Contos de Amorzinho
1 Eu definitivamente não posso gostar de você.
Na época da escola eu vivi uma situação adversa em relação ao meu coração, isso lá pelo 8º ano escolar, eu ainda era uma menina dessas que se apaixona facilmente sem nem nunca ter trocado uma palavra com a pessoa amada, dessas que escrevem cartinhas que nunca serão entregas, dessas que ficam suspirando abobadas apenas com a presença da pessoa amada, enfim.
Meu príncipe encantado estudava junto comigo, ele era o representante de turma da minha sala e como era ano de formatura estava sempre à frente de todos os assuntos. Eu sempre fui uma menina muito comunicativa, porém por algum motivo em especial não conseguia conversar direito com ele, já com os outros meninos da sala a coisa era bem diferente, rolava uma amizade bacana do mesmo jeito que acontecia entre eu e minhas amigas.
Nesse exato ano que eu me vi completamente apaixonada por esse tal príncipe encantado entrou na minha turma um menino completamente diferente dele, era um garoto como todos os outros que estudavam comigo há anos, por eu morar em uma cidade pequena já o tinha visto várias vezes na rua, então sem eu perceber comecei a ficar amiga dele também, e conforme os dias foram passando nós tivemos uma relação do tipo ‘te odeio, mas é muito bom ter você como amigo’ porque ao mesmo tempo que ele implicava com a minha paixão platônica pelo meu príncipe encantado e ficava “zoando com a minha cara” o tempo todo durante as aulas de alguma forma ele sempre estava ali quando eu precisava, eu ajudei várias vezes com as coisas da escola e achava graça quando ele me contava sobre suas tantas conquistas, sim ele era desses meninos que ficam com umas três garotas por semana e depois saem se vangloriando, do tipo sapo mesmo.
A minha turma inteira sabia que eu era apaixonada pelo príncipe então todos os dias rolava umas brincadeiras de casalzinho com nós dois e ele visivelmente ficava chateado, mas eu era tão sem noção que nem percebia o quanto isso poderia ser um incomodo para ele, hoje eu chego à conclusão de que ele era o meu príncipe, mas eu definitivamente não era sua princesa.
Por fim no meio do ano as minhas amigas armaram para que eu pudesse conversar com ele, eu com certeza aceitei, durante um passeio da escola conversamos e ele como todo príncipe foi muito educado comigo me dizendo as seguintes palavras:
“Eu te acho uma garota tão legal, eu vejo você conversando com os outros meninos e penso que seria bom ser seu amigo também, mas aí todo mundo começa a “zoar” a gente e dizer que estamos tendo alguma coisa e bom... eu não gosto de você desse jeito, então eu pensei que poderíamos ser amigos e nos falar normalmente, afinal estudamos juntos, nossos amigos são os mesmos e como eu te disse, eu gostaria mesmo de conversar com você sem que role um clima ruim”.
Certo, isso feriu meu coração, mas ao mesmo tempo me deixou feliz, aquela foi a primeira vez no ano inteiro que nós dois conversamos sobre aquele assunto e o fato dele me dizer que eu era uma menina legal e que queria ser meu amigo me fez sentir a pessoa mais especial do mundo, o único incomodo da nossa conversa é que aconteceu dentro de um ônibus e a pessoa que estava atrás de mim era aquele garoto que tinha entrado na minha turma, aquele que vivia implicando comigo e ao mesmo tempo eu considerava meu amigo, o sapo.
O Sapo não parou de me cutucar com uma caneta nem por um segundo enquanto eu conversava com o príncipe, aquilo estava incomodando, mas como eu queria que aquele momento fosse perfeito tentei disfarçar ao máximo, quando tive a oportunidade perguntei por que ele ficou fazendo aquilo e ele apenas sorriu com aquela cara de safado que tanto me irritava, aquilo me chateou profundamente, mas não dei confiança, eu tinha acabado de conversar com o meu príncipe e apenas isso já estava me fazendo ser a menina mais feliz do mundo.
O ano foi correndo rápido, se eu consegui esquecer o príncipe depois da conversa? É claro que não, eu apenas conseguia conversar com ele normalmente sem ficar muito nervosa e o pessoal da sala diminui as brincadeiras em relação a nós dois, menos o sapo não, ele continuava fazendo piadinhas sobre eu gostar do príncipe, ele sempre arrumava uma oportunidade para implicar comigo usando esse assunto em especial, eu simplesmente fingia que não estava ouvindo nada.
No fim do ano eu posso dizer com certeza que aquele sentimento todo que eu tinha pelo príncipe tinha diminuído, e não me doía tanto vê-lo com outras meninas ou saber que ele estava interessado em alguém, eu aprendi a ser sua amiga e a conversar com ele sem o meu coração querer sair voando pela boca.
No final do ano nos formamos, não foi muito triste porque iriamos todos estudar na mesma escola, eu já disse que a minha cidade é pequena não é? Por isso mesmo seria difícil não ver todo mundo todos os dias. Fizemos então a viajem de formatura e foi naquele dia que as coisas pareceram ainda mais confusas para mim, enquanto toda a turma dançava no corredor do ônibus eu apenas ajoelhei no banco e comecei a observa-los, aquela bagunça e aquela farra toda, eu não era muito disso por isso permaneci ali quietinha, outra pessoa que também estava quietinho sentado na dele era o sapo, só que ao contrário de mim ele não prestava atenção nos nossos colegas no corredor, ele estava observando a estrada através da janela do ônibus, e a forma como o vento batia nos fios lisos do cabelo dele me chamou atenção, ele estava tão focado que nem percebeu o quanto eu continuava o observando, foi então que eu pensei que talvez um sapo pudesse se transformar em um príncipe sem nem ao menos ter sido beijado.
Balancei a cabeça três vezes e voltei a me sentar, senti meu coração acelerar novamente como não vinha há algum tempo e pensei:
“Eu definitivamente não posso gostar de você”.
Notas finais
Chu ~
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