Contos de Europa
3 Brisa
Notas iniciais
A Floresta era o último lugar em que eu gostaria de encontrar alguém. Ainda mais alguém que podia se decompor em sombras como Cássio. Depois de arrastá-lo e apoiar sua cabeça nas raízes de uma árvore, confiscar suas armas, colher algumas frutas e agradecer ao Sol por sua proteção, Cássio acordou. Conversamos, fizemos perguntas um ao outro e lutamos com um Ghoul. Algo totalmente normal quando se conhece uma pessoa nova.
Eu fiquei muito agradecida por ele não ter fugido e me deixado ali para morrer. Eu não precisaria nem ser devorada. Apenas uma simples mordida e meu corpo entraria praticamente em combustão interna, por conta de tantas infelicidades que a besta levava em seu sangue, em sua saliva, em seu hálito. Minha luz me protegeria, mas mantê-la custaria muita energia. Não sei nem como consegui caçar depois de tudo, considerando o cansaço que havia se apoderado de meu corpo.
Fugir de Solis e ser morta dois dias depois não estava na minha lista de afazeres. Cássio foi muito piedoso, mas isso não me fez gostar muito dele. Ele me assustava com seu visual escuro e misterioso. Era muito pálido, muito alto, magro, porém com músculos definidos, seus olhos eram azuis escuros e ele tinha um sinal preto e pequeno no lado direito do queixo. Seus cabelos eram tão escuros que, dependendo da luminosidade, tornavam-se azuis. Eram bagunçados e havia uma mechinha rebelde que apontava para cima, bem no topo. Suas roupas também eram escuras: Camisa preta, um pouco aberta que mostrava seu peitoral, calça jeans azul escura, botas de caçada marrons e sobretudo também azul escuro. Sua habilidade de se dissolver nas sombras também não ajudava. Eu tinha a sensação de que a qualquer momento ele apareceria em meio à escuridão e me mataria com suas facas.
Contudo, o abrigo que eu havia escolhido estava acabado o suficiente para dizerem que uma vida ali seria impossível, e isso era bom para despistar possíveis — mas não muito prováveis — assassinos. Era um prédio dos tempos de antes da Grande Guerra. Tinha três andares e estava realmente caindo aos pedaços. Grades estavam semi-soltas, árvores entravam pelas janelas, raízes destruíam o piso e punham em risco todo o resto da estrutura do lugar. Por dentro, não estava nada melhor. As escadas e o teto ameaçavam cair a qualquer momento, a pintura descascava e tudo tinha cheiro de mofo. Mas, para mim, o lugar era perfeito.
Escalei a parte de fora do prédio até o último andar, que era o que parecia mais estável. Chegando lá, haviam muitos móveis de madeira, o que era bom. Peguei as ferramentas que estavam na bolsa que eu havia trazido — precaver é sempre ótimo — e comecei a trabalhar. Em menos de duas horas eu havia construído uma base resistente na sala — usando as madeiras dos móveis — e pregado-a nas paredes. Caso o chão do terceiro andar resolvesse desabar, eu estaria segura.
Joguei minha bolsa em um canto e a caça que Cássio havia me dado em outro, então saí para procurar mais frutas. Encontrei macieiras, goiabeiras e parreiras, todas geneticamente modificadas, mas que não trariam perigo nenhum à minha saúde. Colhi algumas e voltei para meu abrigo. No caminho encontrei uma flor em um vaso pequeno e meio quebrado. Achei que daria uma boa decoração e a levei junto. Chegando lá, tentei colocar a flor em um lugar decente: perto da varanda, em um canto da salinha... Por fim, não gostei e joguei-a pela varanda. A minha surpresa foi quando ouvi uma voz conhecida:
– Ai! — corri para a varanda e vi Cássio logo abaixo. Ele esfregava o lado esquerdo da testa, onde um pequeno galo começava a se formar.
– Desculpe. — falei — Pode se afastar um pouco? Não quero cair em cima de você.
Cássio deu alguns passos para trás, ainda esfregando a testa, e eu pulei sobre a grade da varanda, aterrissando com um baque surdo a mais ou menos um metro de distância de Cássio.
– Impressionante. — ele falou enquanto batia palmas — Mas pensei que tínhamos concordado em não nos matar.
– E concordamos. — assenti — Foi acidente. Desculpe.
Ele fez uma careta para mim e sorriu. Francamente, o sorriso era bonito, então sorri também.
– Você quer que eu te ajude com isso aí? — apontei para o galo.
Cássio fez que sim com a cabeça, então afastei a mão dele e coloquei a minha no lugar. Pensei em coisas boas: no calor do sol, no abraço de minha mãe, no sorriso de meu pai... Rapidamente senti o galo diminuindo, o sangue voltando e os vasos sanguíneos se regenerando. Quando acabei, tirei a mão da testa de Cássio e deixei-o sentir o machucado que não existia mais.
– O que você fez? — ele apalpou a própria testa e depois deu uns soquinhos na mesma.
– Apolo também é o deus da cura. — respondi. Como ele continuava me olhando admirado, eu puxei conversa — Que está fazendo aqui?
– Vim pegar algumas frutas... E aproveitei e trouxe meu irmão mais novo para passear.
Não acreditei. Depois de um ataque do ghoul, Cássio ainda tinha coragem para trazer o irmão mais novo para dentro da Floresta.
– Você está louco? Quantos anos seu irmão tem? — perguntei no momento em que empurrava seu braço esquerdo.
– Tem oito anos. E, não, não estou louco. Sei dos perigos da Floresta. Ele está seguro comigo. — respondeu erguendo uma sobrancelha.
– Ah, é? Então, onde ele está? — perguntei, fazendo um gesto com a mão indicando o lugar em que nos encontrávamos.
A sobrancelha de Cássio desceu e ele exibiu no rosto uma expressão de profunda preocupação. Antes que eu percebesse ele já havia se dissolvido nas sombras. Eu ouvia apenas sua voz:
– Thomas! Onde você está! Thomas! Apareça, por favor!
Corri, seguindo o som da voz. Fiquei tão preocupada que, quando me dei conta, já estava chamando pelo garoto também:
– Thomas! Eu não vou te machucar! Apareça!
Cássio continuava gritando, chamando pelo irmão. Eu não conseguia enxergá-lo, mas sabia que ele estava ficando cansado por conta de sua respiração ofegante. Por fim, ele se calou e, no ambiente em que estávamos, estava escuro. O lugar era aterrorizante. As árvores eram enormes, assim como suas folhas que cobriam todo e qualquer raio de Sol que pretendesse passar. Pelos cantos, perto de várias árvores, haviam armas e bombas nucleares. Elas estavam num estado parecido com o Stand-by, mas bastaria um toque de uma mão para que se ativassem, e depois que uma bomba daquelas fosse ativada, não teríamos mais do que cinco ou sete minutos para sairmos do local. Caso contrário, nossa morte seria instantânea.
O medo se apoderava de mim. Pude sentir a adrenalina e seus efeitos fazendo minha luz aumentar lentamente. Mas eu precisava de uma proteção rápida, então concentrei-me em mim mesma e em minha segurança. Pensei em como seria bom continuar viva, e fiz um gesto: estiquei os braços e pus minhas mãos em minha frente. Fiz o sinal do número sete — os sete raios do símbolo de Solis — e abri os braços, espalhando minha luz. Ouvi um gemido e vi Cássio. Ele estava parado em um canto, visivelmente cansado e ofegante. Eu também não estava melhor. Me aproximei, mas parei quando ouvi um barulho de queda.
– Cass! — uma voz de criança gritou — Cass!!
Assim que ouviu a voz, Cássio correu para o local de onde ela vinha. Eu o acompanhei. Deitado em uma pilha de galhos secos estava um garotinho bochechudo. Ao contrário do irmão ele era moreno e tinha cabelos castanhos. Era gordinho, e assim que o vi tive vontade de apertá-lo.
– Thomas! Que susto! Como você veio parar aqui? — falou Cássio ainda bastante ofegante.
– Eu queria ser um explorador! Ia abater muitos animas com o meu ioiô! — disse o pequeno garotinho enquanto levantava e brandia o ioiô de um lado para o outro.
Ele usava roupas leves: uma bermudinha preta, uma camiseta vermelha e botas. Estava suado, mas não parecia cansado, e olhava para mim com desconfiança.
– Ahn... Eu sou a Brisa... — me apresentei antes que Thomas jogasse aquele ioiô em mim.
– Ela está comigo, Thomas. Me ajudou a procurar você. — falou Cássio.
– Ela me fez cair da árvore usando aquela luz sinistra! — acusou-me o garotinho.
– Desculpe, não foi minha intenção. Eu só estava... com medo. — confessei.
Cássio me olhou com um sorriso zombeteiro nos lábios.
– Medo do escuro, Brisa?
– Sim. — respondi — Aliás, foi graças à luz que achamos o Thomas.
O sorriso de Cássio se desfez e ele murmurou um "é verdade". O irmão dele achou muito engraçado o fato de eu tê-lo feito se calar, e soltou uma risadinha tímida.
– Bom... Vamos indo? — falei — Eu tenho algumas frutas lá no meu abrigo...
– Você tem uvas? Eu gosto de uvas. — disse Thomas.
– Tenho uvas, sim. Vamos lá.
Então começamos a fazer o caminho de volta. Como qualquer outra criança da idade dele, Thomas era falante, hiperativo e perguntador. Fazia perguntas sobre as árvores, sobre a minha luz, sobre mim. Chegou até a perguntar se Cássio e eu éramos namorados. Pergunta a qual respondemos com um sonoro "não".
Mesmo depois disso, Thomas continuou falando. Cássio e eu nos revezávamos nas respostas, que às vezes chegavam a um ponto que nós não sabíamos como responder. O menininho era curioso e gostava de aprender, e conversar com ele me dava muita vontade de sair por aí perguntando sobre tudo.
Quando chegamos em uma encruzilhada a qual um dos caminhos levava ao meu abrigo, vi uma folha de papel em um antigo poste. Me aproximei e prendi a respiração quando percebi o que tinha na folha.
– Não pode ser... — murmurei. Então arranquei-a do poste antes que os garotos a vissem e a guardei no bolso de minha saia.
– Brisa...? — Cássio falou — Brisa, o que foi?
– N-nada. Eu só... Estou um pouco cansada. Acho... acho que seria melhor se vocês fossem para casa. Lá está tudo bagunçado e... E acabei de lembrar que comi todas as uvas no almoço.
Essa foi a melhor desculpa que eu pude inventar, mas Cássio pareceu não acreditar. Sendo assim, transmiti uma emoção para ele através do E-View: eu falava para ele, por favor, ir embora, pois eu precisava ficar sozinha. Ele entendeu.
– Thomas, dê adeus à Brisa. Nós já vamos. — anunciou.
– Ah... Mas já? — Thomas fez cara de triste, e então me abraçou. O gesto me pegou de surpresa, mas eu gostei e o abracei ainda mais forte — Tchau, Brisa. Gostei de você.
– Ah... Obrigada, garoto. — falei enquanto apertava sua bochecha — Tchau, Cássio.
– Tchau, Brisa. Obrigado mesmo pela ajuda. — disse.
Seguimos nossos caminhos. Quando me assegurei de que não havia ninguém que pudesse ver, tirei o papel do bolso e o desamassei.
– Ah, não... — murmurei.
No papel estava escrito "Você Viu Essa Pessoa?" com letras enormes, e abaixo disso tinha uma foto minha. Eu usava uma roupa cinza e tinha os cabelos presos em um coque. Com certeza eu não estava feliz.
Segui para o prédio. Quando cheguei, escalei sua parede e entrei no abrigo. Lá, depois de muito conversar comigo mesma a respeito do que fazer, dormi.
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