Contos Macabros
3 Não mexa em minha sepultura.
Notas iniciais
Paulo andava rapidamente pela calçada. O brilhante sol das três da tarde castigava sua cabeça e seu corpo. Usava um boné na tentativa de melhorar, mas isso não ajudava tanto.
Avistou um homem encostado em um poste, na sombra. Ele usava um terno discreto e um chapéu preto, além de um par de óculos escuros. O homem fumava um charuto calmamente, tranquilo.
Era aquele homem com quem Paulo queria falar, haviam marcado o encontro ali, em frente ao cemitério da cidade. Há alguns dias Paulo estava procurando trabalho, até que encontrou na prefeitura o emprego de coveiro. Não era um trabalho bom, e ele sabia disso, mas precisava de dinheiro.
Por isso Marcos, o homem embaixo do poste, marcou uma conversa, iria lhe falar todas as regras.
Os dois se encontraram e apertaram às mãos, Paulo não escondia que estava um tanto nervoso.
– E então?
– Bem, o antigo coveiro deixou uns serviços para lá e a família quer as lápides limpas hoje, você vai ter que ficar no turno da noite.
Pedro estremeceu. À noite? E se algum ladrão de túmulos aparecesse? O que ele faria?
– É pegar ou largar. – Marcos deu uma longa tragada no charuto.
–Fechado.
– Você começa ás 10 horas.
Marcos se ajeitou e saiu, antes dando uma leve tapa no ombro de Paulo. Paulo olhou para trás e viu que Marcos já havia sumido, deixando apenas uma nuvem de fumaça.
Paulo respirou fundo. Precisava de dinheiro, deixara uma dívida e precisava pagar. Achou melhor ir para a casa, mas antes deu pelo lado de fora uma espiada no tal cemitério. Havia muitas lápides, algumas sujas de folhas secas por causa das frondosas e sinistras árvores que foram plantadas ao longo do cemitério. Sentiu algo estranho em sua mão, percebeu que Marcos havia deixado, sem ele perceber, um papel na mão de Paulo. Lá mostrava a localização dos túmulos que, à noite, ele teria de limpar.
Paulo foi para casa e resolveu descansar até chegar a hora do serviço, assim ficaria mais calmo. Sempre terá um estranho receio do que vivia na escuridão da noite, com medo de ficar sozinho em casa ou até mesmo no quarto. Mas agora ele havia crescido, perdido o medo... Bom, talvez, ele achava.
Ele abriu a porta de sua casa e tirou o boné, colocando-o em cima de uma mesinha quase ao lado da porta.
Ele respirou fundo e foi até a cozinha comer alguma coisa, assim que terminou foi se deitar, estava um pouco cansado.
Sem Paulo nem perceber acabou dormindo.
Viu-se em seu quarto, havia acabado de acordar e se levantou. Olhou o relógio em cima da porta e viu a hora: 08 da noite, ainda não estava tarde. Foi até a sala e resolveu se distrair um pouco, ligando a sua televisão. Mas o aparelho não respondia, Paulo verificou se estava na tomada. Estava. Havia ela quebrado?
Pronto. Só faltava isso.
Paulo sentiu um vento em seus cabelos e olhou para trás, não havia ninguém, e as janelas estavam fechadas. Vai ver ainda estava meio dormindo e nem havia percebido. Foi até o banheiro, e lavou o rosto. Viu no espelho um vulto passar pela cozinha e olhou rapidamente par trás, mais uma vez não havia ninguém em sua casa.
Paulo coçou a cabeça. Estava ele ficando tonto? Passando mal?
Não, não era isso, se não estaria com mal estar, com certeza. Resolveu se deitar de novo, assim se acalmaria mais.
Mas se assustou ao chegar ao seu quarto, havia alguém embaixo de seus lençóis, mesmo. Como se estivesse realmente uma pessoa, ali, deitada em sua cama, enrolada.
Paulo segurou o grito, mas havia aprendido que nesse tipo de situação, fosse o que fosse sempre procure se acalmar.
– Quem é você?
O terror tomou conta de sua alma e Paulo se segurou para não cair de susto. Quem teria invadido sua casa e ido para sua cama sem que ele percebesse? Iria gritar, mas foi surpreendida pela “coisa”, que se levantou, ainda coberta pelo lençol. Uma risada diabólica foi escutada e Paulo caiu no chão.
Paulo acordou sobressaltado em sua cama. Tudo não passara de um mero pesadelo. Ele passou a mão na testa e riu baixinho de seu próprio medo.
“Você já é homem Paulo” Pensou para si mesmo, mas no fundo sabia que estava nervoso. Pegou o relógio de pulso que estava no criado-mudo e olhou a hora: 21:30.
Era melhor se apressar., já estava quase na hora. Saiu de casa e deu mais uma rápida olhada na sala antes de fechar a porta. Que diabo de sonho havia sido aquele? Bom, talvez um pesadelo normal, como os que Paulo tinha quando era menor. Ah, os pesadelos, quase o enlouqueceram. Uma vez sonhou que uma mulher desdentada e sem cabelo tentava o asfixiar, depois sonhou que um esqueleto invadia seu quarto pela janela em uma noite chuvosa e o ficava observando por toda a noite, mesmo aterrorizantes.
Ele seguiu para o cemitério local. Antes de abrir a porta respirou fundo. Ao entrar, um vento gélido o envolveu. Apertou mais seu casaco e adentro o local. As portas se fecharam atrás dele e ele só teve o trabalho de trancá-las, bom, era uma pequena vantagem, ou não.
Pegou o papel que Marcos havia lhe dado e foi para a primeira tumba. Era uma catacumba branca, com azulejos mofados e tomados por lodo nos cantos. No entanto o trabalho naquele túmulo era apenas tirar as folhas de cima, que caíam de uma frondosa e sombria árvore ao lado. Ele foi até a casinha e pegou a vassoura, começando seu trabalho.
Era simples, qualquer um veria isso, mas parecia que as folhas secas eram intermináveis, algo que fez Paulo estranhar.
Continuava com seu trabalho quando de repente escutou um barulho de baque, vindo do chão. Iluminou o chão tomado por folhas com a lanterna, mas nada viu. Paulo voltou então ao seu trabalho, não podia ficar flauteando por bobagens de sua mente.
Porém o barulho se repetiu. Dessa vez Paulo foi rápido o suficiente para ver que o que se mexia estava embaixo das folhas secas. Ele se agachou e limpou o local, e se assustou ao ver um alçapão misterioso, que tentava abrir, mas estava trancado. Paulo ficou paralisado de medo. Iria correr, mas as pernas já bambas não deixavam.
Resolveu abrir o alçapão, para ver o que seria talvez fosse um rato muito grande ou uma cobra, quem sabe. Ele tirou a alça e o alçapão se abriu de súbito.
Paulo olhou para dentro do lugar, era uma escada, que levava a um túnel, que por si levava a parte debaixo da catacumba.
– Quem fez isso? – Ele indagou para si mesmo.
Tinha de entrar e investigar, ver o que seria aquilo. Ele desceu as escadas enquanto o cemitério estava em absoluto silêncio, apenas alguns sapos coaxavam, mas Paulo não conseguia vê-los.
Depois de passar pelo corredor se deparou que ficava exatamente embaixo do túmulo. Lá havia um caixão no chão, e dava para perceber que estava sem tampa. Paulo tentou sair dali, mas o alçapão se fechou, deixando ele lá, preso.
– Venha até aqui. – Falou uma voz sinistra e rouca, deixando Paulo assustado.
Foi olhar o que era nervoso. O caixão continuava do mesmo jeito. Paulo tentou gritar, mas o grito não saia.
– Venha até aqui – Agora deu para perceber que a voz vinha do caixão.
– Venha até aqui! –Gritou a voz.
Paulo se aproximou mais do caixão e viu um corpo já um tanto descomposto, era o morto. Paulo olhou bem nos olhos do defunto e viu que eles brilhavam. A boca desdentada se mexeu e deu um sorriso simples, o morto articulou uma frase.
– Não mexa em minha sepultura...
Paulo tentou mais uma vez fugir, mas o alçapão continuava fechado, seria necessário muita força física para arromba-lo.
Olhou para trás e viu o corpo agora em pé, caminhando em sua direção. Em sua boca estava um sorriso maléfico.
Fale com o autor