Contos Monótonos de um Garoto Monótono
5 A Arte Cura
Notas iniciais
Não importa o quão longe estarão, estes dois sempre compartilharão do mesmo fio vermelho.
Desculpem-me pela ignorancia, devem não saber o que isto significa. O "fio vermelho", digo. No Japão, existe um ditado bem comum e antigo, que diz que quando duas pessoas se amam, elas estão conectadas por um fio vermelho em seus mindinhos, que foi amarrado pelo destino.
É um ditado principalmente dito por meninas. Geralmente elas são mais propensas a acreditar nesse tipo de coisa. Não que seja besteira, não é o que eu quis dizer. Apenas quis dizer que geralmente são meninas que acreditam neste tipo de coisa.
Mas fios vermelhos a parte, estava falando de duas pessoas. Um menino e uma menina. Eles estavam ligados por este fio. Nem se conheciam quando o fio os conectou. Porém agora se conhecem. E querem saber de uma coisa? O fio continua lá, intacto. Intacto.
Outro ditado muito interessante é que a arte cura. Bom, pode ser verdade. Mas muitas vezes ela só cura pelo mesmo motivo que algumas pessoas dizem que um certo "ser superior" cura.
Simplesmente porque estas pessoas estavam desesperadas e tiveram que recorrer à algum sentido para seguir adiante, alguma coisa para ter fé.
Pode ser verdade, mas, no caso destes dois, a arte realmente teve um certo papel de curandeira, se é que posso me dar a liberdade de chamar assim. Acontece que a menina tinha muitas doenças.
Várias doenças diversas, que inclusive nem tinham nomes, ou, propriamente um motivo. Ela nasceu em Chernobyl. Era ucraniana, e foi afetada pela radiação da cidade. A mãe morreu, o que é meio óbvio.
As doenças da menina, que vale a pena citar o nome (Anastasya), eram severas e, de certa forma, assustadoras. Sua pele e cabelo eram frágeis demais para o sol. Tinha que andar com guarda-sol o tempo todo. Os olhos também, então não podia olhar para coisas que brilhassem muito. Ela andava de cadeira de rodas porque uma das pernas nasceu deformada. Não tinha um sistema imunológico, então estava sempre com uma máscara de cirurgiã na boca para não respirar ares externos.
Além de tudo isso, o pulmão não filtrava o ar direito, então andava com um nebulizador enorme no colo, que estava preso à sua garganta por uns caninhos transparentes. E mais uma coisa: ela não comia, vivia à base de soro.
Certamente, a pobrezinha deveria ser muito triste, certo? Errado.
Ela não podia sair na rua, quase não falava, e vivia na penumbra, cercada de empregados e não podia comer. Mas tinha montanhas de livros, e herdara uma imensa e infinita herança dos pais. Então, quando deu, se mudou para a França, e viveu a sua vida triste por lá, com os livros. Além disso, ela tinha muitos quadros de pinturas. E estes todos haviam duas coisas em comum:
Tinham meninas ruivas e eram todos do mesmo artista.
Alguns fatos interessantes que talvez não tenham vindo à tona: Anastasya era uma menina. Anastasya era uma menina e ruiva. Menina ruiva.
Então, meus caros, podemos deduzir que, de certa maneira, a arte cura, não é mesmo? Dado o fato de que com uma vida tão triste, Anastasya ainda assim sorria todos os dias. Todos os dias o pintor ia na sua casa. Todos os dias dava um beijo em sua testa. Todos os dias pintava-a. Todos os dias dava os quadros para ela. E um sorriso. Dava um sorriso para ela. Infelizmente, aquele sorriso ela não podia enquadrar.
Mas continuava sendo o seu sorriso preferido.
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