Contos Monótonos de um Garoto Monótono
4 Entre cafés e uma longa espera
Notas iniciais
Tic, tac.
Tic, tac.
Tic. Tac.
Tic.
Tac.
Que barulhinho irritante, o do relógio. Todavia, só se tronava assim, tão irritante, devido ao fato de ser o único barulho possível de se ouvir. O resto todo era silêncio. Silêncio inquietante. Silêncio desconfortável, embaraçoso. Silêncio irritante.
Estavam sentados àquela grande mesa, que deixava-os todos muito distantes. Estavam sentadas três personagens, de fato, importantes. Usavam ternos. Ternos pretos. Vestiam-se bem, de fato. Formalmente. Elegantes, a palavra correta para descrevê-los. Algo um tanto óbvio, devido ao fato de serem oficiais de exército, ou algo parecido.
Duas mulheres e um homem. Respectivamente. Sentavam cada qual em um dos polos extremos daquela mesa fria, brilhante. Eis que aqui os descrevo, cada qual de uma vez:
A primeira mulher aparentava ter seus vinte e seis anos. Olhos castanhos delineados por um contorno escuro e forte. Segurava sua xícara de café, café preto, entre as mãos, como que preservando seu calor. Ah, unhas vermelhas, por sinal. Bem cuidadas, compridas e lixadas.
O cabelo originalmente descolorido de verde, porém o pintara de preto para a reunião formal. Amarrava as mechas negras em um rabo de cavalo alto na cabeça. Conservou a franja solta sobre os olhos. Representava os Estados Unidos.
A segunda mulher era um tanto quanto mais alta que a primeira. Parecia ter uns dois anos à mais, também. Olhos negros, cílios longos, pintados de um marrom avermelhado. O cabelo era ruivo, solto, deitando-se ao longo de seu pescoço. Mas não aquele ruivo laranja, o ruivo avermelhado. Parecia pintado, também. Da mesma cor das unhas da primeira moça.
Entretanto, ninguém poderia dizer ao certo, e julgavam falta de educação perguntar tal coisa. Absorvia aos poucos pequenos goles de seu cappuccino cremoso, o qual envolvia entre suas mãos enluvadas de preto. Representava a "Mãe" Rússia, como costumavam chamar o país tão amado.
Agora, o homem. Aparentava ter trinta e poucos. Tinha a aparência um pouco mais comum; não tão extravagante e espontânea quanto à das moças que o acompanharam silênciosa e respeitosamente na mesa até então. Os cabelos eram lisos e escuros, um tanto compridos e amarrados em um pequeno rabo-de-cavalo na nuca. Os olhos eram azuis. Ele veio representando o Japão.
Aparentava estar cansado devido às olheiras amarronzadas que rodeavam e decoravam os olhos. Os dedos magros e longos brincavam com a colher na xícara que lhe fora entregada. Ainda não havia dado um único gole no conteúdo. Quando lhe ofereceram algo para beber, fora o único que dissera "apenas chá, por favor". E assim lhe foi feito.
Era chá de camomila.
Por fim, depois de quase vinte demorados minutos, silenciosos, entediantes, apareçe o quarto, tão esperado, indivíduo. Ele se senta no polo vazio da mesa. Limpando a garganta, trouxe em suas mãos uma xícara de achocolatado. Desculpou-se diversas vezes pela demora.
Será que todo o povo que morava naquele país era tão desorganizado e mal-educado quanto o representante daquele país? Seria muita falta de modos perguntar tal coisa, obviamente. Mas posso lhes assegurar que, em sua grande maioria, sim, eram tão mal-educados e desorganizados, até desinteressados, quanto o representante daquele país.
Finalmente puderam começar a reunião com o indivíduo que representava o Brasil.
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