Contos - Aventuras Mágicas
17 Medo do escuro
Notas iniciais
Outro dia...
A floresta estava mais escura do que o normal para o início de uma noite tão limpa como esta. Foi o que a jovem Akaji pensou enquanto caminhava pelas folhas secas do outono da floresta com bolsas de pano pesadas nas mãos seguindo o rumo de volta para casa.
Era comum para um lugar fechado por árvores altas fazer a noite parecer como uma caverna sem fim, entretanto isso não impedia a mulher de resmungar pedindo a lua que saísse de trás das nuvens e a ajudasse a enxergar onde estava pisando.
Não era como se ela não conseguisse ver nada, mas a falta de claridade desorientava os caminhos a fazendo se perguntar a todo momento se já não tinha passado por aquela árvore ou se a pedra em que acabou de tropeçar não era a mesma que tinha desviado minutos atrás.
Era isso o que o escuro fazia. Deixava o medo dominar o corpo trazendo perguntas que só serviam para confundir ainda mais aquilo que não conseguia ver. Akaji entendia bem sobre isso e, mesmo assim, sempre caía em suas armadilhas.
Estava tentando não se sufocar em preocupação quando começou a se irritar lembrando que não deveria ter se demorado tanto nas compras conversando com os comerciantes que mais a atrapalharam do que ajudaram naquela cidade. Esse era seu melhor mecanismo de defesa também, sempre que algo a fazia tremer ela tentava desviar o foco com gritos de incomodo. Entretanto, dessa vez, desviar sua atenção só a fez esquecer de onde estava e com mais dois passos à frente acabou trombando com algo grande que a jogou para trás.
O impacto a fez forçar o peso em suas pernas para evitar a queda brusca naquele chão duro antes de poder se virar para ver o que tinha acontecido. Apesar de estar amedrontada seus olhos procuraram pela causa do problema com fúria como se estivesse pronta para atacar, porém assim que viu quem era pôde soltar o longo suspiro revelando a alta tensão que tomava seu corpo.
— Belial? – Com olhos arregalados ela chamou pelo nome assim que notou o longo cabelo ruivo se sobressaindo no escuro da noite. A mulher não respondeu, apenas ficou parada na mesma posição respirando rápido como se também estivesse surpresa. — Cê quase me mata de susto!
— Você nem morre. – Rebateu rápido deixando os ombros caírem com o cansaço.
— Ai... – O suspiro veio acompanhado do balançar suave de cabeça frustrado com a situação. — Que tá fazendo aqui?
— Não interessa.
— Interessa depois do golpe que levei desses peito. – Reclamou cruzando os braços vendo a outra revirar os olhos a ignorando por alguns instantes. — Oh, Belial!
— Tava voltando pra casa. – Respondeu de uma vez no tom mais alto e rude que pôde, porém não afastou Akaji como queria.
— Tava?
— É... Mas agora eu já não sei onde estou.
— Como é?! – A frase da ruiva nem tinha tanta preocupação, mas foi o suficiente para fazer a maior se virar de um lado a outro olhando cada canto desesperada. — É sério?
— É! – Gritou em resposta trazendo o olhar da outra para ela. Foi aí que Akaji entendeu o motivo de não querer falar o que fazia, afinal soava ridículo alguém como Belial estar perdida em uma floresta como esta.
— Eu não vou rir de você porque tô na mesma situação. – Suspirando vendo as árvores de troncos grossos ao redor, falou incomodada. — Que droga! Por que tá tão escuro?
Sem paciência para aquela falta de sorte, Akaji gritou deixando sua frustração ecoar pelo silêncio sombrio do local. Não foi um som longo, mas ainda foi mais do que necessário para fazer a floresta responder de volta com barulhos de galhos quebrando a todo o redor.
Era óbvio que havia algo ali, sempre tinha, fosse alguma besta fugitiva dos portões Mundanos ou uma criatura mística doente por proteger o território.
Belial não se moveu permitindo seus instintos procurarem por alguma pista de onde vinham os ruídos, Akaji, entretanto, só conseguiu dar passos para trás sem conseguir disfarçar o terror em seu rosto.
— Eu não sei você, peitos, mas eu não quero ficar parada aqui. – Engolindo em seco, declarou deixando claro que iria começar a correr no próximo passo.
Ela não quis discutir e menos ainda insistir em ficar naquele ponto óbvio para o que quer que estivesse as esperando agarra-las com facilidade. Com passos lentos e cuidadosos, saíram dali em busca do caminho certo mais uma vez.
—
Seus pés vagarosos faziam o máximo possível de esforço para desviar de todo graveto que encontravam e até mesmo evitavam se arrastar pela terra com medo de que um mísero som pudesse atrair todo o mal para cima delas.
Ainda não sabiam onde estavam, mas tinham certeza de que precisavam encontrar algum local aberto o suficiente para conseguirem ver o céu. Foi com essa ideia que acabaram chegando ao lado mais extremo da floresta onde árvores afastadas formavam um círculo aberto, entretanto aquele espaço não tinha tanta luz quanto esperavam, apenas assegurando que a lua ainda estava alta no céu e, dessa forma, o plano de não chamar atenção foi por água abaixo.
Agora exposta em área aberta as duas podiam ouvir os sons que sussurravam em todos os cantos aumentando dizendo que havia alguém no escuro ao redor daquelas árvores.
— Você... – engolindo rispidamente Akaji começou a falar sem conseguir nem piscar — consegue lutar? Eu só sei me defender.
— Claro que consigo!
— Ótimo.
Com medo ela se virou buscando encontrar o mínimo de conforto no rosto da ruiva, porém a única coisa que viu pela luz da lua foi uma mulher encolhida respirando com dificuldades.
— Por que você tá tremendo? – Perguntou em pânico a vendo tomar um tempo antes de se virar para encara-la com olhos inseguros.
— Já faz muito tempo que saí em missão e que matei algo... que... – Mal conseguia completar suas frases sem acabar sendo interrompida pela agitação em seu peito.
— Não se desespera! – Era claro que a menor já estava em estado de terror e ainda mais irritada consigo mesma deixando Akaji ainda mais preocupada. — Se você entrar em pânico, o que que eu vou fazer?
No meio da conversa o silêncio dominou o local com um frio incomum. Akaji automaticamente parou frisando seu olhar no escuro a frente sem saber de que lado deveria esperar o que estava vindo. Tudo isso podia ter sido somente obra do vento pelos galhos ou qualquer outra coisa natural da área, mas mesmo assim seu corpo não conseguia acreditar nessas ideias.
Um novo barulho surgiu e dessa vez parecia com passos pesados próximos. A mente de ambas foi invadida por imagens terríveis no escuro enquanto seus ouvidos se entupiram com os sons que seu cérebro a fazia acreditar. Estavam sendo inundadas pelas correntezas do medo sem poder ter certeza do que poderiam fazer.
Foi como um flash as despertando da paralisia que dois olhos enormes surgiram entre as árvores brilhando como uma joia banhada em sangue. Akaji nem se permitiu pensar e rápida como sempre agarrou o pulso da outra a forçando a correr dali em busca de um esconderijo que nem sabia se existia.
Era terrível saber que havia uma criatura correndo atrás delas com vantagens na escuridão e era ainda mais assustador saber que estavam perdidas e todo lugar que passavam era semelhante ao anterior. Diante dos olhos da maior não havia nada além do medo embaçando sua visão, mas mesmo assim em nenhum momento Akaji soltou o pulso da outra e em nenhum momento elas pararam de correr.
Demorou, ainda mais com os gritos da fera quase alcançando suas nucas, mas encontraram uma brecha entre rochas em que a maior rapidamente se esgueirou escondendo suas presenças do desconhecido que seguiu reto em caminho para o nada.
Finalmente, depois de ouvi-lo se afastar, elas puderam derrubar os ombros e se soltarem sentindo o frio das paredes úmidas diminuírem o terror em seus corpos.
Belial ainda em choque deixou a força de seu corpo cair a jogando no chão tremula pelo terror em seu peito. Anos haviam se passado desde que viu uma fera daquele tamanho tão de perto, mas o medo que sentia delas ainda continuava vivo em cada parte de sua mente. Akaji, entretanto, não se permitiu sentar até ter certeza que seus olhos não captavam nenhum fragmento do inimigo por perto daquele abrigo.
Só depois de checar tudo e não ouvir nada que ela se virou vendo a menor sem folego no chão. Sua primeira reação foi suspirar mostrando claramente que estava irritada com a atitude, porém seus braços tremendo como se estivesse sendo eletrocutada deixava óbvio que estava tão aterrorizada quanto ela.
— Oh, Belial, tem como me ajudar? Eu tô cheia de compras aqui pra ficar te carregando comigo! – Sua voz alta e irritada tentou chamar a atenção, porém o tremor em seus ossos não parava de denunciar seus verdadeiros sentimentos.
Sem receber resposta ela finalmente jogou as compras no chão deixando seu corpo se sentar no canto e absorver de um vez o medo da morte que a dominava.
Belial percebeu os movimentos e quase sem força virou a cabeça vendo Akaji abraçar os joelhos tendo os olhos marejados enquanto ofegante parecia repetir algum mantra silencioso. Estava aterrorizada, era óbvio, mas diferente da ruiva ela estava pronta para se levantar novamente e correr.
— Você não tem medo? – Perguntou enfraquecida. Ao ouvir aquilo Akaji virou o rosto a encarando como se não acreditasse no que ouvia.
— Não tá vendo? Eu tô morrendo de medo! Ah, que droga!
— Não... Você-
— Eu tô com medo daquele bicho me pegar! – Gritou interrompendo, ainda olhando para a mulher com olhos que pareciam enfurecidos, mas era como se fosse chorar a qualquer momento. — É por isso que eu corro. Se eu não quiser que ele me pegue, eu tenho que me mexer. – Sua voz se acalmou e os olhos furiosos se tornaram tristes. Belial sabia do que ela falava por isso se sentiu mal em perguntar. — De tudo o que eu vi... Eu tenho que usar o medo ao meu favor, foi o que eu aprendi. Eu disse que só sabia me defender, não disse? – A ruiva não respondeu apenas abaixou a cabeça suspirando um pouco mais calma. Akaji a assistiu por alguns instantes antes de poder voltar a falar. — Você é diferente dele, né? Não parece que tá mentindo pra mim.
— Eu não consigo ser como ele. – Como Belial supôs era de Malphas que a maior falava e apesar de ainda estar amedrontada com tudo o que aconteceu ela ainda se entristeceu sem tentar esconder seu rosto derrotado da jovem.
Era difícil para Akaji entender o motivo daquela reação. Criaturas como a fera que estava as perseguindo e o próprio Malphas eram seres repugnantes que só existiam para causar o mal na vida de todos. Claro que são fortes, mas não valiam como exemplos de força. Nem de nada.
— Isso pode ser um insulto pra você, mas pra mim... Não é melhor assim? – Se esticando mais calma do que antes Akaji comentou fazendo a outra a fitar por instantes. — Se você fosse como ele... Não teria isso tudo. Nem a Relliane.
As palavras só revelavam o óbvio, porém, ainda assim, pegaram a ruiva de surpresa. Akaji estava errada, ela precisava ser forte, ser como eles, era parte de sua natureza seguir os seres malignos, mas não podia negar que aquilo era verdade.
— É ridículo eu dizer isso quando é ele quem decide tudo por mim, mas o certo ainda é ser você mesma. – Comentou sem olhar para ela trazendo um tom gentil em sua voz. Tom que Belial nunca ouvia quando conversava com a jovem.
Ambas eram fracas e diferentes mas tinham visões parecidas. Não queriam desistir e amavam alguém por quem iriam até os fins das trevas para defender. Se não fossem teimosas, sem dúvidas, seriam melhores amigas.
Belial não tentou esconder o curto riso que escapou de seus lábios ao notar que não eram tão diferentes e que novamente estava entregando seus sentimentos a um caçador de almas. Desde que se lembrava os filhos de Morteus eram os únicos que ficaram ao seu lado e talvez fosse essa eternidade que eles guardavam que trazia tanta segurança a ela.
Sem esperar o silêncio se prolongar por mais tempo a ruiva se levantou determinada a acabar com isso pela primeira vez naquela noite. Dando um passo à frente retirou o chicote que guardava entre seus seios o estalando no chão ao seu lado e assustando a jovem no canto.
— Fica perto de mim. – Apesar de não entender a ordem, Akaji se levantou pegando as sacolas. — Você tem que voltar pra ela. E eu também.
Foi repentino a mudança daquela criatura frágil no chão que agora estava em pé cheia de fúria nos olhos. A maior não sabia exatamente como aconteceu, mas sentiu que talvez suas palavras a atingiram do jeito certo. O sorriso surgiu em seu rosto como um sinal de esperança de quem desejava que Belial não fosse invadida pelo mal como todos os outros.
— Olha onde você bate esse negócio... – Comentou a seguindo vendo os estalar contínuos próximos dela. — Eu soube o que você fez com a cara da Sis. – Belial não quis responder a provocação e por um instante quis bater a arma contra a mulher só para assusta-la, porém se restringiu a somente soltar um suspiro irritado.
Logo que saíram dali a criatura apareceu, mas dessa vez foi Belial quem a caçou. Com o chicote ela a domou e trouxe a luz para seus caminhos. Entretanto não fez isso sozinha. Akaji sabia que seu corpo iria tremer quando ficasse de frente para a fera e por isso tentou seu melhor para ajudá-la. Ambas estavam aterrorizadas e gritavam mais do que o inimigo, mas não pararam até poder finalmente estarem livres dali.
O medo ia sempre as perseguir, mas contanto que tivessem seus motivos para voltar para casa elas sempre iriam lutar. Hoje, novamente, elas provaram suas fraquezas mostrando a si mesmas as forças que guardavam. E apesar de não poderem sorrir uma para a outra, elas ainda estavam contentes de terminar isso juntas.
—Fim. XVI
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