Contos da Casa da Bruxa

2 Capítulo II - Pecados Confessados


A noite tinha chegado e nuvens pesadas cobriam a lua e as estrelas, com o vento tornando-se mais intenso ao ponto de carregar folhas consigo. Nenhuma luz vinha das choupanas, mas a capela se iluminava com tochas ao lado de fora e o brilho de velas escapando pelas janelas. Lysander e Alyssa aguardava em frente á escadaria, cada um absorto em seus pensamentos: ele com a espada pendendo nas costas sentia os dedos formigarem com ansiedade, ela com a varinha em mãos sentia-se oprimida pela intensa energia maligna emanada da construção. Não tinham certeza do que encontrariam lá dentro, mas mesmo sem trocar palavras os gêmeos tinham ciência de que não sairiam dali em derramar sangue.

— Tem certeza que quer fazer isso?

— Não gostou do plano?

— È um plano idiota. — Alyssa respondeu. — Então eu adorei.

Lysander avançou em direção da porta, abrindo-a sem tocar com sua telecinese, parte dos poderes hereditários chamados aspectos que todos os humanos da raça avestania tinham, sendo tão variados quanto controle dos elementos até super-força. O barulho da tranca arrebentando foi alto e de relance viram Humbert ajoelhando em frente ao altar, balbuciando alguma coisa.

— Desculpe excelentíssimos, mas a missa foi cancelada.

— O que pensam que fazem aqui? — esbravejou, erguendo-se com o rosto ruborizado e um pedaço de espelho na mão. — Wintsen já devia ter lhes dito tudo que precisavam saber. Já deviam estar na floresta. — o velho estreitou os olhos, vendo a espada e a varinha. — Mas que ultraje! Vocês não são bem-vindos aqui, saiam de Entrebosques ou farei que a ira da Senhora da Floresta caia sobre vocês.

— A ira da Senhora da Floresta? Mas ela não está em apuros? Não íamos resgatá-la? — o pastor abriu a boca, mas nenhum som saiu e Lysander puxou a espada da bainha, apontando para o homem, com Alyssa fazendo o mesmo com a varinha. — É melhor não gritar, minha irmã pode te matar antes de conseguir dizer a primeira sílaba. — Humbert recuou alguns passos, segurando o pedaço de espelho na direção dos irmãos. — Solte isso! — o pastor obedeceu, mas o vidro não quebrou ao bater no chão. — Sabe que sua salvadora é uma crona?

— Nunca ouvi tamanho absurdo! A Senhora da Floresta é uma protetora, uma entidade benevolente que nos dá muito e não pede quase nada em troca. Não vou tolerar essas blasfe...

O pastor avançou, mas foi empurrado de costas contra o altar pelo que pareceu serem mãos invisíveis. As velas, bem como as vasilhas de cabelo e unhas, caíram no chão com o impacto.

— Não temos muito tempo e não tenho problema nenhum em matar. Você tem mana? — ela negou com a cabeça, com um pequeno sorrisinho nos lábios finos. — Então, vou contar até um, — a ponta da varinha da garota começou a se iluminar. — dois, — o brilho aumentou. — trê...

— Sim! Merda, eu sei!

— Ótimo, estamos nos entendendo. — Lysander estalou os dedos, fechando as portas duplas atrás deles e gesticulou com a cabeça, dando sinal para Alyssa se aproximar. O pastor prostrou-se de medo e engatinhou para o lado conforme a feiticeira se aproximava do altar, aparentando estranha diversão com a situação. — Cuidado com essa coisa, não quero você sendo possuída. Já é ruim o suficiente como é naturalmente.

— Não se preocupa. Só vou fazer uns testes.

O rapaz sabia que a gêmea, apesar da personalidade excêntrica e energética, era uma arcana competente e ele então pode focar toda a atenção em Humbert, rastejando miserável para longe dele.

— Não terminamos, meu bom pastor. Por que não me conta mais sobre essa Berchta. Como se conheceram? Ficaram amigos rápido ou precisou oferecer um pouco de carne de bebê? — Lysander se abaixou, segurou o tecido dos robes do velho pelas costas e o levantou antes de jogá-lo em um dos bancos. — Fale. — silêncio. — Eu mandei falar. Não sei o que pensa que aventureiros são, mas eu não tenho problemas sem ser físico.

— Eu a encontrei na floresta, anos atrás. Buscava um modo de curar as mazelas da aldeia e os Lordes de Celestia não ouviram minhas preces, nenhum deles. Era apenas morte e sofrimento aqui enquanto as outras aldeias prosperavam. Berch apareceu para mim, me ofereceu comida e fogo, me mostrou seus poderes. Ofereceu a cura para as doenças, como fazer o solo fértil de novo. Deu-me habilidades além de qualquer homem comum.

— Quanta gentileza. Ela espalha a doença e depois te vende o remédio. — debochou Lysander. — Me poupe dessa historinha de herói trágico tentando salvar a aldeia e me conte logo qual foi sua barganha. Quais foram os termos? Cronas não fazem nada sem ganhar muito em troca.

— Ela oferendas. — o pastou tentou levar, mas foi empurrado de volta pela telecinese de Lysander. — Eu também devia ir para outras aldeias e usar meus poderes para... para azarar os habitantes de lá e pegar o reflexo de sua angustia e sofrimento naquele pedaço de espelho. Assim ela prometeu deixar nossa aldeia em paz, prometeu nos ajudar. E-eu não queria fazer isso, mas não tinha escolha, todos em Entrebosques iam morrer.

— Todos em Entrebosques vão morrer e por culpa sua. As três meninas que se transformaram e fugira para a floresta... elas não foram possuídas, não é? Você as levou até Berchta, não foi? — o pastor concordou, com a face cinza de tão pálida, com as veias aparecendo através da pele. — Por quê?

— Ela precisava de três garotas... disse que elas seriam abençoadas para crescerem e virarem mulheres sábias, protetoras da aldeia. Foram devolvidas menos de três dias depois, belas e saudáveis. Eu nunca... eu nunca imaginei que poderia acontecer algo assim.

— É claro que não. Não posso culpa-lo pelas coisas que não sabia, apenas pela sua própria tolice. — o rapaz olhou Alyssa por cima do ombro, vendo a garota mover as mãos no ar, conjurando vários símbolos arcanos luminosos que tocavam o crânio e o faziam expelir uma fumaça escura. — Como estão as coisas ai?

— Só mais alguns minutinhos.

— Então, bom pastor, enquanto esperamos tem mais alguma coisa para nos contar?

— Vocês não têm chances, crianças. — disse, parecendo nem ser mais a mesma pessoa. Todo o medo pareceu desapareceu e os olhos ao invés de tremer estavam fitando os de Lysander. Abriu a boca e um sorriso torto se formou. — Vocês vão morrer. Mãe Berchta vai matá-los e cozinha-los. Vai usar suas peles para fazer roupas, seus ossos para o caldeirão e suas almas para atormentar.

O pastor começou a gargalhar e Lysander o acompanhou, sorrindo e deixando escapar risadas primeiramente maliciosas até crescerem mais e mais alto ao ponto das vozes se fundirem e subitamente emudecerem quando a lâmina de aço boreal atravessou o coração do ancião.

— Lacaios me dão nojo. — ele puxou a espada e com a mão livre arrancou um pedaço das vestes de Humbert para limpar o sangue piscoso pingando. — Terminou?

— Sum, sim, desfiz os feitiços para ela não poder mais ver ou ouvir pelo crânio. E podemos rastreá-la usando o resíduo de aura. — disse com um sorrido triunfante, segurando o crânio em uma mão, girando sobre a palma com a ponta dos dedos. — Pena que não sei essa magia, seria bem útil ter alguns olhos e ouvidos extras. — ela encolheu os ombros, devolvendo a caveira ao altar. — E agora?

— Caçar a crona. Duvido que Wyntsen tenha nos dados a localização do covil dela. Deve ser só um ponto de encontro onde ela recebe os aldeões, e provavelmente na direção oposta de onde ela mora. Vamos seguir os rastros do crânio e acabar logo com Berchta. Todo o estrago possível já foi causado e não dá para salvar aquelas garotas, elas nunca foram humanas para começo de conversa. — Lysander suspirou, devolvendo a espada à bainha. — Só nos resta torcer para que essa vila consiga seguir em frente.

— Ei, não fica assim. Demos o nosso melhor!

— Sim, tem razão. — Lysander sorriu para a irmã e deu um tapinha nas costas dela antes de se dirigir para a saída. Embora não pudesse chamar a situação de “vitória” sentia-se poderoso, até mesmo triunfante e marchou de queixo erguido pela nave, abrindo as portas duplas com um puxão apenas para ver centenas de pessoas vagando pelas ruas de Entrebosques, com os ombros caídos, rostos inexpressivos e olhos vazios. — Alyssa, o que é isso?

— Oh, Deuses. Parece que descobrimos porque ela queria cabelo e unhas.