Contos Do Livro Da Sabedoria
2 Conto 02 - Tyumon e a Árvore Falante
Notas iniciais
Boa leitura.
Há muito tempo atrás um digimon pequeno e rosado, chamado de Tyumon, vivia em uma floresta.
Tyumon era conhecido pelos viajantes como o saqueador dos despreocupados, logo todos os digimons viajantes eram avisados por sua tripulação que tomassem cuidado em suas viagens ao passar pelas florestas, pois o ‘saqueador dos despreocupados’ podia tomar-lhes tudo o que tinham. No entanto, o que muitos digimons desconheciam, era que Tyumon não passava de um digimon travesso e tremendamente esperto que utilizava da despreocupação dos outros para roubar pertences para si.
Um belo dia, um Falcomon viajava solitário por entre as árvores em direção às montanhas, e para evitar preocupações durante sua viagem, o mesmo já se precavera a carregar comida suficiente consigo enrolada em um pequeno pano amarrado em sua pata. Por volta do horário pico do dia, Falcomon decidira que era hora de descansar, e assim pousou despreocupado na grama e aconchegou-se à sombra de uma árvore.
Notando subitamente a despreocupação do digimon viajante, Tyumon instantaneamente se dá conta de que ele carregava consigo uma boa quantidade de frutas enroladas em um pedaço de pano e, preguiçoso por buscar comida, resolveu aproveitar a oportunidade para furtar o alimento de Falcomon.
Falcomon, que descansava confortavelmente na sombra da árvore, nunca ouvira falar de Tyumon e sua esperteza, de tal forma desconhecia o medo e precaução dos outros digimons ao parar para descansar em uma floresta, digimons esses que acreditavam que esse poderoso habitante da floresta era capaz de observar tudo o que por lá ocorria, tomando para si os pertences de todos os que adentravam na floresta despreocupados, assim como Falcomon estava no momento.
De fato, Tyumon não era um mito, porém a imaginação dos amedrontados digimons engrandecia o pequeno e covarde ser que nada sabia fazer além de enganar seus inimigos com trapaças, roubando seus objetos sem que notassem.
Todavia, Falcomon possuía um sono leve e por experiência contra vários tipos de condições de tempo, mecanicamente puxara mais para si o pano com frutas com sua outra pata e, ao fazer isso, despertou rapidamente percebendo a presença do digimon rosado sobre sua comida, pulando para trás assustado.
Rapidamente Tyumon materializou e disparou um pedaço de queijo cheio de buracos maior que si em direção ao Falcomon que, com uma velocidade ninja, jogara pequenas bombinhas verdes que estouraram ao colidir com o pedaço de queijo no ar, provocando assim uma intensa cortina de fumaça.
Como planejara, Tyumon dava cabo a sua fuga, contudo ele não esperara que Falcomon fosse treinado para agir rápida e silenciosamente mesmo quando não pudesse ver, e assim, Falcomon capturara Tyumon com facilidade antes mesmo que esse pudesse escapar pela árvore.
Minutos depois, Tyumon acordara cambaleante em uma floresta escura por um denso nevoeiro. Não se lembrava de como fora parar ali, só se lembrava que se assustara ao ser forçado a engolir um alimento amargo ao ser capturado por sua vítima, e agora, sem saber o que fazer, Tyumon caminhou à espera de enxergar o ambiente com mais facilidade a partir do momento que começasse a se mover, porém foi interrompido de seus devaneios por uma senhoril voz onipresente:
– Diga-me o seu nome e o que veio fazer aqui?
Assustado com a majestosa voz que parecia vir de todos os lados, Tyumon sentiu estar diante de algo desconhecido e, pela primeira vez, não sabia o que fazer.
Decidido a ignorar a voz como parte do fruto de sua imaginação, Tyumon continuou seu trajeto procurando esperanças entre o nevoeiro assim que pudesse enxergar o ambiente que se encontrava, e dessa maneira encontrar o caminho de casa.
– Diga-me, o que fazes aqui?– Pronunciou a misteriosa voz bem mais intensa que da última vez.
Impossível de ignorar seu coração apertado que batia sincronizado com os movimentos do chão, que por sua vez também tremia como se um ser gigante estivesse a dar passos em sua direção, Tyumon já não tinha mais como fingir que aquela voz era fruto de sua imaginação, ou deixar de lado o medo que sentia dela no momento. Olhou atentamente por todos os lados à espera de poder enxergar qualquer vislumbre possível que denunciasse o dono da majestosa voz, mas nada foi encontrado além da densa neblina que permanecia no ambiente.
– Aaahhh siiim... Você entrou na minha terra para saquear os meus visitantes e fazer mal aos meus habitantes...– dizia a voz cada vez mais perto e mais alta, de tal forma que parecia analisar aos poucos o pequeno digimon.
Seu pequeno corpo todo se estremecera dessa vez, e Tyumon cambaleara naquela terra fria e úmida, sentindo mais intensamente o ser da neblina mais próximo à medida que o solo balançava sobre seus pés como papel sendo levado pelo vento.
Tyumon suava aterrorizado enquanto olhava para os lados e para cima à procura daquela voz respeitosa que chegava mais perto, mais perto, e mais perto até poder sentir seu hálito frio que se fundia a neblina e a umidade do ambiente, vindo sem dúvidas de uma boca enorme que o engoliria facilmente sem precisar mastigar.
– Não, não... Eu não roubei ninguém... — apressou-se a explicar Tyumon, enquanto parecia suplicar por inocência.
– MENTIROSO!– dessa vez a voz saíra quase como um rugido em resposta ao apelo do pequeno digimon.
– E...e...eu juro... ju...juro... eu juro, não tive a intenção de roubar ninguém e... — calou-se de repente o apavorado digimon, ao notar pela primeira vez um grande par de olhos amarelos vindos de cima e dentro de um grosso tronco de árvore a sua frente que o olhavam com superioridade, revestidos pela neblina cinzenta lhe dando uma aparência ainda mais sombria.
Entretanto, o mais assustador não eram os olhos, pois sentia dessa vez a respiração do enorme digimon e quase deu um grito ao perceber que não havia nenhum digimon dentro da árvore, era somente a própria árvore que tinham olhos amarelados penetrantes, olhos esses acima de uma fenda ou rachadura que naquele instante se abriu ressecada, dando em seguida uma visão assustadora de dentes enormes e brancos que cobriam a voz autoritária.
– Como punição por seu ato: você será banido para as profundezas da terra, se tornará a escória do digi-mundo, tendo de se esconder dos outros para que possa sobreviver enquanto se alimentará de restos para que consiga manter sua existência.
Tremendo de cima a baixo, o digimon sem fala clamava por piedade com seu olhar quando a enorme árvore a sua frente fizera um brusco movimento causando estouros no solo ao redor do pequeno Tyumon.
Tyumon fora jogado para longe cortando o ar em uma velocidade jamais imaginada alcançar algum dia, e antes mesmo de dar-se conta de que seu fim poderia ser naquele momento, ele apagou ao colidir a um firme monte de terra.
Acordou fraco sem ter noção de quanto tempo havia se passado. Tyumon ainda assombrado olhou ao redor à procura do nevoeiro e da assombrosa árvore que o atacara, porém, tudo que conseguia ver, era nada mais que uma luz lá no alto que iluminava seu solo em pedaços.
Atento a qualquer som, ruído, movimento ou cheiro, Tyumon já sentia um odor pútrido que vinha de algo brilhante que escorria um pouco mais à frente. Ao se aproximar, viu uma imagem surrada de si, e só então ao tocar, notou que não era um espelho, era um líquido, um líquido viscoso e fedorento que lhe mostrou algo a mais que sua imagem acabada: refletiu a negritude do céu a uma considerável distância de seu rosto surrado. Sim, foi fácil concluir após essa imagem, ele estava dentro de um abismo, um abismo cercado por colunas de terra quase coladas e, seria uma tarefa impossível para um pequeno digimon como ele, conseguir ajuda naquela fenda no chão em que se encontrava, além do mais, quem o ajudaria? Passara a vida causando medo e tensão aos digimons que nesse momento poderiam vir a ajudá-lo. Nãããoo, seria bem mais seguro encontrar seu caminho sozinho, tão sozinho como estava naquele ambiente que o castigava a cada segundo com um cheiro mortificante de coisa podre e morta.
Sem saída sentiu que devia abrir os braços para aquele ambiente podre assim como a sua mais nova imagem, um rato rosado e surrado com um olho roxo.
Portanto seguiu direção contrária ao filete de córrego de esgoto a sua frente, torcendo por achar uma saída até o nível certo do solo, nível onde habitavam outros digimons que a esse momento não o temeriam jamais e o repulsariam para sempre.
Dias e mais dias caminhou por aquele ambiente que parecia não ter fim, sua mente inteligente já afetada pela solidão. O pequeno digimon só tinha como companhia a si mesmo. Até que parou, já devia estar na hora do descanso, bebeu então um pouco daquela água com terra sem ligar para seu fedor, muito pelo contrário, aquele cheiro lhe dava um sopro novo de vida a cada gole que escorregava por seu pequeno pescoço.
Descansou então por alguns minutos e tomou caminho enquanto se alimentava de restos orgânicos que encontrara a pouco na água, sentiu-se novamente feliz após a refeição, aumentando de tamanho e encontrando outros ratos rosados com quem compartilhar sua sabedoria.
Notas finais
Como deve ter notado, esse conto bem retrata estórias infantis que apresentam a famosa moral na conclusão, portanto, qual foi a SUA moral de conclusão? A interpretação fica a seu encargo, afinal, a diversão é somente sua!
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