Eu estava em um antigo templo grego. Era bonito com colunas coríntias, cheias de detalhes, e seu teto era levemente curvo. Seu friso era de mármore e nele haviam cenas de batalhas entre Gregos e Amazonas, e dos Lápitas contra os Centauros. O resto da construção era inteiramente em calcário cinza. Era um templo pequeno e modesto, sem deixar de ser belo. Parecia ter sido restaurado e limpo recentemente, pois cada coluna brilhava com a luz do Sol. Eu estava no Naos daquele templo, e no centro do lugar, bastante iluminada pelo Sol, estava uma estátua de mármore de um deus. Ele tinha o rosto sereno e bonito, o cabelo era cacheado e ele estava nu, apenas levando uma manta em seus ombros e calçando sandálias. Segurava uma lira em uma das mãos e um arco na outra, e em suas costas estava pendurada uma aljava com flechas. Ajoelhei-me assim que me dei conta de era Apolo, o deus o qual eu devia extremo respeito e admiração.

– É uma honra, meu senhor. — falei em tom calmo.

Me assustei assim que ouvi alguém responder.

– Obrigado, Brisa. Mas, agora, deixemos as formalidades um pouco de lado, sim? — sua voz era melodiosa, como se brincasse e cantasse cada palavra. Lembrei da voz de meu pai. Ela era parecida, mas um pouco mais áspera.

Ergui os olhos e vi um homem alto, forte e belo sair de trás da estátua. Ele era loiro e tinha os mais belos olhos dourados que eu já havia visto, cheios de bondade e ternura, seu nariz era pequeno e seus lábios, finos. Seu rosto era quadrado e sua pele tinha um bronzeado discreto. Ele vestia uma calça jeans desbotada e uma camisa branca e leve, com mangas, e usava sandálias parecidas com as da estátua. Ele emanava uma luz, como a minha, mas ela era mais amistosa, mais afetuosa, trazia um calor agradável a meu corpo e me deixava descansada e feliz.

Só me dei conta de que estava sorrindo quando o homem chamou minha atenção.

– Ora... É a luz? — falou e riu um pouco em seguida — Ela faz isso com as pessoas, às vezes. Mas você não vem aqui para dar um abraço em seu "padrinho"? — ele fez o sinal de aspas com as mãos e depois abriu os braços, carinhosamente.

Corri até seus braços e dei-lhe um abraço apertado. Senti a felicidade gerada por sua luz aumentando, o corpo relaxando, as preocupações se esvaindo. Eu sabia quem era aquele homem. Nunca o havia visto, mas eu sabia, então falei.

– Olá, Apolo.

Ele riu novamente e me abraçou ainda mais forte. Acariciou meus cabelos e deu-me um beijo na testa, exatamente como meu pai fazia. Eu deveria ter ficado triste com essa lembrança, mas a luz não permitia. Permaneci abraçada ao deus por um bom tempo, até que ele iniciou a conversa.

– Que bom que me reconheceu, minha filha. Ah, desculpe, posso chamá-la de filha? Eu sei que você sabe que os deuses não têm filhos, mas, mesmo assim, posso? — fiz que sim com a cabeça e ele continuou — Essa é a primeira vez que me comunico com algum mortal em muitos anos, assim como você é a primeira pessoa a quem eu concedo minha bênção. Desculpe se isso causou sofrimento a você. Não queria que os Canalizadores a fizessem de cobaia.

– Não peça desculpas. — respondi — Do jeito que as coisas andavam e andam, eles teriam me usado, sendo eu uma escolhida ou não.

A resposta saiu de minha boca com tamanha calma que quase não senti a raiva que tinha sempre que pensava ou falava nos Canalizadores. Eu havia sido cobaia deles por longos cinco anos, até fugir. Mas os resquícios das experiencias continuavam em mim, e provavelmente não sairiam nunca mais.

– Certo... — Apolo disse e passou a mão direita em meu cabelo — Que tal se nos sentássemos? — ele apontou a base da estátua. Fomos até lá e sentamos, um ao lado do outro — Fiquei feliz quando soube que você tinha fugido. Eu teria te ajudado, se pudesse, mas as malditas leis me impedem. Não sabe como me entristecia vê-la daquele jeito.

Ele passou o dorso da mão esquerda em meu rosto e murmurou um "Perdoe-me, filha". Aquela visão fez com que eu lacrimejasse, e acariciei sua mão. Naquele momento eu entendi o porquê de dizerem que os deuses eram "humanamente sensíveis". Eles sentiam o mesmo que nós. Sofriam, ficavam alegres, preocupavam-se. As únicas diferenças para com os humanos eram a sua imortalidade e seus poderes. Apenas isso.

– Não precisa se martirizar por isso..., pai. — disse eu e pude ver um sorriso formar-se no rosto do deus ao ouvir a tão esperada palavra — Mas, por que está aqui? Aconteceu alguma coisa? Tem algo que eu possa fazer?

– Não tem nada acontecendo comigo, minha querida, mas com você, sim. Eu sei que você viu isso. — Apolo abriu a mão e, após uma luz fraca, um papel enrolado apareceu. Ele o pegou e o desenrolou. Era o mesmo papel que eu havia achado na Floresta.

– Sim, eu vi. — murmurei — Mas o que devo fazer? Continuar fugindo sozinha? Eles com certeza já colocaram Rastreadores no meu encalço. E matar um deles não é fácil.

Rastreadores. Assim eram chamados as pessoas que tinham o DNA modificado com veneno de Ghoul. A maioria era quem não tinha família ou que havia sido decepcionada pela vida, de alguma forma. Eles iam de encontro aos Canalizadores com a esperança de serem pessoas melhores, de bem com a vida. Mas, em vez disso, eram enganados e brutalmente torturados todas as noites pelo veneno que lhes era injetado, sofrendo pesadelos, alucinações e visões das partes mais horrendas de suas vidas. Ficavam assim até o ódio e a tristeza tomarem conta de seu coração e sua mente e, finalmente, virarem Rastreadores. Criados para caçar, procurar, achar e, às vezes, matar quem lhes era dito. Uma triste e horrenda vida.

Apolo concordou com o que eu havia dito, mas expôs seus pensamentos.

– Brisa, desde o começo você estava destinada a isso. Não é segredo em lugar nenhum que você provavelmente seria a nova Imperatriz de Europa. Mas os Canalizadores reduziram bastante as suas chances. Você sabe que eles não são bem vistos. Fugir foi, na minha opinião, a melhor solução. É como se você dissesse que pode cuidar de si própria, que é uma guerreira, o que de fato você é. O único ponto errado foi que, ao fugir, você não escreveu a ninguém dizendo se ainda se candidataria ou não. Isso gerou impressões erradas. Eles acham que você fugiu, também, do dever. Por isso estão te caçando.

– Mas eu não quero ser Imperatriz! — gritei, enquanto sentia toda a paz que vinha da luz se esvaindo — Não quero isso para mim! Já vivi em uma prisão por boa parte da minha vida, pai, e não quero mais isso! Quero minha liberdade! Ahaê!

Eu nunca havia utilizado o Aeorien antes, tanto porque não era permitido quanto porque não sabia que era capaz. Mas assim que falei aquela pequena palavra, senti o chão tremer, como se o templo quisesse sair do lugar e bater em retirada. Percebi o mal estar subindo até minha garganta, a cabeça doer e caí no chão enquanto sentia um gosto metálico na boca. Falar aquela língua era mais perigoso do que parecia.

Olhei para o lado e vi Apolo sentado na base da estátua, com os olhos semicerrados e parado como se nada estivesse acontecendo. Eu o ouvi quando ele proferiu algumas palavras de sua língua materna.

– Eimaa. — repentinamente, assim como havia começado, o chão parou de tremer. O deus andou até minha direção e, ciente de que eu ainda estava mal e não conseguia me levantar, segurou-me em seus braços e me deitou na base da estátua. — Pelo visto você conseguiu proferir uma palavra do Aeorien, mocinha. Você é muito inteligente. Cuidado com a intensidade que as profere. O vocabulário dos deuses pode ser perigoso.

Apolo beijou minha testa e falou uma palavra em meu ouvido com sua voz melodiosa. "Mahiá". De início não entendi, mas depois percebi que significava "curar". Senti a náusea, a dor de cabeça e a tontura indo embora lentamente, contudo, ainda não conseguia falar.

– Brisa, — ele continuou seu discurso que havia sido interrompido — me escute, por favor. Você vai fugir, sim. Mas só por enquanto, para que eles não te matem. Eu quero que você assuma o poder em Europa, que seja boa com as pessoas, que desfaça as injustiças daqui, que bana de uma vez por todas esses Canalizadores que tanto te fizeram sofrer e que ache uma cura para os Rastreadores. Sei que é demais, sei que você não gostaria. Mas não pense apenas em si própria. Pense nas pessoas que você ajudaria, pense em como seu pai ficaria, pense nos deuses, pense em mim.

Aquele discurso me tocou. Imaginei todo o bem que eu poderia fazer para todos, o orgulho que todos sentiriam de mim, especialmente o meu pai, que eu não via desde que virei cobaia. Porém o que me agradou mais foi a possibilidade de banir os Canalizadores. Apolo realmente sabia como vender seu peixe, e o olhar pidão dele não deixava nada a desejar.

Me sentei, fiquei frente a frente com ele e fiz algo que surpreendeu a mim mesma. Ainda com a voz fraca por causa do uso da língua mística, eu disse "sim". Logo vi um sorriso se formar nos lábios finos do deus.

– Obrigado, Brisa. Você vai ajudar muita gente, eu tenho certeza. Quanto à fuga, aconselho você a não ir sozinha. Vai precisar de ajuda, provavelmente.

Apolo se levantou, porém eu o segurei pela mão. Minha voz já estava normal, então disse:

– Que ajuda? Quem... — então caiu a ficha — Cássio.

O deus apenas olhou para mim, sorriu e falou:

– Você é realmente muito inteligente, minha filha.

Então tudo, o templo, Apolo, até mesmo eu, se dissolveu e eu abri os olhos, desperta e determinada a encontrar o escolhido de Plutão, Cássio, e partir junto a ele para conseguir meu título de Imperatriz.

Notas finais
Olá, gente! Estão curtindo? Bom, aqui vai o glossário. - Colunas coríntias: um dos três tipos de colunas gregas. Eram caracterizadas por seu capitel que possuía muitos ornamentos. - Amazonas: mulheres integrantes de uma antiga nação de guerreiras da mitologia grega. - Lápitas: antigo povo da Tessália. - Centauros: criaturas meio homens, meio cavalos. - Naos: espaço do templo que era reservado à estátua da divindade. - Aeorien: língua falada pelos deuses. As palavras dessa língua possuem extremo poder e mortais comuns não são capazes de usá-las, apenas deuses e escolhidos. A palavra em si é usada como sinal de paz entre os escolhidos. Também é o nome de uma das cidades de Europa. - Ahaê: do Aeorien, significa "liberdade". - Eimaa: do Aeorien, significa "calma". - Mahiá: do Aeorien, significa "curar". - Solis: cidade de Brisa. Fica ao leste da Floresta de Frígia. Não é uma cidade muito bem vista, pois abriga muitos canalizadores. Já foi uma das maiores e melhores cidades do império. Tem como patrono o deus Apolo. - E-View: Emotional View. Significa Visão Emocional. É um dom / maldição que poucas pessoas, incluindo Brisa, possuem. Permite que essas pessoas expressem suas emoções através de seus olhos. Pode ser extremamente perigoso. - Plutão: deus do submundo e das riquezas da terra. - Magna: deusa rainha, criadora do universo e mãe dos deuses. - Apolo: deus do Sol, da música, dos oráculos, dos poemas e da verdade. - Égia: cidade de Cássio. É onde se encontra o Senado. Não possui deus patrono. - Floresta de Frígia: Floresta localizada nos limites de Égia. É usada como esconderijo para fugitivos e ghouls. - Ghouls: deuses menores nascidos do nada. Podem assumir qualquer forma. Vagueiam pelo mundo levando todo tipo de infelicidades.