciosamente no chão da calçada.
A rua toda estava decorada com bonequinhos esquisitos. Encarou o jardim em frente repleto de luzes bruxuleantes. De alguma forma, aquilo tudo só a deixava mais curiosa. O que era aquele tal de Halloween?
– Ei, me esperem! – Uma vozinha gritou atrás de Olga, que congelou. Havia mais um deles, uma garota que tentava correr mesmo vestindo algo grande demais para ela.
O sangue fluiu mais rápido, e Olga buscou uma rota de fuga. O muro de onde viera estava longe demais. Ela teria que passar pela menina. Com alguma sorte, a escuridão a encobriria.
– Ah. Um gatinho!
Olga arregalou seus grandes olhos azuis, pronta para lutar se fosse preciso.
– Não precisa ter medo. – Ela se abaixou, e Olga pode vê-la melhor. Era uma garota de pele escura, o rosto emoldurado por cachos negros. Um chapéu pontudo adornava o topo da cabeça.
Olga queria fugir, mas algo naqueles olhos a fez hesitar. Eram olhos de alguém que prometia algo a ela. Mas o que poderia ser?
Um barulho atrás da garota a fez desviar o olhar e Olga, libertando-se daquele terrível momento de hesitação, correu o mais rápido que podia.
***
– Eu disse para você não sair! – O olhar intenso de Marlow sinalizava raiva. – Como pode ser tão teimosa?
Marlow tomara posse do quintal abandonado de uma casa antiga, que há muito não era frequentada por ninguém, além de insetos e ratos. Havia um telhado que cobria metade do quintal, enquanto a outra era ocupada por um matagal sem fim.
– Me desculpe… – Olga foi sincera e contou-lhe tudo o que aconteceu, embora isso não tenha servido para acalmar sua fúria.
– Você poderia ter… – Ele se aconchegou em Olga, o pelo branquinho contrastando com o dela, como fogo e água. – Estou feliz que você está segura.
– Não vou fazer isso novamente. Até o Halloween passar, não vou mais sair daqui.
Sim, ela aprendera a lição. Mas não pode cumprir essa promessa.
***
Os dias se passaram, com uma rotina bem estabelecida: Marlow saía à noite para buscar comida e eles passavam o dia brincando no mato, tentando pegar borboletas e dormindo enroladinhos.
Até o dia que Marlow não voltou. Olga aguardou pacientemente, mas, embora o sol tenha nascido e subido no céu, não havia sinal do gato branco. Quando anoiteceu, ela estava tão preocupada que foi impossível manter a promessa.
Olga esgueirou-se por entre os tijolos antigos da casa abandonada, e mirou uma coluna. Com um salto, ela apoiou-se no muro estreito, habilidade conquistada após pagar o preço de muitas quedas no passado.
Marlow costumava buscar comida no bairro e nunca ia longe demais. Lembrou-se da senhorinha que lhe dera frango no outro dia. Talvez ele tivesse tentado a sorte novamente.
Olga caminhou por entre as sombras, sentindo a ansiedade aumentar a cada passo, a cada viela silenciosa que cruzava.
A casa da velha senhora estava escura e nem sinal de Marlow por lá.
Olga não desistiu. Continuou procurando o amigo que a ajudara desde que se lembrava. Visitou seus lugares favoritos, as ruas estreitas de pedra por onde costumava andar; os telhados antigos, onde por vezes brigava por território…
Mas Olga não viu sinal de Marlow.
No caminho de volta, porém, um ruído e um vulto esbranquiçado fez a esperança renascer em seu coração.
– Marlow? – ela miou, correndo em direção ao ruído.
Era um beco. E, no fundo, Olga o viu.
– Ei, gatinha.
– Onde você estava?
Olga deu mais alguns passos em direção a ele e depois parou, fitando-o como se pela primeira vez.
– Já deixei a comida em casa. É a última vez que eu poderei te ajudar… – Havia um quê de resignação em sua voz.
– Não entendo… Você não vai voltar para casa?
– Sabe, Olga. Tem uma coisa que eu só percebi depois que ignorou meu pedido para permanecer em casa.
– Isso é algum tipo de vingança? Você vai me abandonar?
– É claro que não, gatinha. – Marlow se aproximou. Seu pelo brilhava, como se refletisse o brilho da lua.
Mas não havia lua naquela noite.
– Eu a protegi desde que nasceu, embora, na verdade, eu tenha nascido com você. Nasci no momento em que sua mãe desejou que seus filhotes sobrevivessem e fossem felizes. Eu… Pensava que era um gato comum, mas não tinha memórias de antes de ver você, uma pequena filhote sozinha no mundo. Só percebi quem eu realmente era quando você saiu de casa e encontrou aquela garota. Senti tanta raiva! Parecia que ela me roubaria de você.
Ele olhou para baixo, parecendo um pouco envergonhado.
– Mas foi para aquele momento que eu a protegi durante todo esse tempo. Você precisa encontrá-la, Olga. Eu não poderei mais permanecer com você. – Seu corpo tremulou, como uma miragem.
Olga arregalou seus olhinhos azuis.
– Você… Não é real?
– Eu sou real. – Seus olhos verdes brilharam. – Sou um gato da sorte, um espírito felino que traz prosperidade e boa sorte. Mas está na hora de eu ir, Olga. Já cumpri meu papel. Tem só mais uma coisa que eu posso fazer por você.
Ele chegou bem pertinho dela e acenou, fazendo aparecer uma moedinha dourada, que depositou no alto da cabeça de Olga. A moedinha sumiu assim que tocou seu pelo preto.
– Isso a protegerá por hoje e a ajudará a encontrar o caminho até ela.
– N-não! Marlow!
Ele acenou novamente e desapareceu.
– Não me abandone… – Olga sentiu a perda como um aperto dolorido no peito.
Algo foi tirado dela para sempre, mas ela já não estava tão certa do que era. Não se lembrava mais por que tinha saído de seu abrigo. Era para procurar…
– O que era mesmo?
Olga deixou o beco, seus passos guiando-a, por algum tipo de instinto, até uma rua cheia de enfeites engraçados.
– Ah, o Halloween! – Alguém tinha lhe contado sobre isso. Quem era mesmo?
Andou até parar em uma casinha bonita, com muitas flores no jardim. Parou na porta da casa e hesitou.
Antes que pudesse pensar no porquê estava parada diante de uma casa desconhecida, a porta se abriu.
A garotinha que vira dias atrás arregalou os olhos negros para ela e sorriu.
– Eu sabia! Sonhei com você todos esses dias.
– Filha? Tem alguém na porta? – Uma voz veio do fundo da casa. Um cheiro delicioso de aconchego invadiu as narinas da gata. A casa emitia amor e felicidade.
– É a Olga, mamãe. Podemos ficar com ela, né? Eu disse que ela viria.
Depois de alguns segundos, a mãe saiu pela porta. Como a filha, tinha pele cor de chocolate e um abriu um sorriso enorme ao vê-la.
– Que gracinha! – E pegou Olga no colo, correndo as mãos pela pelagem macia e lustrosa da gata.
– Então vamos ficar com ela, mamãe?
– Eu estava mesmo pensando em adotar um gatinho.
– Eba!
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