Notas iniciais
Tema: Troca de corpo. Dupla: Sis e Elizabeth. Boa leitura!

Outro dia...

Seus olhos se abriram lentamente sem conseguir entender as imagens se formando a sua frente e então se fecharam novamente pesados pelo sono ainda preso as pálpebras.

Por minutos a jovem permaneceu deitada na mesma posição enrolada nos cobertores se perguntando se deveria mesmo acordar tão cedo. Seu corpo parecia cansado de esperar pela resposta que ela se recusava a encontrar e com dificuldade se esticou mandando avisos para cada músculo que era hora de sair dali.

Com bocejos e olhos carregados, se sentou na cama encarando a parede branca à frente. Com demora sua visão foi tomando consistência a fazendo ver o enorme quarto iluminado pela fraca luz da manhã atrás das janelas fechadas. Seus olhos piscaram tão rápido quanto sua cabeça se movimentou para os lados. Havia outras sete camas ali, todas ocupadas por criaturas que aparentemente dormiam.

— Que.. – sua voz quase não saiu e sua expressão incógnita continuava a encarar os corpos ao redor.

As mãos foram até seu rosto esfregando como se não conseguisse acreditar no que estava vendo. Ela tentou puxar em sua memória dormente algum fragmento que respondesse o porquê de estar ali, porém não conseguiu.

Frustrada derrubou os ombros fitando os lençóis quando seus olhos captaram suas próprias mãos. Sua pele era muito mais branca do que deveria ser e seus dedos, apesar de finos como sempre, eram mais delicados com unhas pintadas em rosa e sem qualquer vestígio de sujeira ou machucados.

Seu corpo reagiu a surpresa pulando da cama e correndo em direção a penteadeira no canto do quarto. Seu reflexo ainda estava escuro, mas a permitiu ver claramente o cabelo branco que parecia uma juba, as orelhas, a cauda de felino felpudas e os grandes olhos azuis descrentes a encarando. Ela não era ela.

— Elizabeth? – Uma voz calma chamou pelo nome que não era dela a fazendo mover a cabeça lentamente na direção.

O homem já estava sentado na cama e não aparentava ter qualquer resto de sono como se estivesse acordado há tempos. Seu cabelo branco liso não estava bagunçado e seus olhos vermelhos interessados não estavam cansados. A garota o encarou em silêncio tendo certeza de que não estava tendo o pior dos sonhos.

Se lembrou que ontem ela se deitou em sua cama depois de brigar pela terceira vez com a colega de quarto Damn e dormiu. Não tocou em nenhum item magico e nem participou de qualquer feitiço então como estava agora no corpo da criatura que mais a irritava depois de Damn?

— Elizabeth, está tudo bem? – A voz persistiu, agora preocupada, a fazendo vê-lo se mover para a beirada da cama. — Aconteceu algo?

— Não... – o som de sua própria voz delicada a assustou fazendo se calar por instantes. — Ah... Aconteceu nada não...

Ele continuou a encarando, porém com os lábios separados como se não acreditasse no que ouvia. A garota percebeu que devia ter feito algo errado e rapidamente procurou por uma saída.

— Preciso... ir no banheiro.

— Eliza-

O som da porta se fechando interrompeu sua voz assustada enquanto a garota do outro lado segurava a maçaneta sentindo os lábios secarem.

— Por que que- Pera! – Se interrompendo, arregalou os olhos ao ver uma ideia cruzar sua mente. — Se eu tô nesse corpo então...

Em outra casa naquela mesma vila uma outra jovem sentada numa cama bem menor se perguntava o que fazia ali. Havia um curto sorriso em seu rosto observando os rostos pacíficos dormindo ao seu redor quando ouviu a porta da frente se abrir.

Sua cabeça inclinou para o lado encontrando o rapaz de cabelo curto, olhos azuis como os dela e marcas vermelhas no rosto que ela conhecia bem.

Seus olhos brilharam ao vê-lo, porém ele não fez o mesmo ao encontrá-la.

— Endo, bom dia. – Embora seu sorriso largo tenha o assustado foi ela quem se calou assim que ouviu a própria voz.

— Nem vem que não tenho nada pra você. – Com as sobrancelhas levantadas, respondeu a saudação como se não desse importância a jovem.

— O que... – com as mãos sobre os lábios quase sussurrou ao se perguntar aquilo antes de se virar para ele novamente. — Poderia me dizer o porquê estou aqui?

— Que?

— E minha voz? O que aconteceu? Eu estava em casa e não me lembro de ter vindo para cá ontem. – Comentou confusa o vendo seguir para a cozinha.

— Que? Bateu a cabeça dormindo Sis?

— Sis? – A pergunta soou alta fazendo alguns corpos se mexerem, porém isso não a impediu de se levantar ainda mais abruptamente daquela cama.

O grito o fez voltar entediado para o cômodo só para encontrar a expressão assustada dela no meio do quarto.

— Cê tá bem?

— Eu... Licença. – Com passos rápidos correu até o banheiro em frente ao quarto deixando a porta aberta enquanto buscava pelo espelho para se ver.

Olhos grandes esverdeados a fitava vendo o curto cabelo negro mal cortado e as orelhas felpudas de raposa. Dando um passo para trás colocou a mão nos lábios vendo as unhas pretas comidas e os vários cortes nos dedos.

— Ai, nossa...

— Sis?

Ao lado da porta Endo chamou confuso a fazendo o encarar balançando a cabeça negativamente.

— O que foi?

— Eu... – engolindo o pânico tentou respirar fundo já sabendo o que deveria fazer. — Desculpa, tenho que sair.

Sem nem se importar com o pijama curto que vestia ela seguiu rapidamente para a porta de entrada saindo em disparada pela vila quase deserta da manhã.

Seu raciocínio foi tão rápido quanto o da outra como se, apesar de seus corpos terem sido trocados, suas mentes trabalhassem juntas.

As casas não eram tão distantes e logo foi possível ver que ela não era a única com pressa. Assim que viu a jovem felina descabelada correr descalça em sua direção, ela parou. Seus olhos se arregalaram e sua voz desapareceu. Era assustador se ver parada a sua frente. Era totalmente diferente de um espelho onde o reflexo te acompanha e você sabe que é você.

Parada do outro lado a garota viu uma expressão que nuca tinha feito em seu rosto. Ela não era ela, mas estava ali. Não queria admitir, mas também sentiu o frio em seu peito.

— O que cê fez? – A felina Sis questionou desconfiada.

— Eu?! – Estava desesperada desde que ouviu Endo lhe contar a verdade e não tinha ajustado seu tom de voz ainda. — Como pode me culpar? Quem entende de magia é você.

— E por que eu faria isso?!

— E por que eu?

A cada frase que terminavam se calavam por instantes como se tivessem medo de se ouvir falando em vozes que não eram delas.

Não tinha como ficarem se culpando para sempre. Sabiam que nenhuma delas faria algo assim, não se suportavam perto imagine dentro uma da outra.

— Então? – Elizabeth resolveu continuar a indagar as perguntas na esperança de conseguir encontrar alguma solução. — Como desfaz?

— E eu que sei?

— Como... Você não é uma feiticeira? – Estava tão desesperada que tinha perdido a compostura mostrando sua irritação na voz alta. — Não pode fazer nada?

Sis a encarou em silêncio por alguns instantes vendo tanto sua face expressar coisas demais quanto se perguntava se realmente deveria responder aquilo.

— Olha, – coçando o nariz começou deixando a outra em pânico — se isso aconteceu do nada então vai embora do nada.

— O que-

— É sério! Eu vivo aqui há muito mais tempo que você e sei como as coisas são doidas. – Seu tom sério a calou, mas não diminuiu a frustração em seu peito. — A gente só tem que aguentar e se amanhã não passar... Eu vou pedir ajuda.

— Ok... – Suas afirmações eram tão vagas, porém eram seus corpos em jogo e isso era o suficiente para a fazer confiar. — E agora... Trocamos de casa? – A pergunta a fez perceber a situação e um sorriso brotou.

— Não... Eu vou fingir ser você.

— Eu realmente não quero isso.

— Você não tem escolha. Porque o que quer que fale eles vão acreditar na “Elizabeth”. – O olhar convencido incomodou a pequena tanto por saber que estava de mãos atadas quanto por ter que concordar.

— Tá! Mas... Só pare de fazer isso com o meu nariz. – Apontou com uma expressão impaciente fazendo a jovem perceber a atitude.

— Ah... Tá, mas a Sis faz isso. – Riu já se afastando dali fazendo Elizabeth notar o que teria de passar o dia todo fazendo. — Até amanhã, otária.

• • •

Calmamente Sis voltou para a casa aproveitando o tempo para observar melhor aquele corpo. Tudo nele era delicado. As mãos de palmas macias, os pês de boneca doendo por estarem descalços, as pernas firmes e o rosto de maças altas que pareciam terem sido esculpidas pelo melhor artesão.

Ela suspirou alto quase em um urro irritada com tudo aquilo. Ela não era assim, não vestia roupas elegantes e nem se preocupava com a aparência – não mais.

Cansada empurrou a porta com o corpo fazendo barulho nas dobradiças. Mais um suspiro saiu, porém dessa vez o rosto não ficou emburrado por muito tempo ao ver os rostos a esperando na entrada.

Seus olhos conseguiram ver 4 homens, todos considerados família pela jovem Elizabeth. Sis viu as expressões desorientadas e se perguntou o que faria agora diante do problema.

— Elizabeth! – Gritando tão enfurecido quanto preocupado, Vicent, o homem com quem falou de manhã, foi o primeiro a se manifestar. — Venha aqui.

— Onde você foi? – Mais calmo Mischief, o abissal, perguntou mostrando um olhar confuso.

— Ali.

— Ali? – Indignado com a forma despreocupada da garota, Vicent continuou a falar. — Elizabeth, você me disse que ia ao banheiro!

— Calma. – Tentando diminuir a tensão o abissal se aproximou do amigo o fazendo notar o desespero. — Aconteceu algo, Liz?

— Não...

— Você sabe há quanto tempo estamos esperando? – A gritaria chamou a atenção dos demais moradores que com calma se aproximaram do cômodo. — Como você sai desse jeito sem avisar?!

Era a primeira vez que Sis tomava broncas assim. Ela sempre se envolveu em perigos e conseguia lidar com as ameaças sem medo, sem nunca ter alguém para se preocupar se voltava viva para casa então estar nessa situação a fez se arrepender de sua decisão. Entretanto, essa gritaria continua também a fez se perguntar se era assim que deveria ser ter pai.

— Elizabeth, estou falando com você. Olhe para mim!

Lentamente ela levantou o rosto mostrando uma expressão tão aborrecida quanto desafiadora que nunca tinham visto na felina. O rosto do homem a sua frente escureceu entendendo aquilo como um ato desrespeitoso.

Ela pensou em perguntar qual era o problema dele fazendo tanto escândalo, mas tinha decidido ser a outra por hoje. Engolindo o orgulho suspirou antes de prosseguir.

— Desculpa.

Havia incomodo em sua voz, não arrependimento que todos perceberam.

— Liz... – a voz grave no fundo chamou seu olhar quase automaticamente. — Tá bem?

A garota não tinha notado a presença de Daichi, o maior dos moradores daquela casa tanto em altura quanto em músculos e quem mais a intimidava. Porém assim que seus olhos o encontraram ela recuou mordendo os dentes.

— Tá! Tô!

A gagueira incomum surpreendeu o restante instantaneamente. A felina sempre o amou como um tio, mas agora parecia falar com um fantasma.

— Eu fui tomar ar. – Enquanto respondia seus olhos corriam de um lado a outro procurando, novamente, uma saída. — Vou no quarto!

— Liz, não corre! – Assim que a viu disparar em direção a escada, Mischief gritou, mas acabou sendo ignorado. — O que deu nela? Foi você?

— Eu?!

Enquanto os dois discutiam Vicent permaneceu parado olhando o local por onde ela tinha percorrido com os olhos semicerrados como se soubesse que havia algo errado ali.

Desesperada a jovem correu batendo a porta atrás de si apoiando o corpo contra a madeira. Ofegante encarou o chão contente por ter conseguido escapar de toda aquela gritaria até notar o garoto sentado na cama do canto.

Hayato, o felino de pelagem castanha e olhos âmbar, a encarava confuso. Se ela não tivesse o visto a tempo ele com certeza teria ouvido algum comentário rabugento que Elizabeth jamais faria.

Tossindo a jovem se afastou sentando na cama macia da felina derrubando os ombros tentando ignorar o olhar dele.

— Que foi isso?

— Nada.

— Dava pra ouvir ele gritando daqui.

— Imagina lá embaixo então. – Rindo sem sorrir coçou as orelhas no topo da cabeça o surpreendendo.

— Você... tá be-

Antes que terminasse sua pergunta, a porta se abriu revelando o jovem alto que ela conhecia bem. Ele entrou claramente a procurando e assim que viu o rosto emburrado, sorriu.

— O que está fazendo aí? – A voz sorridente chamou a atenção dela que, ainda parada, o assistiu caminhar até a penteadeira. — Vem cá.

— Pra que? – A resposta foi automática, mas assim que viu os dois a encarar resolveu fingir que não tinha feito nada e seguir com o pedido. — Tá...

Sem jeito, se sentou a frente dele o vendo pegar uma das escova e seguir para sua juba emaranhada.

— Ainda não acredito que você saiu assim. – Riu de forma gentil como se tentasse consola-la de algo. Era a primeira vez que Sis o ouvia falando assim e, por alguma razão, teve vergonha de ver o reflexo no espelho. — E mentiu para o Vicent... Isso foi novo.

Nada do que ele falava a fazia abrir os lábios. Estava incomodada sentindo os toques gentis fazendo ruborescendo as bochechas que ele não podia ver.

— O Virgil ficou lá acalmando o Vicent. – Explicou olhando os fios brancos tomarem vida e se tornarem brilhantes a cada escovada. — Você sabe que se tiver algo de errado pode me falar, certo?

Os dois eram amigos há muito mais tempo do que Elizabeth o conhecia, mas essa era a primeira vez que isso aconteceu. A voz doce sobre sua cabeça a fazia pensar em um sorriso amigável que não foi destinado a ela. Sentiu inveja.

— Liz?

Quando dito assim, seus nomes eram até parecidos, mas o tom que usava distinguia bem quem ele chamava. Por alguns instantes isso fez seu coração doer.

— Ah... Eu tive um pesadelo. – Não teve ânimo para responder e nem para fingir.

— Quer falar sobre isso?

— Não...

Ele assentiu continuando em silêncio com o trabalho até finalmente deixar as madeixas brilhantes e volumosas como deveriam ser.

— Pronto. – Sorriu a vendo levantar o rosto e mostrar os enormes olhos incertos. Elizabeth normalmente estaria sorrindo, mas ela só conseguia se olhar se perguntando o motivo daquilo. — Está linda. – Ele não tinha qualquer intensão em seu elogio a não ser alegra-la, contudo, a única palavra fez o coração dela disparar desesperado. Não estava acostumada a ouvir isso, na verdade, nunca ouviu. — Agora espero que você esteja preparada pra encarar ele.

— Por que? – Desviando o olhar a jovem levou a mão ao peito tentando não mostrar a confusão dentro dela e ignorar a vontade de empurra-lo para longe.

— Seu treino. Ele vai pegar pesado com você hoje.

— Ah... – apesar de ainda estar eufórica ela conseguiu acompanhar suas palavras e se lembrar que a garota tinha rotina para seguir todos os dias. — Claro.

— Vai ficar tudo bem. – Afirmou a vendo se levantar procurando por algo pelo quarto. — Sua roupa tá ali se é isso...

— Ah, é, valeu.

Sem esperar nem mais um minuto ali, Sis pegou as vestimentas saindo correndo daquele cômodo deixando os dois em silêncio com suas dúvidas para trás.

Após se aprontar com a legging irritante e a regata justa, seguiu rumo a piscina nos fundos da casa.

Somente aquela área dava o tamanho três vezes maior que sua casa inteira, não que ela se importasse em andar, mas aquilo só aumentava o espaço para a solidão.

Ela levou alguns minutos para percorrer o caminho todo até chegar ao homem que ansiava por vê-la próximo a inúmeros itens para treinos.

Sis já estava pronta para ficar emburrada o tempo todo, porém assim que viu Daichi encostado no canto sua reação foi correr assustada se agarrando ao braço de Vicent.

— O que-

— Ele vai ficar aqui? – A jovem sussurrou encarando o maior.

— O que eu fiz?! – Tão frustrado quanto assustado com a atitude, Daichi gritou a fazendo recuar novamente. — Eu te assustei? Fiz algo dormindo? Me fala!

— Daichi! – Sem perder a expressão séria, Vicent chamou o fazendo se calar. — Ela precisa treinar, depois falamos disso. – Sua postura ereta transmitia enorme poder mostrando que estava fazendo seu melhor para manter a paciência deixando o mais velho sem opção a não ser sair dali relutantemente. — Certo.

— Obrigada...

— Agora. – Ignorando o comentário da garota ele se virou com lentidão. — Vamos treinar. – O olhar que a via de cima não era o mesmo preocupado do momento em que voltou para casa, esse olhar era maligno e deixava claro que a hora da punição havia chegado.

• • •

Enquanto isso na outra casa, Elizabeth ainda estava se esforçando para descobrir o que a feiticeira fazia em seu dia a dia.

Ela passou a manhã toda observando os outros moradores, os seguindo de um lado a outro e perguntando discretamente se deveria fazer isso ou aquilo. Tanta insistência acabou trazendo incomodo para uns e preocupações para outros.

As coisas só foram melhorar para ela depois do almoço quando exausta desistiu de perguntar e apenas se sentou na cama tentando ser o mais agradável possível. Nesse momento Naoki e Nightmare, melhores amigos da raposa, já tinham chegado e nada do que ela fazia era capaz de os fazer parar de encara-la.

— Eu não sei, mas tem algo diferente em você. – O maior dos dois comentou coçando o cabelo roxo enquanto analisava seu rosto tenso.

— Por exemplo?

— Não sei explicar, mas tá errado isso.

O sorriso no rosto da garota quase tremia de nervoso. Ela não tinha qualquer proximidade com os dois e mesmo assim tinha que os aguentar sentados na mesmo cama que ela enquanto recebia olhares de todos os cantos do quarto julgando seu comportamento.

— Algum bicho deve ter picado ela. – Do ninho na parte superior de uma das camas, Endo comentou deitado. — Tá toda esquisita desde que acordou.

— Eu... – ela queria perguntar o que estava fazendo de errado, mas sabia que se fizesse isso iria se entregar e, talvez, causaria ainda mais confusão.

— Não está esquisita. – Nightmare comentou a vendo suspirar. Era óbvio que as coisas não estavam no seu estado mais normal, entretanto ele não queria que a jovem se sentisse mal por nada disso. — Mas parece que está se esforçando pra parecer normal.

A voz dele era tão gentil que a confortou no meio daquela barulheira a fazendo sorrir novamente.

— Tem isso! – Naoki gritou ao perceber o que tinha de diferente ali. — Você tá-

— Desculpa! – A porta da frente se abriu trazendo a voz conhecida pelo corredor se aproximando com passos rápidos. — Aconteceu umas coisas e acabei atrasando.

— Thony! – Ele nem tinha entrado direito no quarto quando ela gritou pulando da cama e correndo em sua direção desesperada, porém assim que se aproximou o suficiente para abraça-lo, parou. — Ah...

A Sis não faria isso, pensou o vendo a encarar sem entender. Os grandes olhos arregalados e a boca aberta tremeram em pânico sem saber o que faria para sair dessa situação.

— Que foi?

— Nada! – A gagueira era visível aos olhos descrentes que os assistiam, mas mesmo assim tentou mentir. — Eu... É que... Demorou né.

— É, né? Eu tinha coisa pra fazer em casa. – Rude como costumava ser, respondeu a fazendo se afastar assentindo. — Mas, tá, o que estão fazendo?

— Tentando entender o porquê a Sis tá esquisita. – Gael respondeu vendo os dois se sentarem.

— Não tem o que entender. – Thony provocou mostrando o sorriso de canto que sempre a fazia perder a paciência. — Ela é esquisita.

— Pera, cala a boca. – Naoki gritou balançando os braços interrompendo a conversa antes de se virar para ela. — É esse sorriso!

— Que?

— Você sempre ri da nossa cara, mas dificilmente sorri... – ao apontar isso todos olharam, até mesmo Endo que parecia não se importar — e... eu não sei, mas tá faltando algo.

Somente esse comentário foi o suficiente para fazer todos continuarem a procurar por mais erros, mas Thony foi o único que reparou nas orelhas abaixadas e nas mãos nervosas se apertando como uma criança tomando bronca.

— Você – ele começou se destacando dos resmungos — comeu chocolate?

— Não. – A resposta fez quase todos se calarem surpresos a confundindo. — Eu não posso, né?

— Desde quando?

— Por que?

Para ela essa era a resposta correta, afinal tanto ela quanto a feiticeira eram animais e comer essa guloseima estava fora de questão. Entretanto ela estava errada sobre Sis.

Enquanto eles questionavam a encurralando de todos os lados, Thony só conseguiu rir entendendo agora o mistério óbvio que a casa dele enfrentou a manhã toda.

— Eu esqueci uma coisa em casa. – Se levantando, o rapaz explicou o que faria. — Já venho, tá.

— Não Thony, não. – Desesperada e ainda mais assustada com tudo que estava acontecendo, Elizabeth implorou se segurando ao braço dele e ignorando os limites que tinha se imposto até o momento. — Por favor.

Era estranho para ele ver o rosto da feiticeira tão tristonho fazendo um pedido desses, mas isso também só deixou mais claro o que já desconfiava.

— Eu volto. – Colocando uma mão sobre a dela, ele suspirou antes de sorrir gentilmente.

Sem esperar mais ou querer ver o rosto enfurecido de Naoki, ele saiu a deixando ali para enfrentar as perguntas sozinha.

• • •

A garota estava sentada no corredor do andar superior com as costas apoiadas na parede gelada ainda sentindo as dores dominarem seu corpo inteiro depois do treino intenso. Ela nem se preocupou em trocar a roupa suada, nesse momento só queria que o dia acabasse logo e pudesse voltar para sua vida.

Entretanto ao ouvir passos acelerados que pareciam seguir em sua direção, foi obrigada a se afastar de seus lamentos e forçar a se levantar para tentar fingir mais uma vez. Porém assim que viu o rosto de Thony ela se acalmou.

Ao encontra-la com olhos tão incertos o rapaz não resistiu o riso que saiu a surpreendendo.

— Eu sabia que tinha algo de errado. – Falou a vendo dar um passo para trás se apoiando na parede mais uma vez.

— O que foi?

— Eu passei a manhã com você e não vi um sorriso. – Caminhando para frente se aproximou enquanto retomava o fôlego da corrida. — E a Liz, – se interrompeu com um riso curto — ela sorri o tempo todo. Agora cheguei na casa da Sis e – seus pés pararam bem em frente dela olhando para os olhos curiosos que antecipavam o final da estória — ela não parava de sorrir.

— E daí? – Mesmo tendo certeza que tinha sido pega, ela ainda tentou desviar o olhar falando teimosamente. — Ela não pode estar feliz?

— Pode, claro, mas teve outra coisa.

— O que?

— Ela disse que não pode comer chocolate. – Foi só ouvir sua resposta que a garota fechou os olhos sem conseguir disfarçar sua decepção. Ele, entretanto, só conseguiu sorrir como vencedor. — Coincidência né?

— Você é um saco. – Cruzando os braços falou bufando do jeito que sempre fazia enquanto ele relaxava os ombros. — Nossa, ela é muito burra.

— Você sabe que fez tudo errado também, né?

— Mas ninguém me pegou. – Afirmou o encarando. — Ah, olha, era pra ser divertido e eu tô aqui toda acabada.

— Sei.

— É sério! E, oh, como foi que você descobriu? Porque ainda podia ser tudo coincidência.

— Ah, tá, como se algo nessa vila fosse coincidência. – Respondeu amargurado a vendo concordar. — E, outra, a gente já tinha falado sobre a mudança de corpo existir. Eu só não tinha visto.

— Verdade...

— Tá, mas como que isso aconteceu?

Sem mostrar ânimo ou qualquer sentimento Sis explicou tudo o que pôde desde o momento que acordou até as decisões que tomaram para acabar ali dessa forma.

— Que medo... – comentou a vendo dar de ombros bocejando — mas é engraçado.

— O que?

— Agora eu tô vendo você aqui, não a Liz. – As palavras fizeram a jovem olhar para seu rosto vendo o olhar calmo e um sorriso gentil que desconhecia. Dessa vez era um sorriso para ela.

— E eu tô vendo um otário. – Irritante como sempre, respondeu sorrindo de volta. Thony tinha visto o sorriso minutos atrás no rosto da feiticeira, mas só esse era dela de verdade.

Em meio ao clima amigável entre eles, barulho altos do que pareciam ser vozes vindas do piso inferior os fizeram se calar tentando entender o que estava acontecendo.

— Que isso?

— Vamo ver. – Acostumado com esse tipo de coisa em casa, Thony sugeriu já saindo na frente, porém parou assim que escutou os resmungos da jovem. — Que foi?

— Esse treino idiota!

— Eu avisei.

— Ele sempre faz isso quando tá bravo com ela? – Se aproximando ela se apoiou no ombro dele o puxando para baixo para dar apoio.

— Não, nunca. – Sem se importar o jovem a ajudou a caminhar enquanto respondia. — É que ele tava teimando que você era na verdade o Kalevi.

Por um instante ela parou de andar o encarando sem palavras enquanto ele só ergueu as sobrancelhas como se já estivesse acostumado com esse tipo de coisa.

— Nossa.

A escada larga e longa já era o suficiente para tomar tempo e os passos lentos deles não ajudava a diminuir essa demora. Entretanto conseguiram alcançar a metade do caminho a tempo para ainda ver a discussão que acontecia ali.

Na entrada onde Sis tinha sido questionada inúmeras coisas pela manhã, eles viram Vicent e todos os outros moradores juntos conversando vigorosamente com dois convidados ali.

Descendo mais um pouco puderam ver os rostos desses dois que fizeram a feiticeira automaticamente escancarar a boca e baixar as sobrancelhas incrédula.

— Ah, olha se não é a Elizabeth. – O som dos passos não era alto, mas a perspicácia de Vicent foi rápida em notar suas presenças o fazendo falar sarcasticamente alto.

Thony não parecia mostrar qualquer importância com a situação, entretanto continuou acompanhando a jovem até o final dos degraus enquanto ela mordia os dentes.

— Tinha que ser, né. – Se afastando do rapaz Sis comentou podendo ver melhor o rosto sério do alto caçador Jyrki na porta ao lado de seu verdadeiro corpo de face tristonha. — Como descobriu?

— Fui na sua casa entregar biscoitos que o Anthony fez e vi que não era você. – O homem mais velho não estava impaciente e menos ainda irritado apesar da expressão sugerir isso, ele simplesmente contou que ao chegar lá e ver o sorriso destinado a ele o fez notar automaticamente o que estava errado.

O homem estava com a feiticeira desde que a jovem nasceu então era natural que notasse quando coisas estranhas acontecia com ela, entretanto, apesar de Sis não notar, aquilo fez Thony perceber a semelhança nos instintos entre Jyrki e Vicent.

— E você nem pra disfarçar?! – Gritou se virando para Elizabeth que parecia envergonhada de estar ali.

— O que eu poderia fazer?

— E eu que sei?! – Rebateu rápido antes de se voltar para Jyrki novamente. — Oh, mas os biscoitos estão lá?

— A questão é: – interrompendo as discussões desimportantes, Vicent gritou chamando os olhares — o que aconteceu? E que irresponsabilidade é essa em não ter contado?!

— A gente não sabe, tá?! Só aconteceu. Tô cansada de repetir isso... – Sis foi a primeira a responder finalmente podendo mostrar suas expressões entediadas de palavras puxadas que nunca pareciam se importar. A visão da raposa falando com o rosto da felina fez com que todos encarassem incomodados. — Eu achei que ia ser divertido aproveitar.

— Divertido?!

— É, mas foi uma droga. Eu não aguentava mais ouvir vocês perguntando se eu tava bem. – Cruzando os braços falou irritada antes de soltar um alto suspiro. — Que saco!

— Vicent, eu concordei com a ideia. – Mais estranho do que ver o rosto de Elizabeth olhando torto e falando coisas grosseiras, era ver a expressão culpada de Sis enquanto sua mão gentilmente tocava o peito como se mostrasse seu arrependimento. — É culpa minha também.

O silêncio tomou conta da sala enquanto eles observavam as garotas intrigados. Todos estavam confusos vendo a troca acontecendo diante de seus olhos, entretanto isso também respondia todas as perguntas que passaram por suas cabeças o dia todo.

— E agora? – Depois de um suspiro tentando acalmar seus nervos, Vicent questionou.

— A gente espera. Só isso que dá pra fazer. – Sis respondeu jogando os ombros deixando claro que também estava cansada e afastando de uma vez qualquer outro questionamento que tinham.

Levou algum tempo para se acalmarem e decidirem o que fariam depois disso. Vicent queria falar com alguém experiente no assunto de magias imediatamente e desfazer essa loucura, entretanto depois de Sis insistir tanto que aquilo não era necessário dando provas de suas experiências passadas, o rapaz acabou desistindo aceitando esperar até o amanhecer antes de tomar uma atitude.

Já era tarde quando as discussões acabaram e apesar de terem concordado que Sis dormiria ali por conta do corpo da felina, Elizabeth acabou ficando bastante tempo na casa antes de decidir voltar para o lar da feiticeira.

Sentada no sofá ela pôde pela primeira vez naquele dia respirar aliviada se sentindo ela mesma.

— Queria ter visto a cara do Endo quando descobriu. – Ao lado dela, Sis comentou se jogando para trás no grande sofá branco.

— Ele ficou agitado. Gritando. – Apesar de estranhar a atitude da feiticeira, Elizabeth respondeu as dúvidas mostrando um sorriso contente que segurava sua risada educada. — Já o Naoki ficou feliz por saber que te conhecia bem.

— Eh...

Logo em seguida o silêncio caiu leviano sobre elas as lembrando de onde estavam e quem realmente eram. Seus olhares rodearam a casa carregando sentimentos diferentes, mas talvez os mesmos pensamentos que questionavam tudo o que tinha acontecido naquele dia.

— Você pode ser uma otária, – Sis começou a falar sem olhar no rosto curioso que quase automaticamente se virou para ela — mas é difícil ser você. Não consegui.

Ela falava calmamente, porém havia um peso invisível em sua voz que deixava claro que aquilo não era sobre a rotina pesada de exercícios ou as dietas para manter a vida saudável. Estava mais para algo que Elizabeth não poderia facilmente ver.

A raposa estava acostumada a sair por aí correndo por horas fosse por brincadeira ou por conta de um mostro a perseguindo, também não se importava em ter que lidar com ordens ou criaturas insistentes, mas não estava acostumada no mínimo em receber elogios ou ver olhares preocupados com seu bem-estar. Isso, sim, era difícil.

— Eu não sei o que dizer sobre sua vida, – Elizabeth interrompeu o silêncio falando com seu tom gentil de sempre fazendo a outra a encarar despreocupada — mas você deve ser muito forte. – Apesar da jovem não ter entendido por completo o que Sis disse antes, ela acabou se expressando da mesma forma. A vida da feiticeira não era difícil para a maioria dos moradores ali, afinal todos treinavam pesado e saiam em missão quase diariamente, entretanto nem todos estavam sozinhos como Elizabeth se sentiu no corpo dela. Para ela a pior parte daquele dia não foi ter que fingir ser quem não era, mas precisar sentir a solidão e a distância com qualquer tipo de afeto. Ela não sabia se isso era algo que a feiticeira queria ou se tinha simplesmente acontecido na vida dela, não quis magoar ao perguntar, entretanto Sis entendeu. — É difícil, mas você tem ótimos amigos.

— Ah... Você também.

• • •

No dia seguinte a felina acordou e a primeira coisa que viu foram os rostos curiosos dos sete esperando pela reação dela. Ao notar que estava de volta em seu corpo ela sorriu correndo em direção aos homens para abraça-los.

O mesmo aconteceu com a feiticeira só que não havia sete rostos ali, somente o alivio em estar de volta em sua cama a fazendo rir antes de encontrar o olhar curioso de Endo na cozinha.

— Passou vergonha ontem. – Falou alto o fazendo revirar os olhos, porém com um leve sorriso no rosto. – Otário!

— Achei que não ia mais ouvir isso.

— Fim. XV

Notas finais
Assim como a ideia da Sis era de se divertir essa fic era pra ser só engraçada, mas eu acabei ficando triste. Bom, pelo menos elas se falaram normalmente e quem sabe daí possam se olhar sem torcer o nariz. É claro que a Sis é teimosa e não vai aceitar ficar com a Liz nunca, porém ela também sempre disse que não é amiga da Foxy, mas em casa só fica com ela :D Eu também imagino as duas trocando farpas o tempo todo e mesmo assim sentando uma ao lado da outra pra olhar as estrelas ♥ Amanhã tem mais!