Contos Monótonos de um Garoto Monótono
3 Até que a Morte nos Separe
Notas iniciais
Solidão. Foi a palavra ue me veio em mente ao tirar aquela foto no "dia mais importante da minha vida". Foi o que eu soube que iria sentir dali para frente. Até a morte nos separar.
Afinal, o que é solidão? É, de fato, estar sozinho? O que é estar sozinho? Ser a única pessoa presente em um local específico? Sim, naturalmente, estar sozinho é estar em um local vazio. Mas estar solitário vai muito além disso.
Ser, ou estar solitário. É andar na rua entupida de pessoas, e ainda assim, se sentir invisível. É um aluno rodeado por vinte e cinco colegas de aula que riem, e ele não se sentir pertencente àquele lugar. É um poeta renomado que não tem uma única alma para confiar suas mágoas. É, provavelmente, a punição mais severa e cruel que um ser humano pode receber em seus intermináveis e sofridos dias entre os vivos. É o que eu senti quando tirei aquela foto.
Não houve lua-de-mel. Não houve amor. Não houve carinho. Não houveram jantares ou comemorações. Não houve um único "eu te amo". Um único sorriso, um único carinho, um único amor. Nem sequer um olhar. Nada.
Eu nem ao menos me lembro onde o conheci. Ou como. Ou quando. Não lembro de quando ele pediu minha mão. Não me recordo de o ter amado uma única vez. Não sei nem se chegamos, de fato, a nos conhecer, propriamente dizendo. E o pior. Não me lembro nem do seu nome.
Eu não sei de nada. Não lembro de nada. E, ao meu ver, ele também não parecia lembrar. Parecia tudo forçado, com falta de naturalidade. Mas não. Não foi perda de memória. Não foi a tão conhecida "amnésia". Pois, como poderia um ser humano se recordar de memórias com as quais nunca teve um contato sequer? Não sei nem porquê aceitei. Por que nos casamos, afinal? Não sei de nada.
E agora é impossível eu ao menos tentar criar laços entre nós. "Na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, até que a morte os separe." E ela separou.
Ele se foi muito cedo, cedo demais. Mais cedo do que imaginei. E agora estas enormes paredes vermelhas detalhadas com dourado ecoam solidão. A casa é enorme; o jardim mais ainda. E acho que esta solidão me custa a vida. Eu já não como mais. Não sinto necessidade. Difícilmente durmo. Não falo com ninguém faz mêses; nem ao menos sei se ainda consigo. E acho que daqui à alguns dias eu me juntarei ao noivo que eu nem, de fato, conheci.
Ele dorme no jardim. Sua cova enfeitada ao lado dos lírios amarelos que eu tanto amo. Que eu rego com tanto carinho e cuidado. Me pergunto o que será deles quando eu partir. Eles são meus únicos amigos. E a solidão. Ela continua presente. Sempre presente. Sempre aqui. Comigo. Até que a morte nos separe.
E é tão triste, tão deprimente, tão frustrante, pensar que eu quero que ela nos separe. Eu não vivo há tanto tempo; sobrevivo. Respiro à todo o custo. De fato, uma alma morta em um corpo que ainda não morreu. Não importa o que eu faça, continuo aqui no outro dia. Até que a morte venha, e nos separe, eu de minha tão cruel e sofrida solidão.
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