Contos da Casa da Bruxa
1 Capítulo I - Entrebosques
Dia 27 do mês do Leão (07) do ano 2015 6° Era.
Entrebosques, aldeia no interior do Principado da Carinthia.
O clima na aldeia chamada Entrebosques era soturno.
Aterrorizados seus habitantes tinham testemunhado, poucos dias atrás, três lindas jovens se transformarem em criaturas grotescas, com a pele assumindo coloração esverdeada, os cabelos ressecando e caindo, o nariz alongando com o som agoniante da cartilagem se retorcendo, e os dentes apodrecendo, tudo isso no momento em que badalaram os sinos da meia-noite do décimo terceiro aniversário. Em choque com tal evento havia um medo generalizado de sair após o entardecer, com todos se recolhendo às suas humildes choupanas de madeira assim que o lusco-fusco vespertino começava, momento no qual mesmo os mais robustos caçadores se atreviam a chegar perto do bosque para onde as garotas fugiram aos berros e grunhidos de gelar o sangue.
Diante de tamanha histeria coletiva os anciões, a cabala de líderes informais da comunidade escolhidos por sua senioridade e sabedoria já que Entrebosques era pequena demais para ter um prefeito ou xerife formalmente apontado, se confinaram na capela e realizaram diversos rituais e oferendas na esperança de afastar seja qual fosse o mal, o que não impediu o desaparecido de uma criança de quatro anos não muito depois, aumentando a pressão para que fossem contratados aventureiros da Guilda Ancião do Mestres Aventureiros, especialistas em resolver problemas com monstros e maldições, que chegaram ao meio da tarde em menos de uma semana.
— Sente isso? — perguntou o rapaz montado sobre um robusto corcel negro, com os olhos de íris roxas recaindo sobre a garota ao seu lado, essa parecendo alguns anos mais nova, com bochechas cheias e cabelos cor de baunilha escapando por debaixo dum chapéu pontudo.
— Precisa ser muito estupido para perceber. — ela rebateu com certo aborrecimento, como se sentisse que suas habilidades estivessem sendo subestimadas pelo irmão. Sabia que ela não fazia por maldade, mas às vezes ficava ofendida. — Esse lugar é completamente amaldiçoado. Não sei como continuam vivendo aqui, francamente.
— Talvez não saibam, odissenios não tem essa sensibilidade. Ou podem não ter lugar melhor para ir.
A irmã sempre teve uma visão mais otimista e esperançosa do mundo, mas ele sabia o quanto podia ser difícil encontrar seu lugar no grande esquema das coisas, recomeçar a vida mesmo quando se parecia ter alcançado o fundo do posso. E pensando nisso o aventureiro conduziu seu cavalo pela rua de terra lamacenta e irregular, lançando olhares para as choupanas de ambos os lados onde família discretamente os observavam pela janela, alguns parecendo admirados, outros intimidados e até mesmo enojados.
— Não parecem muito felizes conosco.
— Olhe esse lugar, nunca devem ter visto um cavalo se quer. Além do mais esses povoados do interior são extremamente supersticiosos, como se tivesse parado no tempo séculos atrás. Também não gostam de forasteiro, menos ainda dos armados. — Lysander percebeu que uma garotinha o olhou nos olhos e subitamente desapareceu, sendo puxada para fora da janela pela mão. — Ah, sim, e somos avestanios. Seres divinos em carne e ossos, os rebentos dos deuses na terra. — acrescentou um tanto jocoso.
A garota inflou um pouco o peito.
— Eu sou mesmo uma bela deusa.
O rapaz riu baixinho com o comentário e voltou-se para frente, focando na maior construção da aldeia onde um grupo de quatro pessoas esperava. Três deles eram bem velhos, dois homens e uma mulher, já o quarto membro travasse de um homem incrivelmente grande na faixa dos quarenta.
— Mestres aventureiros, muito obrigado por virem tão rápido. Sua chegada é muito fortuita. — falou um dos anciões, tomando à dianteira. Mais rechonchudo que os demais tinha a cabeça tomada por fios cinzentos, a pele rosada um tanto flácida, e as vestes de uma tonalidade azul desbotado. — Meu nome é Wyntsen, sou... o responsável por nossa humilde comunidade. Obrigado, muito obrigado por terem vindo. — disse, com o nervosismo transparecendo. — Não achamos que algum de vocês atenderia nosso pedido.
— É o nosso trabalho. — disse o rapaz descendo do cavalo e ajeitando o sobretudo de couro marrom escuro antes de estender a mão para Wyntsen, que correspondeu com um aperto trêmulo. — O nome é Lysander, Lysander Leônidas Ágida. Essa é minha irmã, Alyssa. — a garota, vários centímetros mais baixa, ficou escondida atrás do irmão num primeiro momento, mas quando seu nome foi dito ela deu um passo para o lado, acenando para os anfitriões. — Podemos entrar? Precisamos fazer algumas perguntas.
— Sim, mas é claro. Permita-me só apresentar o restante de nós. Esse é Humbert, nosso pastar; Aldwin, nosso caçador mais experiente e Nelly, nossa curandeira e parteira. — Lysander acenou para eles com a cabeça. — Esperamos poder ajudar no que precisarem. Agora sim, sim, vamos entrando. Aldwin, por gentileza, amarre os cavalos dos mestres. Não gostaríamos que montarias tão belas se perdessem por ai.
O caçador, um homem com mais de dois metros de altura, pegou os corcéis pelas rédeas e puxou até o mostro onde havia cinco mulas, os prendendo ali. Enquanto isso Wintsen guiou os irmãos e o resto da comitiva até a capela feita inteiramente de madeira, mas com melhor acabamento que as casas humildes ao redor. Uma escada estreita de poucos degraus levava até as portas duplas abertas e o interior consistia de uma nave alongada ocupada por dez bancos de três metros cada, enfileirados em duas colunas de cinco paralelos um ao outro até chegar num pequeno altar iluminado por velas e incensos, com duas vasilhas entre elas.
— Não quero soar indelicado, mas quem vocês veneram aqui?
— Entrebosques é uma aldeia sem deuses. — respondeu o líder dos anciões. — Somos protegidos por Berchta e a ela prestamos nossas homenagens e agradecimentos.
— Quem?
— Veja como fala, pivete insolente. — esbravejou o pastor.
— Acalme-se, Humbert, acalme-se. Tenho certeza de que o jovem aventureiro não teve intenção de desrespeitar Senhora Berchta. Ele veio aqui nos ajudar.
O pastor balbuciou um xingamento e virou a cara, trancando alguns murmúrios com a curandeira enquanto e Wyntsen se moveu para ficar entre eles e Lysander que por sua vez tinha Aldwin de braços cruzados logo às suas costas e Alyssa ainda próxima da entrada, analisando o ambiente com olhar curioso.
— Nós a chamamos de Senhora da Floresta ou Mãe Berchta. — continuou o líder da aldeia. — Ela veio até nós muitos anos atrás se apresentando como um espírito protetor que se apiedou de nossas misérias. As preces feitas aos Lordes de Celestia nunca foram atendidas e cansamos de nos martirizar por deuses que ignoravam seu rebanho. Transformamos esse velho templo em uma altar dedicada à Senhora da Floresta e ela tem sido boa conosco por todo esse tempo, mantendo monstros e outros infortúnios afastados dessas terras.
— Isso me parece adorar uma deusa.
— Não é. Mãe Berchta nos protege e nos aconselha, e em troca ela não pede rezas ou submissão, apenas pequenas oferendas que damos de bom grado. Ela também nos ensinou vários rituais para nos protegermos de azarações e marotagens dos pucks.
— Tudo bem, um espírito protetor. Entendi. Só fiquei curioso sobre a capela e o pastor, mas tudo bem, não é da minha conta. — ele olhou ao redor, fitando por alguns instantes o rosto de cada ancião. — Me desculpem, mas ainda não entendi porque estou aqui. O contrato diziam que precisavam que eu resgatasse alguém na floreta.
— Tememos que algo possa ter acontecido com a Senhora da Floresta. Que as garotas tenham sido possuídas por espíritos malignos e invadiram o bosque para mata-la ou feri-la.
— Alguma razão para pensarem isso?
— Duas vezes por semana fazemos oferendas e Berchta sempre vem buscá-las. Geralmente somem ao amanhecer, em dias especiais ela mesmo vem buscar. Mas desde aquela noite tudo que deixamos nas vaselinas continua lá. Fizemos os rituais na esperança de afastar forças sombrias, mas não parecem ter funcionado. — Wyntsen abriu a boca e gaguejou por algum tempo antes de conseguir falar. — Pensamos ser impossível, mas então a pobre criança desapareceu. — o ancião lançou um olhar para Aldwin, ficando em silêncio por alguns instantes. — Ela vive nas profundezas da floresta, longe demais para um dia de caminhando, mas ainda assim perto o bastante para manter seus olhos atenciosos em nós.
— E vocês sabem exatamente onde a casa dela fica?
— Sim, sim, sabemos. Não gostamos de perturbá-la em seu lar, mas ela recebe aqueles que a buscam. Precisamos de ajuda, senhor aventureiro, o medo cresce no coração de todos. A Senhora da Floresta nos ajudou em nossos tempos difíceis, é momento de retribuir a ajudando a lutar contra o mal.
“E com isso vocês querem dizer pagar alguém para fazer o trabalho”.
— Nosso homens são bravos, mas nem eles podem contra as bestas da escuridão.
— Tudo bem, eu e minha irmã faremos isso. E quanto às meninas desaparecidas?
— Possuídas pelos espíritos sombrios, inimigos eternos dos bons e dos puros. — respondeu o pastor, levantando o tom da voz a ponto de ecoar dentro da construção. — Criaturas da noite sedentas por carne e sangue humano. Não há redenção em vida uma vez que se prova do fruto e do vinho proibido, só a morte pode redimir suas almas. — Humbert abriu espaço e se aproximou de Lysander. Era um homem magricelo, de cabelos ralos, mas bastante alto. — Podemos confiar o destino de nossa comunidade a você, garoto? E sua irmã?
— Não costumamos falhar, pastor. — rebateu com um sorriso de canto de lábios. Talvez para o povo do interior os olhos acinzentados e as olheiras profundas fossem intimidadoras, uma autoridade moral sem precedentes, mas Lysander já tinha testemunhando o poder dos verdadeiros deuses, caminhando ao lado de homens com poder para reduzir cidades a pó e provocações não o fariam tremer. Contudo algo diferente dos nativos ariscos e clima supersticioso o arrepiava em Entrebosques, era a constante presença que impregnava tudo ao redor e podia ser sentido na pele, algo que grudava e penetrava no amago. — Agora se nos derem licença precisamos nos preparar. Se possível, senhor Wyntsen, nos repasse as instruções para a casa de Mãe Wyntsen quando estivermos de saída. — o rapaz voltou-se para a porta e levando a mão, estalando os dedos duas vezes em sequencia. — Alyssa, hora de ir embora.
— Ei, para de me chamar como se eu fosse seu bichinho de estimação. — resmungou a loira surgindo das sombras, próxima ao altar. — Certo, certo, só me deixa tirar essas teias de aranha das mãos. — pediu enquanto remexia a manga dos robes e puxava uma série de panos coloridos amarrados uns nos outros, usando para limpar os dedos cobertos de pó. — Toma, fica para você. — ela disse amassando os panos com as mãos até virarem um boque de flores, o qual entregou para Wyntsen quando passou por ele no caminho até o irmão. — Nem prestou atenção no meu truque, seu chato.
— Eu já conheço todos os seus truques.
— Mas dessa vez deu certo.
Lysander levou a mão até a testa, massageando as temporãs.
— Só me diga o que encontrou.
— Muita coisa. O lugar todo é completamente danado. E sabe o altar? Não sei nem por onde começar nas bizarrices. Numa vasilha tem um monte de cabelo de várias cores diferentes e na outra unhas, eu acho que do pé. E um crânio, crânio de criança. — ela torceu os lábios, ficando absorta nos pensamentos conforme se afastavam da capela, ficando fora de vista dos anciões. — E algo me diz que essa Berchta pode ver e escutar através dele. — ela deu uma risadinha. — Estamos tendo aqueles momentos de telepatia de gêmeos ou...
— É uma crona. — falou Lysander com as mãos postas nos bolsos do sobretudo e o vento suave do final da tarde balançando os fios castanhos do cabelo penteado para trás com pomada. — Tudo se encaixa muito bem, mas seria bom saber mais sobre essa aldeia. E algo me diz que não podemos confiar totalmente nesses velhos. Ideias?
— Não, mas eu podia beber até ter uma. — exclamou num voz tão trovejante que parecia vinda de um anão barbudo ao invés de uma adolescente de dezesseis anos. — Talvez beber um lago até vir alguma coisa.
— Deve ter uma taverna ou estalagem em algum lugar, vamos procurar.
A população de Entrebosques não era grande, não mais de quatrocentas pessoas, mas com suas construções sendo tão espaçadas e com cercados de animais e hortas entre elas o povoado se espalhava por todas as direções, cobrindo inteiramente a clareira cercada por bosques em três lados, sendo o quarto uma área desmatada ao longo das décadas a ponto de formar a única ligação direta com o restante do mundo. Não era de se surpreender que nenhum oficial do governo tivesse se preocupado em vir administrar essas bandas e que a população tenha dado as costas para os Sete Lordes de Celestia tão rapidamente.
— Não tem nome, mas um caneco de cerveja talhado em madeira não mente.
— Hahaha, pode apostar.
Os irmãos empurraram a porta, adentrando no lugar fétido e apertado, com um punhado de mesas vazias e um balcão bem mal acabado, com lascas das pontas faltando. No teto havia um lustre com várias velas emitindo lux bruxuleante e nas paredes algumas estandes com garradas de bebida meio cheias, as quais eram organizadas por um homem barbudo na faixa dos cinquenta anos.
— Dia ruim para os negócios? — perguntou Lysander ao taverneiro de um olho só logo após sentar no balcão bem em frente dele. Não houve resposta então resolveu ir direto aos negócios. — O que tem de mais gelado? — nenhuma resposta. — Foda-se, uma cerveja qualquer para mim, vinho para minha irmã.
— Já vê dois. — acresceu, se acomodando a alguns bancos de distância. Sabia que em pouco tempo Lysander a mandaria parar de beber tanto e quanto mais afastada estivesse do gêmeo mais ele demorava a começar a contar quantas taças ela já tinha virado. — Ou três, sei lá, preciso de algo bem forte.
O sujeito pegou um caneco, colocou debaixo da boca do barril e puxou a alavanca para deixar o líquido amarelo escuro fluir. Colocou sobre o balcão displicentemente, fazendo um pouco do conteúdo vazar e logo pegou duas taças de latão amassado, enchendo-as de vinho e entregando para Alyssa que sorriu e já começou a virar uma.
— São os primeiros que me aparecem desde a bosta que aconteceu. — resmungou, num jeito estranho de dizer olá. — Um dia ia acontecer, eu avisei para todos os idiotas daqui. Mas quem sou eu? Só o louco bêbado da aldeia. —ele cuspiu no chão e pôs a mão debaixo do balcão, puxando outro caneco já cheio de cerveja donde bebeu até espuma escorrer pelo canto dos lábios ressecados. — Pastos de merda, fazendo acordos com bruxas, barganhando a alma desses infelizes. Isso é uma punição merecida.
— Bruxa?
— A Senhora da Floresta. O que acha que ela é? Uma fada?! — perguntou, dando uma risada banguela. — Culpa desse pastor borra-botas que a trouxe para cá. — o taverneiro bateu com o caneco no balcão, se curvando para frente, aproximando o rosto de Lysander até o aventureiros sentir o bafo de morte. — Pragas, doenças, monstros, de repente tudo isso caiu sobre nós ao mesmo tempo. Engraçado demais para ser coincidência. Humbert empinou o nariz dizendo que encontraria uma forma de acabar com esse sofrimento e, dias depois, ele voltou. — mais uma risada, mais amargurada. — Sim, ele voltou. Disse ter encontrado uma espírito da floresta e que ela seria a protetora de Entrebosques, se nós pagássemos pequenos tributos semanais.
— Quando tudo isso aconteceu?
— Catorze anos atrás, por ai. Quem não confiaria no pastor? Era o homem mais sábio, o mais reto, o mais digno. — falou em tom de deboche. — Os animais pararam de desaparecer, as crianças foram curas, as colheitas eram abundantes e antes do tempo. Tudo isso graças aos ensinamentos de Mãe Berchta que não pede nada em troca além de fios de cabelo, algumas flores, pedaços de unha. — Lysander ouviu cada palavra com atenção, sem nem mesmo tocar sua cerveja. O velho caolho então se afastou subitamente e olhou diretamente para Alyssa brincando com as taças já vazias. — A garota vai querer mais alguma coisa?
— Não, obrigado. Estamos de saída.
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