Contos Diversos Volume 1.
21 Terceiro Conto - Arthur e sua epifania
Terceiro Conto – Arthur e sua Epifania.
Capítulo Um – As melhores experiências de sua vida.
Uma vida rotineira me espera todo o santo dia, não que eu reclame, eu tenho sérios problemas em mudar de ritmo e de certa forma é também gratificante, faz cinco anos que me mudei do interior para cidade grande, conquistar o verdadeiro sonho, ser dono do próprio nariz, sair das asas de seus pais, era isso que eu esperava em minha vida, já formado em administração eu pude comprar um apartamento simples em um lugar bem localizado no centro da cidade e mesmo que eu não tivesse dinheiro para tirar um carro me virei com os transportes públicos, posso dizer que nessas viagens conheci muita gente. Por ser do interior eu tenho certo costume de conversar com qualquer um que sente ao meu lado, não que isso agrade as pessoas que entram no ônibus, algumas delas apenas querem seguir sua viagem calada, mas a maioria troca várias experiências comigo.
Como o senhor Roberto, um idoso de cinquenta e três anos que havia passado por três operações no coração se lembrava de muito bem coisas de quarenta anos atrás como se ele tivesse vivido essa fase ontem, ele me disse sobre um plano de lavagem de dinheiro e como o prefeito naquela época foi levado pelas autoridades, fiquei impressionado com tantos detalhes ele pronunciava aquela prosa, na realidade eu acredito que os senhores que viveram quarenta anos atrás tem mais facilidade de detalhar suas histórias e cenários que os jovens de hoje em dia (eu posso me realocar como jovem, afinal eu só tenho vinte e cinco anos), mesmo vivendo nessa época, a época tecnológica, trouxe mais burros funcionais do que antigamente, afinal de contas para as pessoas de hoje em dia, acreditam que eles não têm obrigação de saberem de tudo e levam isso ao pé da letra, não é a toa que crianças hoje em dia procuram um resumo ou uma adaptação de um livro em filme do que ler o próprio livro.
Conversei com uma mulher chamada Jéssica e como seus filhos a deixava louca, apesar disso ela sempre foi autoritária a ponto de avisar seus filhos com apenas um olhar, mesmo que eles aprontassem tanto que fizesse Jéssica perder dias do seu trabalho indo ao colégio para tentar justificar a falta de educação das crianças, como eu disse, os tempos são outros.
Cada história, cada fragmento de memória me deixava alegre, deve ser por isso que eu conversava com tanta gente desconhecida, então caro leitor, esqueça-se da parte sobre eu ser do interior.
O ponto é. A minha história mal começou.
A matriz que eu trabalho não é tão relevante assim, ela cuida apenas da logística de empresas de lâmpadas e a parte contável fica por minha parte, não era o que eu esperava do meu emprego já que eu prestei para administração, mas aquilo já quebrava um galho, pelo fato do setor ser pequeno eu conhecia praticamente todo mundo naquele escritório.
Tinha o Barnabé, nós amigavelmente o chamávamos de Obama, era notável perceber a semelhança entre ele e o presidente dos Estados Unidos, Agatha, apelidado de turista, ela era tão discreta no trabalho que nunca sabíamos se ela veio ou faltou, deve ser por isso que o apelidamos de turista, de uma vez ou outra ela se destacava, Rafaela, seu apelido era novata, isso porque ela era sempre atrapalhava e não tinha um dia sequer que ela sujava um terno ou camisa de alguém derrubando café, decidimos não pedir que ela trouxesse mais café por esse motivo, teve gente no setor que teve queimaduras de primeiro grau com as atrapalhadas dela. Arthur (este sou eu) ou gigante, acredito que seja para zoar com o fato de eu ter uma estatura baixa, não que eu seja um anão, apenas não incide ao padrão masculino, e por ser magrelo demais sempre sou taxado de vareta, taco de bilhar e por aí vai (não que isso me insulte, eu tenho que concordar que os apelidos são criativos).
O fato de o escritório ter apenas quatro empregados dificultava nosso trabalho já que o montante de documentos não correspondia ao nosso expediente, é por isso que o Rh nos apresentou mais três funcionários, Helena, João e Douglas.
João e Douglas eram uns tipos de pessoa insegura, isso era normal já que era o primeiro emprego dos três o que me deixou confuso de acordo com Helena, ela parecia mais confiante, está certo que ela havia saído de um estágio de um ano em uma empresa multinacional, mas algo chamava sua atenção, algo em meu interior que dizia nitidamente, “vamos lá, conheça ela, conheça sua história, suas experiências, sua vida.”.
Eu não diria que estava apaixonado, apenas instigado, sempre gostei de ouvir histórias tanto é que citei algumas que ouvi enquanto andava de ônibus e pelo fato de ela ser uma pessoa completamente diferente eu queria conhecê-la, aquilo era um mistério.
Eu não pude me apresentar nesse dia, estava atolado de trabalhos e o fato dos dois novos funcionários estarem mais perdidos que cego em tiroteio não ajudava em nada, no entanto a desempenho da Helena foi surpreendente. Ela não só encerrou seu trabalho há tempo e ainda auxiliou no trabalho de Agatha que por sua vez demonstrava certa ingratidão em seu olhar.
Sexta feira era o dia em que nós saíamos para beber algo no bar e jogar conversa fora, eu estava tentado a recusar, mas minha voz rotineira me empurrou junto com eles, era praticamente toda a sexta que mergulhávamos as nossas mágoas e alegrias em bebidas alcoólicas, ou o que quer que seja nunca fui fã disso por exemplo. Tudo corria bem até eles tocarem no assunto dos três novos funcionários, eles falaram até bem de Douglas e João, mas quando chegaram à Helena, foi uma enxurrada de criticas, após vários insultos gratuitos Barnabé interrompeu.
– Não diga isso na frente do Arthur, parece que ele gosta dela.
– Quem ti disse isso? – Eu gaguejei.
– Todo o expediente você não tirou os olhos dela, e estava quase babando que eu sei.
– Para de ser idiota, o que me interessa não é ela, é sua história.
– Desista Arthur, ela é uma víbora, você merece algo melhor. – Comentou Agatha.
– Para que tirar conclusões precipitadas? Ela não esta nem uma semana na empresa.
– Pois é! Ela não está nem uma semana e ela já me fez odia-la. – Acrescentou Agatha.
– Eu não a acho uma má pessoa, ela até me deu dicas de autoconfiança. – Comentou Rafaela timidamente.
– Viu só? Ela nem conhece o processo da empresa e já quer ser a dona da verdade, como eu odeio aquela vadia. – Reclamou Agatha.
– Você poderia tentar se der bem com ela, talvez vocês se tornem grandes amigas. – Disse Rafaela.
– Desencana, ela e eu somos como água e óleo. Desista Arthur, você merece algo melhor do que essa mulher.
– Mas que raios, eu já disse que não tenho interesse amoroso com ela, apenas quero saber de sua história.
– Não é o que parece, você sempre a olha com olhos maliciosos.
– Como assim?
Barnabé e Rafaela mostraram os olhos maliciosos.
– Eu não fico com essa cara de bocó.
No dia seguinte eu estava a encarando sem perceber, de alguma forma imaginei que ela contasse por conta própria suas experiências e em paralelo, Agatha me encarava com um olhar de desaprovação enquanto Helena era mais desvairada, não se importava em ser odiada ou amada, apenas estava ali fazendo seu papel, imagino o que ela estaria pensando naquele instante.
Um montante de documentos foi posicionado na minha mesa o que me fez pular da cadeira, estava perdido em meus devaneios quando Helena fez o favor de me acordar.
– Preciso que você olhe esses documentos para mim, por favor, preciso de seu registro no quanto inferior das folhas, você está bem? Parece pálido.
– Não, é que... – Não pude responder, eu enrolei a língua.
– Se quiser eu ti auxilio nesses documentos.
– Não, tudo bem, obrigado mesmo assim.
Após terminar meu serviço eu fui até sua mesa entregar os papéis e não pude deixar de notar a tela do Word com uma pergunta na primeira linha.
Recite as melhores experiências de sua vida.
– Recite as melhores experiências de sua vida. – eu li em voz alta.
– Você tem mania de ficar xeretando as coisas dos outros? – Indagou Helena.
– Não, é que... – Novamente enrolei a língua.
– Brincadeira seu bobo, você devia tentar, apesar de que isso é apenas um exercício psicológico que eu estou fazendo.
– Exercício psicológico?
– Sabe. – Ela girou a cadeira até poder me encarar de maneira ereta. – Você fazer uma lista das melhores experiências de sua vida e depois tentar revivê-la, você devia tentar!
Eu acabei gostando da ideia, então eu fui até a minha mesa, abri uma página do Word e escrevi aquela pergunta. Surpreendentemente eu não pude escrever nada, eu conhecia as aventuras de muitas pessoas, mas não tinha nenhuma para descrever naquele papel em branco.
Desolado em não saber minha própria história, voltei ao meu trabalho e acabei ficando mais que o expediente, logo antes de sair eu percebi que ela havia esquecido o caderno na escrivaninha, por sorte estava escrito o endereço dela, eu olhei para o relógio e percebi que não estava tão tarde e então pensei em passar na casa dela e entregar o caderno dela, mas algo me dizia que aquilo não era uma boa ideia, e se fizesse pensar coisas estúpidas, eu ignorei esses pensamentos negativos e o fato de eu quebrar a minha rotina e fui até a casa dela. Estranhamente aquele endereço era familiar, e logo percebi onde se tratava, era o mesmo prédio que eu moro, no entanto eram uns dois apartamentos depois que o meu no mesmo andar.
– Não acredito que ela é praticamente minha vizinha? Eu dei uma volta à toa. – pensei.
– Apenas acalme só dizer que ela esqueceu o caderno e que não pense sobre coisa ruim, que eu sou seu vizinho e por isso aproveitei a via... – enquanto treinava a minha fala ela abriu a porta.
– Oi, Arthur?
– O caderno... Você esqueceu... – Enrolei a língua novamente.
– Que amável, obrigada, você não quer entrar?
– Não... É que...
– Talvez eu ti ajude a criar a lista das melhores experiências de sua vida.
Eu não pude deixar a malicia de lado.
–O que é isso mulher, eu sou um homem de respeito.
Ela começou a gargalhar.
– Isso não tem graça.
– Não é neste “sentido” seu bobo, vamos, entre, eu irei explicar com mais detalhe.
Não tive escolha a não ser entrar, eu percebi que o café estava coando, como se ela soubesse que iria receber visitas.
– A lista, o caderno e o fato de eu morar perto de ti estava sendo planejado.
– Do que você está falando?
– Oras. Eu o conheço bem você quer mudar de vida, quer se arriscar, e é por isso que estou aqui, para ti ajudar a fazer na lista.
– Não no sentido pervertido. – eu deixei bem claro. – E de onde você me conhece?
– Eu vigiei seus passos, eu sei suas rotinas e o que você faz ou deixe de fazer.
– Isso está me assustando, mas me diga, aonde quer chegar?
– Vou dizer de uma maneira bem clara, você é um diamante bruto e eu irei lapidá-lo até se tornar uma pedra preciosa em minha coleção.
Aquilo era mais estranho do que poderia ser.
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