Contos Sombrios [Contos de terror]
2 Triângulo
Notas iniciais
Roberta e Gustavo haviam começado sua vida a dois quando alugaram uma casa no interior de São Paulo. O casal aprendia o significado da palavra "casados" quando esta não vinha de assinaturas em papeis burocráticos ou cerimônias extravagantes, mas do sentimento entre dois indivíduos que se enraíza sob um teto, cresce regado com a cooperação por sobre o telhado e da à luz os saudáveis frutos do amor.
Mas para que a vida de casados nascesse, alguns sacrifícios foram necessários. Para Roberta, foi trancar a faculdade de computação para se dedicar aos custos da casa. Ficou-se decidido que Gustavo seria quem continuaria sua faculdade de arquitetura enquanto ela trabalhava em um banco, 2 horas de ônibus dali.
Para Gustavo, foi ter de morar tão perto da insuportável Helena, melhor amiga de sua mulher;
O coração de Roberta doía ao ver como seu marido e sua amiga se odiavam, talvez por serem tão diferentes. Helena era do tipo que saia para beber todos os finais de semana e gostava de conhecer um homem diferente à cada noite, enquanto que Gustavo era mais caseiro e romântico. Roberta cogitava que seu marido escondia o medo de ser traído durante alguma das noitadas com a amiga, por isso odiava tê-la por perto.
Após se estabelecerem no local, os dias passaram a ser todos iguais: Roberta levantava antes do sol, fazia o café da manhã, beijava o rosto de seu marido adormecido e ia trabalhar; Gustavo acordava logo depois, comia seu café e se enfiava em seu quarto de estudos, com seu notebook para dedicar-se à faculdade à distância.
Os dias eram iguais até que um deles deixou de ser.
Na noite de 13 de Junho, familiares da Helena a deram como desaparecida para a polícia. Uma busca começou a ser feita na floresta em volta das duas casas, mas não houve sinal do corpo da jovem. Roberta e Gustavo foram interrogados e sua inocência foi garantida por um fio, graças ao seu excelente advogado. Depois de esgotadas as buscas, restaram somente a hipótese de sequestro por parte da polícia, a imensa dor da perda e perguntas sem respostas que cutucavam a mente de Roberta.
Alguns dias se passaram desde o fim das buscas e Roberta, ainda abalada, dizia poder ouvir vozes da amiga vindas da floresta durante a noite. Gustavo a confortava com a voz da razão toda vez.
Na noite de 17 de Junho, Roberta decidiu finalmente guardar os pertences de sua amiga e seguir com a própria vida. Juntou alguns objetos e então recolheu a agenda de Helena, que mais a usava para desenhar e expressar sentimentos que para organização pessoal, mas reparou que a borda das folhas estavam encardidas, mais do que quando pegara para ler noites atrás na tentativa vil de encontrar respostas para o desaparecimento da amiga. Estranhou o fato e abriu a agenda uma outra vez, chegou às folhas sujas e viu que lá alguém escrevera "ME AME" e "VENHA COMIGO" em traços garranchosos e pesados. A mulher se assustou e arremessou o objeto na parede. O que assustara a pobre amiga é que essas páginas estavam em branco nos dias anteriores. Perguntou ao marido se ele havia mexido, mas Gustavo negou envolvimento. A agenda estava guardada e somente ela sabia de sua existência. Ela e sua falecida amiga.
No dia seguinte, Roberta ainda não conseguia parar de pensar na agenda durante seu expediente. Mentalmente cansada, pegou seu ônibus de cada dia, agradeceu ao motorista e se sentou no lugar de sempre. Após 1:37 de uma viagem truculenta, a mulher tentava se aconchegava nas músicas clássicas da rádio local, emitidas por seus fiéis fones de ouvidos quando uma intensa estática deu fim ao lazer. A sintonia da rádio tornou-se em chiados e, Roberta jurava, uma voz feminina distante e distorcida dizia "Ela está chegando.." através dos fones. Ao chegar em casa correu para buscar a agenda com lágrimas nos olhos, mas não encontrou o objeto em nenhum lugar. Gustavo disse-lhe que havia escondido a agenda encardida pois temia pela sanidade da noiva. "Você está a ponto de ter um colapso", dizia ele. A mulher explicou que acabara de ouvir uma voz aterrorizante, seu noivo pareceu levar a sério o que ela dizia, mas no fundo ela sabia que ele temia pela sanidade de Roberta.
Após esse evento, outros foram surgindo dentro da casa do infeliz casal. Frases como "Eternamente juntos" e "Me ame" eram encontradas pelos cômodos de forma aleatória. Roberta sabia que não eram feitos humanos e que as frases denotavam desespero pelo amor. O amor em questão era o dela, ao que se presumia, as mensagens, de Helena.
Roberta tentava alertar seu marido descrente, que insistia em acreditar que eram obras de alguém que os culpava pelo desaparecimento da amiga, mas que tinha medo de alertar as autoridades pois temia chamar a atenção para eles novamente e dessa vez, seu advogado poderia não conseguir elaborar a mesma mágica de antes.
Na noite de 22 de Junho, sexta-feira, às 22:15, Gustavo fora acordado com o grito estridente de sua esposa vindo do corredor. Ao abrir a porta do quarto, jogou o corpo pra trás por se deparar com um outro corpo, em putrefação, no chão próximo à porta. Pelas vestes, o casal notou, era Helena!
O corpo parecia ter se arrastado, deixando trilhas nojentas de fluidos mórbidos e vermes para trás, até a porta do quarto do casal, onde permanecia imóvel com um dos braços erguidos como se estivesse prestes a girar a maçaneta logo acima, antes do corpo voltar a se tornar apenas carne podre inanimada. Roberta lutou contra o próprio corpo para que não despencasse e Gustavo mal sabia se aquilo era real ou presenciava um pesadelo certeiro. O cheiro de carne podre quase os fez vomitar.
—Fica longe disso! — gritou Gustavo com a voz trêmula — Alguém deve ter posto aqui pra assustar a gente.
—É a Helena, Gustavo. — Roberta caiu de joelhos soluçando para fora da garganta um choro quente e doloroso — É a Helena!
—Puta que pariu! Que merda, que merda! — Gustavo tentava se recuperar e pensar rápido antes que sua esposa continuasse submetida à dolorosa visão do corpo cadavérico da amiga. — A gente tem... que enterrar ela.
—Você ta maluco!? — A mulher olhava pra ele com olhos vermelhos e inchados — Liga pra polícia, a Helena morreu, Gustavo.. minha amiga ta morta aqui na minha frente.
Embora esse fato não fosse novo na mente de Roberta, dizer isso em voz alta parecia a melhor forma de exprimir a dor que sentia naquele momento frente ao absurdo que seu marido propora.
-Pensa, Roberta! Como a gente vai explicar isso? Vão colocar a gente na cadeia na hora! A família dela vai achar que você inventou essa história pra devolver o corpo sem se incriminar. A gente não pode chamar a polícia, Roberta.
—E o que é que a gente vai fazer, Gustavo? Jogar ela na vala como indigente?
—Vamos achar um lugar escondido para enterrar ela, você vai poder se despedir dessa vez, e depois vamos achar sozinhos o culpado disso, eu prometo, ta legal?
Sem psicológico para se opor à lógica do marido, Roberta tentou catar aos tropeços alguns pertences de sua amiga e levou consigo enquanto Gustavo enrolava o corpo em lençóis velhos, o corpo teve de ser envolvido inúmeras vezes pois seus sulcos vazavam para os tecidos em manchas negras. O casal rumou floresta adentro carregando a falecida Helena, seus pertences e uma pá. Acharam uma região menos densa de árvores, arrancaram as plantas rasteiras, cavaram e derrubaram o corpo la dentro. Roberta depositou os objetos sobre o corpo da amiga enquanto os ventos gélidos da floresta noturna machucavam-lhes a pele.
—Não vai colocar a agenda também? — Perguntou Gustavo, mas a mulher nada respondeu ou fez exceto apertar a agenda com mais força contra o peito.
O casal chegou em casa sem dizer uma só palavra, Roberta chorou no chuveiro enquanto Gustavo limpava os pedaços viscerais do assoalho, seus olhos fitaram a floresta através da janela, em um teor preocupado e ao mesmo tempo determinado, as mãos eram trêmulas. Assim que terminou, se juntou à mulher no banho, ela implorava para que ele não a deixasse sozinha.
Gustavo insistia que era obra de alguém querendo torturá-los, mas confessava ser estranho que tal pessoa soubesse onde o corpo estava. Seria obra do assassino de Helena? Em contraponto, sua esposa não largava da ideia de eventos sobrenaturais, o que a deixava com um sentimento angustiante e gélido que lhe arrepiava a espinha e contorcia o estômago.
Decidiram se hospedar em uma pensão, alguns quilômetros dali. Gustavo levou seu material de estudo e Helena algumas roupas e itens de higiene, deixando a agenda na casa, o que fez Gustavo sentir certo alívio por vê-la cessando a obsessão pelo mistério da amiga, mas ele não imaginava que ela o deixara de propósito.
Na primeira manhã hospedados em uma humilde e isolada pensão, Gustavo insistia para que sua mulher não fosse trabalhar, mas ela dizia precisar distrair a mente com as tarefas do banco. Helena beijou-lhe a bochecha, se despediu e rumou até o ponto de ônibus. Enquanto sacolejava sobre seu banco de praxe, a mulher atormentada não parava de fitar o horizonte, observando a floresta esbranquiçada em decorrência da neblina daquela manhã. O veículo surgiu à vista, parou para alguns passageiros que desembarcaram e então seguiu viagem, sem Helena. Ela ligou para o trabalho avisando que teria de faltar por problemas de saúde mental, deixou que o ônibus se fosse e começou a andar em direção à própria casa. Ao chegar no fatídico local procurou pela agenda que deixara em cima da mesa da sala, aberta, mas o objeto não estava mais lá. Verificou que as portas e janelas permaneciam trancadas desde que saiu em desespero na noite anterior. O chão ainda cheirava a produtos de limpeza. chegou ao quarto de casal e avistou o caderno jogado ao chão de jeito estranho, ainda mais encardido. Engoliu o medo com a garganta ressequida e folheou a agenda. Conteve com todas as forças o choro e o desespero ao ler novas mensagens deixadas pela amiga. "EU TE AMO", "SOCORRO" e "CASE COMIGO", além de outras palavras indecifráveis devido aos garranchos. Também notou algumas repetições de um mesmo símbolo: um triângulo com um coração no meio, desenhado não só na maioria das páginas, mas também, rabiscado em algumas partes do quarto. O símbolo a lembrava de alguma coisa, mas o que seria? Decidiu investigar a casa ao lado, a adentrando pela primeira vez após o desaparecimento da amiga, passando pelas fitas amarelas colocadas pela polícia. Chegou ao quarto que a enchia de boas lembranças e o remexeu por inteiro, procurando por algo em específico, mas não o encontrou. Sentou-se frustrada no chão em meio ao caos do quarto. O fato de estar ali fazia seu corpo tremer como se nevasse dentro do cômodo. A mulher então pensou em algo que poderia pôr a perder a sanidade de qualquer pessoa com nervos mais sensíveis, mas ela não poderia se dar ao luxo de ceder para a própria mente, sua amiga poderia estar dizendo algo, e essa era justamente a ideia que brotara em sua cabeça. Roberta dobrou os joelhos, respirou fundo, sentiu os pelos arrepiarem por todo o seu corpo e então disse ao quarto vazio.
—Helena, onde está!? — A voz tremulava — Por favor, me responda! Onde você pôs aquilo!? — Em seguida ouviu-se um arranhar de unhas em uma superfície de madeira vindo de dentro do armário.
A mulher com a determinação a um fio de se quebrar, esperou alguns minutos para conseguir comandar suas pernas a se levantarem e marcharem em direção ao armário de portas fechadas que acabara de vasculhar. Pôs as mãos na pegadura de metal gelado e abriu a porta rangedora de uma só vez, porém, não viu nada nem ninguém como temia ver. Percebeu algumas marcas que não reparara antes no chão do armário, próximo à última gaveta, que também possuía sua madeira marcada com o que pareciam ser... arranhões. A brava mulher retirou por completo a gaveta mais abaixo do armário, pôs sua mão no buraco escuro de onde a peça ficava e puxou pra fora um colar banhado a ouro, com um pequeno triângulo pendurado à corrente e um coração delicado entalhado no centro dele. Era o cordão que Gustavo, 8 meses atrás, havia comprado para que ela desse de presente a Helena em seu aniversário. Ação essa que Roberta não entendera na época, visto que seu marido a odiava com todas as forças, mas que a deixou feliz por vê-lo deixando os sentimentos de lado naquele momento em prol de algo bom. Mas por que Helena parecia obcecada com esse presente? O que ele tem a ver com as mensagens dela? Algo ali não fazia sentido. Decidiu sair correndo de dentro da casa deixando vazar todo o seu pavor, guardou o objeto no bolso e voltou à pensão em passos rápidos. Disse que fora liberada mais cedo pelo chefe, mas não trocou mais muitas palavras além dessas com seu parceiro o resto do dia, absorta em pensamentos.
À noite, quando o relógio marcou 10 para meia-noite, Roberta desistiu de tentar dormir. O remédio calmante não parece surtir efeito como em seu marido. Ela se levantou, pegou o notebook de Gustavo e adentrou seu carro estacionado ao lado de sacos de cimento, usados para pavimentar o modesto estacionamento em construção da pensão, depois dirigiu até o posto de gasolina mais próximo. Uma vez dentro da loja de conveniência 24 horas, a mulher comprou dois pacotes de salgadinho e se sentou em um banco de concreto aproveitando o wi-fi do estabelecimento. Ela começou sua pesquisa por sites paranormais, por fotos de corpos andantes, mensagens deixadas em paredes, inclusive sobre o colar que tinha em mãos da falecida amiga, mas nada pareceu dar avanço à sua investigação pessoal. Decidiu voltar pra casa antes que seu marido desse sua falta.
No dia 24 de Junho, às 02:25 da madrugada, Gustavo acorda aos pulos com mais gritos de sua mulher. Tenta desembaçar os olhos como consequência do remédio forte e nota que Roberta está olhando pálida para a cama onde ele dormia. O homem ouve moscas, sente um cheiro horrível e se vira para o lado, encontrando o corpo cinzento e recheado de insetos rastejantes, terra e restos de carne negra ao seu lado, com um dos braços por sobre seu quadril. Gustavo pula da cama em desespero, berrando como uma criança e se jogando para fora do quarto.
—Como que essa porra ta aqui!? — Perguntou o homem extremamente perturbado.
—Eu não sei! Eu fui no posto e quando voltei ela tava assim! Meu deus que horror! Parece até que veio... deitar do seu lado — Os olhos marejados de Roberta então se arregalaram, como se as peças começassem a se encaixar dentro de sua cabeça.
—Mas que porra! Alguém deve ter colocado ela aqui de novo! Filhos da puta!
A dona da casa surgiu espantada, caiu sentada rezando com sinais fervorosos de cruz frente ao horror da cena.
—Meu senhor, tenha piedade! Isso é coisa do Diabo! Vou chamar a polícia — Disse a senhora tentando se concentrar em pegar seu celular velho do bolso antes de ser violentamente impedida pelo homem, que arremessou o aparelho para longe.
—Não! Fica quieta que eu resolvo essa merda! — Gustavo parecia já estar fora de si — Se alguém souber disso eu juro que taco fogo nessa espelunca! — Virou-se, então, para Roberta, horrorizada com seu comportamento agressivo — Vem! Vamos enterrar ela pra sempre agora. — Disse ele puxando a mulher pelos braços.
Gustavo embrulhou o corpo mórbido de qualquer jeito, soltou a tábua da mesa frágil de madeira do corredor com a proporção semelhante a de um corpo humano, pôs o cadáver sobre o objeto retangular, enrolou alguns lençóis com a extremidade amarrada à madeira servindo como corda de empuxe, buscou um saco de cimento de 50 quilos e o tacou sobre o corpo do cadáver. Incumbiu à mulher a missão de encher dois baldes com água e buscar uma pá.
Gustavo e Roberta caminhavam para dentro da floresta neblinosa por mais uma vez. Ele carregava um balde com água em um braço e puxava por sobre o ombro oposto o tecido enrolado, fazendo arrastar a tábua com o corpo macabro e o cimento em cima, ao tempo que Roberta levava cansada a pá e o outro balde. Quando não mais se viam as luzes da estrada e da pensão ao longe, eles pararam e o homem começou a cavar, instruindo a mulher com a tarefa de criar cimento. O homem cavou com todas as forças, à plenos pulmões o buraco mais fundo que sua resistência permitia, na medida semelhante à da peça onde o corpo fétido descansava. A mulher quase em prantos misturava aos poucos água e cimento no chão da floresta, aproveitando a terra com cascalhos que se fundiam à pasta cinzenta. Quando os músculos de Gustavo latejaram, ele largou a pá trocou olhares com a mulher por 3 segundos e se voltou à missão de arremessar o ser no buraco fresco. Fez despencar o corpo já quase desfeito, com cabelos desgrenhados e olhos derretidos que se misturava à escuridão do fundo.
—Última chance de se despedir. Se tiver a agenda, acho bom jogar. — Gustavo falava com seriedade enquanto recuperava o fôlego — Se for o que você tava falando, ela deve ta vindo atrás dele.
Roberta não conseguia dizer nada, com as mãos sujas de cimento fresco, ela apenas olhava pensativa para o túmulo. Se forçou a sair do transe e olhou para seu marido.
—A agenda era só onde ela se expressava, até depois da morte — A mulher parecia recuperar a consciência — E eu achava que ela escrevia sobre mim, mas não era isso. — Helena retirou do bolso o objeto dourado, então continuou -Você tinha me falado que comprou isso aqui em uma barraca qualquer, por uma pechincha, mas eu descobri hoje que esses colares são caríssimos, vendidos pela internet. Eu também chequei o número da parte de trás... ele é original.
—Mas que porra você tá fazendo com isso Roberta!? E daí que eu comprei ele caro? Tu não me enchia a porra do saco preu tratar melhor a bosta da tua amiga!? — Augusto elevava a voz enfurecido.
—Ela me dizia que estava apaixonada por um cara que eu não conhecia e que queria se casar com ele, mas tinha medo de ser rejeitada... — Roberta endureceu o rosto — Não sou eu que ela veio buscar. Não é a mim que ela quer!
Antes que pudesse concluir o pensamento, Gustavo avançou e a estapeou com a mão pesada, o mais forte que conseguira devido ao cansaço, fazendo a mulher cair sem jeito na terra escura. Ele fechou o punho, pronto para desferir golpes mortais na esposa, mas acabou tropeçando em algo e caiu de barriga, sujando o rosto. Arregalou os olhos ao perceber que seu tornozelo estava preso por um braço quase cadavérico que emergia do buraco recém-feito. Tentou com todas as forças restantes chutar a mão que o agarrava, mas sua força era inumana. Esgoelava pela ajuda de Roberta, que se levantou sem pressa, pegou a pesada pá do chão e se aproximou do homem em desespero.
—Ela te amava! Vocês se viam escondidos enquanto eu trabalhava e quando ela disse que queria se casar com você, que não fosse mais segredo, você a matou! Sem nenhum remorso... — Roberta ergueu a pá — Espero que sejam felizes para sempre.
Gustavo mal pode entender quando a pá desceu, tirando sua consciência e fazendo seu sangue espirrar na grama úmida. A mulher segurava as lágrimas enquanto empurrava o corpo do homem pra dentro do cova escura. Deixou cair o objeto dourado junto aos dois corpos que agora se embolavam no fundo. pôs com cuidado a tampa de madeira em cima de ambos, despejou todo o cimento e cobriu tudo com terra fofa.
Roberta então, pela primeira vez, deixou vazar a alma e chorou de forma vigorosa, em posição fetal, desabando tudo o que havia segurado. Cessou o choro, se levantou encardida, recolheu a pá tingida de rubro e voltou à pensão.
Algumas semanas se passaram, Roberta se mudara. Fazia terapia e se afundava em remédios psiquiátricos. Disse à polícia que seu marido saiu para procurar Helena após ouvir vozes dela na floresta na noite de 24 de Junho e desde então não foi mais visto. A idosa, dona da estadia, confirmou o fato.
Até hoje, aqueles que se hospedam naquela pacata pensão dizem ouvir gritos de um homem abafado, pedindo por socorro, ecoando através das árvores, do coração da floresta à noite.
fim
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