É quinta à noite e você está jogando video game clandestinamente em seu quarto. Seus pais lhe regraram o horário de dormir, mas você o viola, seguro de que saberá exatamente quando eles virão à sua porta graças à luz automática do corredor que sinaliza a aproximação dos adultos todas as noites.

[22:16] Entretendo-se com o controle em mãos, você vê a luz do corredor se acender, corre para desligar a silenciosa televisão e pula na cama, fingindo que está dormindo. A porta se abre deixando escorrer a luz do corredor para dentro do quarto e desenhando a silhueta de seus pais na parede, a qual você observa de costas para eles. “Dorme com deus, filho” é o que se ouve atrás de você antes da porta se fechar, os passos no corredor se distanciam e assim que as luzes de fora se apagam, você volta correndo para o jogo em pause.

[22:36] Algo faz barulho próximo ao corredor, antevendo a chegada de seus pais, você desliga a tv e se joga na cama. A luz do corredor se acende, porém não se ouve passos, a porta se abre, porém não se ouve vozes. A silhueta dos seus pais o assegura de que eles estão ali o observando, mas as sombras pareçam inquietas dessa vez. Quando a porta se fecha e a luz apaga, você volta ao entretenimento.

[22:56] Você sem querer derruba o controle no chão, fazendo barulho e sendo obrigado mais uma vez a fingir-se desacordado. Novamente a luz se acende e não se ouve os passos habituais, a porta se abre e o sentimento dos adultos lhe observando em silêncio lhe atiça um incômodo no fundo do estômago. Os corpos de sombra se mexem na parede como se dançassem assíncronos sem nenhum ruído sequer. A porta se fecha, a luz se apaga, mas você não volta ao jogo, está incomodado de mais com a atitude estranha de seus pais. Cogita ir vê-los no quarto, mas tem medo de andar sozinho pela enorme casa durante a noite. Enquanto se perde em pensamentos, um barulho próximo à cama o chama a atenção. Você se esgueira e nota que um som abafado e confuso se ouve de dentro do seu baú de brinquedos, como vozes. Seu coração palpita forte, o ar se torna pesado e suas mãos trêmulas, mas você dá alguns passos em direção ao barulho ainda sim, temendo que algum brinquedo esteja ligado consumindo pilha. Prendendo a respiração, você abre o baú, nota que seu robô falante está desligado e que, ao invés dele, o som vem de dois bonecos fantoches, que gritam distantes por socorro em vozes abafadas. "Socorro!", "me ajuda", "somos nós". Um arrepio gélido lhe sobe a espinha e você corre para fora do seu quarto com o coração veloz, buscando seus pais em desespero. Passando pelo corredor nada aconchegante, você os alcança deitados na cama e tenta acordá-los sem sucesso. Algo ali lhe parece muito errado, então você retira a coberta que os aquecia, acende a luz do abajur e vê seus pais pálidos, com os corpos em falta da parte abaixo da cintura, a barriga antes recheada de órgãos parecia limpa por dentro e a pele flácida era irregular como tecido sem ter o que cobrir além dos ossos torácicos. No lugar dos olhos apenas buracos escuros, a boca era rasgada como se a abrissem além do que a pele e a junção do maxilar com a mandíbula conseguiriam naturalmente. Você vomita seu jantar e cai no chão, em cima de uma poça de sangue que não percebera antes. Os olhos encharcados de lágrimas fazem embaçar a vista, o corpo treme como se seu sangue parasse de circular e tornasse o corpo extremamente frio, mas ainda sim você distingue algo familiar jogado ao chão. Um livro infantil, sujo com o que parecem ser manchas sanguíneas de dedos, deitado, aberto próximo à cama dos cadáveres. O livro colorido e simples conta a história, em figuras, de um menino que gostava de passear pela cidade com seus dois fantoches de meia em ambas as mãos. Estranho! faz anos que seus pais não leem essa estória para você. O que ela estaria fazendo ali? Seu cérebro entra em parafuso, sem saber como processar o baque das informações. Porém, apesar da mente dormente, um pensamento lhe atravessa o crânio: "quem fez isso?". Marcas de dedos em sangue tingem a capa do livro, esses dedos não são humanos.

[23:00] A luz do corredor por onde você acabou de passar se acende.

FIM