Contos

1 Náufrago


Final do século XIX.

A época das invenções e do progresso. Onde tudo era tão novo para mim. Saída do campo, onde eu apenas conhecia das celas a cavalo e o dançar dos vagalumes no breu da noite; os carros elétricos e as lamparinas espalhadas pelas ruelas eram todos muito estranhos para minha pessoa.

Naquele momento estávamos a bordo do Caramandu, uma das mais novas embarcações de alta classe, que velejaria em rumo as terras europeias, deixando para trás, em um risco no horizonte, as praias do Brasil.

No ar, as gaivotas nos seguiam, em um cortejo de despedida. Pessoas maravilhadas observavam o deslizar da proa do navio pelas águas límpidas abaixo de nos. Crianças corriam encantadas numa brincadeira de pega, enquanto eu me deliciava apenas em apreciar cada nova beleza que me cercava, e as registravam em alguns desenhos mal jeitosos nas folhas de meu diário. Não me considerava uma artista, mas sim, alguém que gostava de eternizar as coisas belas da vida, fosse em traços e linhas, fosse em um simples poema. Tentava enxergar através de meus olhos o brilho e o encantamento que a natureza nos presenteia, mas que pela correria do dia a dia, deixamos passar.

A viagem se estendeu por dois dias, que se passaram rápidos e mal fora possível aproveitar. Aquela altura já estamos navegamos em alto mar, e nossa única companhia era a imensidão de águas salgadas. As paisagens se foram, e minha imaginação também. Sem inspirações naturais, comecei a buscar cenas que se tornavam corriqueiras a bordo do Caramandu.

E foi numa destas buscas pela arte que o avistei: era um rapaz bem afeiçoado, pelas vestimentas, aparentava ser de boa família. Seu rosto, era de tal beleza profunda que me fizera deixar meus pensamentos e colocar-me a observa-lo. Tinha um andar gracioso, elegante até. Seu sorriso me fazia suspirar, e sentir coisas que não podia explicar. E apesar dos trejeitos tão adultos, o olhar de menino por trás de uma barba extremamente bem feita e alinhada, o fazia tão jovial. Por alguns dias o observei, pontualmente, enquanto durante o final da tarde, no por do sol espelhado ele se punha a observar.

Apesar de não ter sua aprovação e de provavelmente nunca ter me notado no convés do navio, esbocei rápidos desenhos daquele que não sabia nem o nome.

Tudo parecia ir bem, até a noite do 15° dia de viagem.

O mar estava revolto e com ondas que cobriam e encharcavam o convés do Caramandu. Acordei assustada naquela noite. Desorientada, ouvia gritos de socorro, enquanto pessoas que trabalhavam na embarcação conduziava-nos para um lugar seguro. Não fora preciso muito para entender o que estava acontecendo ali. Lembro-me apenas de pegar o que era de mais importante e valioso para mim: Meu diário.

Todo o navio estava em alvoroço. Pessoas desesperadas, com as faces retorcidas em medo e choros. Era um verdadeiro pandemônio. Tentava seguir minha família sem perde-los de vista. Um barulho estrondoso escoou atrás de mim, no mesmo momento em que toda a embarcação sacudiu bruscamente. Vi-me suspensa entre o bote salva vidas que se encontrava lotado e o casco do veleiro. Senti minhas mãos fraquejarem e escorregarem pelo vão que me levaria a morte, quando uma força maior envolveu-me pela cintura e cuidadosamente me jogara em direção ao bote. Atordoada, procurei por quem ou o que fizera aquilo. Virei-me abruptamente, e para meu espanto, ele estava lá. O rapaz de meus desenhos parecera tomar vida do papel e materializar-se ali. Seus olhos se encontraram com os meus, e os segundos que se seguira fora uma eternidade.

Eu podia sentir todo o seu afogamento e medo encravados naqueles olhos castanhos, que agora de perto era ainda mais belos. Numa tentativa desesperada levei minha mão em direção a sua, como se tentasse fazê-lo vim comigo, não importasse aonde o bote iria parar. Mas como se entendesse minha reação, ele afastou-se, e mesmo em mãos trêmulas retirou do bolso um canivete pequeno, mas preciso, do qual usou para cortar a corda que ainda nós prendia ao navio. O bote dera um solavanco arrancando gritos e gemidos em quem o ocupava, mas eu, apenas fixava minha atenção naquela figura parada, debruçada ao lado estibordo, que conforme íamos descendo em rumo as águas geladas ia afastando-se e tornando uma silhueta cada vez menos visível. A palpitação em meu peito crescera tanto, que já não era medo do naufrágio, mas pavor de perder aquele que acabara de me salvar.

Foi quando tudo mudou drasticamente. O forte estrondo de antes voltara, agora acompanhado de um agonizante barulho de ferro se retorcendo. Então percebi que a chaminé estava se rompendo e tombando para estibordo, exatamente do lado onde estávamos descendo. Tudo aconteceu tão rápido. A parte do navio caiu lentamente enquanto mais pessoas se desesperavam e pulavam em alto mar. Quando ele tocou o convés separando-o em dois, no mesmo instante nosso bote navegava sacolejando nas águas agitadas em volta do naufrágio. Não sabia explicar como chegamos lá, uma vez que minha preocupação era encontrar Meu Salvador. E foi ali, entre alguns destroços, que o avistei na água a poucos metros da embarcação em que me encontrava. Sem pensar suas vezes, me atirei a água fria e quase congelante. Era acostumada a nadar em água rasas e calmas dos riachos da fazenda, mas ali, naquele turbilhão de imensidão que me cercava entrei em um pânico assustador.

Mesmo assim, conseguir aproximar do rapaz. Seu rosto estava tão pálido, e escondido em meio a cabeleira molhada. Procurei por suas mãos, e quando as encontrei segurei-as firme, e ele fizera o mesmo, mantendo-nos emergidos, diferente de qualquer situação de afogamento normal, onde um de nós tentaria se apoiar um no outro para se salvar.

Minhas pernas já estava dormentes, e os vastos tecidos do vestido me puxavam para baixo. A mão do Meu Salvador escorregava da minha, pois o mesmo parecia acontecer a ele. Me permitir fechar os olhos me entregando ao cansaço, percebi que ficaríamos ali, esquecidos na imensidão escura da noite.

Então ouvi quase distante, vozes a me chamar. Naquele momento não sei dizer o que aconteceu, mas sentir várias mãos agarrar-me, e o chão frio da madeira do bote, e quase no mesmo instante, um corpo frio ao lado do meu. Encontrei seus olhos a me observar em meio a respiração ofegante. Ele estava ali, tão perto e junto a mim. Ele me salvara, e eu também.

Sem entender o porquê, o abracei, sentindo seus batimentos acalmarem com meu rosto em seu peito. Seus braços me seguraram firme, e também me permiti relaxar. Olhei para cima, para ver novamente seu rosto ,confirmando que estava ali e aproveitando para ver as estrelas tão brilhantes no céu.

E foi a última coisa que pude me lembrar.