– A gente já chegou? – disse Joana, ofegante.

– Tinha que ser a nerd sedendária. – João murmurou, só para ela ouvir.

– Cala a boca, a minha mochila está muito mais pesada que a sua.

– Não fiquem para trás, crianças! – A voz da mãe ressoou bem à frente na trilha.

– Você está indo muito rápido. – O pai seguia perto das crianças, a pele da testa brilhando de suor.

– Estamos quase lá! A vista é incrível!

Deixaram a caminhonete de cabine dupla no sopé da montanha e tiveram que entrar na trilha a pé. Fariam o acampamento no alto da montanha.

– No próximo feriado, vamos para um resort… – Murmurou o pai.

A trilha era relativamente estreita, suficiente para três pessoas andarem lado a lado. As crianças seguiam o pai, enquanto a mãe, dotada de uma energia sem fim, chamava-os lá da frente.

Era fim de outubro e os pais aproveitaram a emenda de feriado de Finados para acampar.

– A gente está estudando a Mata Atlântica na escola.

– Nerd.

– Você não cansa de ser chato, não, ô cabeça de vento?

– Parem com isso, já! – O pai reuniu forças para chamar atenção dos gêmeos que, desde que se entendem por gente, brigam como dois galos no galinheiro.

– Sua irmã está certa. – Ofegou o pai, quando estavam no topo da montanha. – Isso aqui é Mata Atlântica.

A montanha se erguia, imponente, sobre o vale coberto de vegetação verde. Hora aves cantavam, hora insetos zumbiam. Na floresta, o silêncio não tinha vez.

– É mesmo muito bonito, mas quando a gente vai sentar? – João resmungou.

***

Uma hora depois, o acampamento estava montado e uma bela fogueira ardia nas proximidades. O cheiro de milho assado fez as lombrigas das crianças se revirarem.

– Já tá pronto? Tô com fome! – João correu para pegar um dos espetos com uma espiga de milho.

– Cuidado, está quente. – avisou a mãe.

– Ai!

– Bem feito, quem mandou ser afobado. – provocou Joana.

João, carrancudo, foi sentar-se em um canto, soprando cuidadosamente seu espeto.

Depois do jantar, a escuridão rapidamente caiu sobre eles, e os cantos das aves foram substituídas por ruídos de insetos, pelo croachar de anfíbios e o som misterioso do vento.

– Era uma vez, duas crianças muito travessas… Elas viviam pregando peças, mentindo e causando confusão… Até que…

– Pai, nós não somos mais crianças! Não temos medo de histórias de terror.

– Não são apenas histórias! Estou falando a pura verdade. – O pai pigarreou, e sussurrou. – Eu posso confirmar, pois já os vi pessoalmente. Monstros da floresta, que podem tomar mais de mil formas! Eles se escondem nas sombras e, quando menos se espera… Levam crianças desobedientes! Quando alguém é pego por um Tutu, não sobram nem ossos para contar a história.

– N-não está falando sério. – Joana falou, desconfiada.

– Minha querida, estamos absolutamente sérios! – A mãe interviu. – Depois que terminarem de comer, ajudem a arrumar os colchões. Vamos dormir cedo hoje, temos muito para aproveitar amanhã! Além do mais, o Tutu leva quem não dorme de noite!

– Está bem, mamãe. – disseram os gêmeos em uníssono.

***

Poti-ra era uma criança diferente. Na família dos Tutus, todo mundo gostava do escuro, menos Poti-ra. Era só o sol se pôr e a floresta escurecer, que ela começava a chorar.

– Como pode uma Tutu ter medo do escuro? – Sua família se preocupava e com razão. – Poti, nós somos a sombra.

Mas a criança Tutu não entendia. Estar na sombra era solitário, assustador e a fazia ficar um pouco desesperada.

Era por isso que, quando viu uma luzinha brilhar no topo de uma montanha, ela não se aguentou de curiosidade. Tomou a forma de uma coruja e voou até lá. A fogueira estava acesa, mas não havia ninguém em volta dela. Poti sabia que os humanos podiam ser perigosos, mas a curiosidade falou mais alto.

Desfez a forma de coruja, e assumiu a forma de uma criança humana. Depois, sentou-se pertinho da fogueira, sentindo seu calor aconchegante. Queria ficar ali até a chama se esvair, pois ela era quente e segura. Não dava medo, como as sombras que a acompanharam desde sempre.

– Mãe, tem pernilongo aqui. – João colocou a cabeça para fora da sua barraca, os olhos meio sonolentos e o cabelo todo bagunçado.

Poti se atrapalhou, ao ouvir a voz e quase tropeçou e caiu na fogueira.

– Que barulho é esse? – Outra voz, dessa vez mais alerta. Era Joana, que avistou Poti se atrapalhando em volta da fogueira.

Assim que a viu, correu até ela.

– Ei, quem é você?

Poti-ra queria correr, queria virar coruja e voar para longe dali. Mas, se fizesse isso, poderia trazer perigo para sua família. Os humanos não eram aqueles que destruíam florestas, matavam animais por diversão e poluíam tudo o que pisavam? Era melhor não assustá-los.

– E-eu… – Ela se atrapalhou com as palavras. – Poti-ra é meu nome. Eu já estou indo embora. Por favor, não falem para ninguém… Sobre mim. – Ela olhou para a barraca dos adultos, que estava silenciosa. Ou eles tinham sono pesado ou não se importavam tanto com invasores no meio da noite.

– Só se você nos disser de onde você veio. – João cruzou os braços. A essa altura, já estava bem acordado, reparando na estranheza da cena toda. Uma garota indígena de pele escura, cabelos lisos negros como o breu e olhos tão profundos que dava para mergulhar neles. Ele nunca tinha visto olhos tão pretos. Eram sempre um pouco castanhos, mas pretos daquele jeito…

Um arrepio percorreu sua espinha.

– V-você não veio nos pegar por não dormir, né?

– O que está dizendo, João? – Joana olhou atentamente para a menina Poti. – Você acha que ela é um Tutu?

Poti arregalou os olhos escuros e engoliu em seco.

– E-eu? – Ela riu, nervosamente.

– Mas ela não parece nada perigosa! – disse Joana, observando a expressão de medo de Poti. Sentindo-se encurralada, Poti rosnou.

– Eu tenho pais, sabia? Eles acabariam com vocês se fizessem algo comigo!

– Não falei? Ela é mesmo um monstro! – Mas João, em vez de sentir medo, queria saber mais sobre aquela estranha menina.

– Para trás, ou eu vou…

– Relaxa, deu para perceber que você não é má pessoa. – Joana se aproximou.

– É. Mas, o que você estava fazendo por aqui? – João, pela primeira vez desde que nasceram, concordou com Joana e estendeu a mão para a Poti.

– Eu… Só estava curiosa. Luzes são bonitas.

– Para uma Tutu, você é meio esquisita, né?

– Cala a boca, João! Vem, vamos ser amigos!

Lágrimas inundaram os olhos negros de Poti e ela chorou. De alívio? De medo? Ela mesma não sabia.

***

A amizade do trio floresceu naquela noite, embora Poti tenha se despedido antes dos pais das crianças acordarem. Sempre que podiam, naqueles dias de acampamento, Poti aparecia, sorrateira, e levava os gêmeos para passear.

Os pais fingiam não ver, mas era exatamente por isso que tinham vindo. Haviam feito uma amizade parecida, muitos verões atrás, quando ainda eram adolescentes. Sabiam que a família Tutu vivia por ali. E acharam que estava na hora de dar um banho de natureza nas suas crianças da cidade. Por isso, mandaram uma carta para os Tutu, que, prontamente, permitiram sua visita.

– A água do rio é fria… – disse João.

– Mas você só reclama, hein? Parece o tio Tonho.

– Minha família costumava falar que a maioria dos humanos é perigosa, mas eu acho que é só porque eles ainda não conhecem a beleza da natureza. – Poti sorriu. – Será que vocês podem ensinar aos outros sobre isso?

– Bem, nós podemos tentar!

– Na escola a gente discute preservação ambiental. – Joana se lembrou das aulas de ciências.

– O que é escola? – perguntou Poti.

– Um lugar onde a gente vai aprender várias coisas! Fazer contas, como funcionam geladeiras e também…

– Futebol! – interrompeu João.

– Escola é mais do que Educação Física, seu bocó.

– Nerd!

– Parem com isso… – Poti ficou tão irritada, que o ar ao redor dela começou a escurecer.

– T-tá bom! – Responderam os dois, em uníssono.

Poti sorriu.

Quando chegou a hora de ir embora, Poti se sentiu meio solitária. Não era o mesmo com os outros Tutus.

– Vocês vão voltar, né? – Fez um biquinho, tentando impedir o choro.

– É claro que vamos! É uma promessa, Poti!

Os gêmeos visitaram Poti por vários anos, passando as férias na floresta. Nunca contaram para ninguém sobre sua amiga mágica e misteriosa.

No ensino médio, com a correria dos vestibulares, eles acabaram se distanciando. Passaram vários anos e eles se formaram, entraram na faculdade e se formaram na faculdade também. Qual foi a surpresa deles quando, um belo dia, todos os canais de TV pararam todas as programações para anunciar a existência dos seres mágicos.

Esse dia ficou conhecido como “A Revelação”. Vampiros, espíritos de todos os tipos, monstros de toda estirpe. Todos eles eram reais. João e Joana já sabiam disso, é claro. O que os surpreendeu verdadeiramente foi quando o Senhor dos Monstros, líder da organização que comandava todos os seres mágicos brasileiros, o Boto-cor-de-rosa, apareceu na TV com sua segurança Tutu.

Uma linda mulher de cabelos tão escuros que fazia o terno branco do Boto parecer iluminado. Vestia preto dos pés à cabeça, exalando poder e confiança. Por mais inacreditável que pudesse parecer, os gêmeos reconheceram sua amiga da floresta.

Era Poti-ra, chefe da guarda do Boto.


Você chegou ao fim do livro. Parabéns!