— Tá bom. Pera aí, deixa eu mesmo lembrar disso.

De repente, o jovem começou a transformar seu rosto de uma forma animalesca até que no final, toda sua cabeça era a de um elefante. Nesta forma, com corpo de um garoto, mas cabeça de elefante, ele fechou os olhos por alguns segundos e quando abriu, pôs-se a falar:

— Tô lembrando. Então, quando eu tinha um ano de idade eu imitava os sons dos animais que eu escutava, através dos meus pais ou pela tv. Ao longo do tempo, quando via mais animais eu conseguia imitá-los melhor até que comecei a adquirir aparência animal. Lembro que o primeiro que eu comecei a me transformar foi em um leão, com muitos pelos longos nascendo na minha cabeça formando uma juba. Meus pais, quando viram aquilo, se assustaram e óbvio que me levaram no médico, achando que tinha algo errado com o meu desenvolvimento. Chamei muita atenção lá no hospital, mas o médico não conseguiu descobrir o que estava causando aquilo em mim, pedindo pra meus pais me levarem lá de novo no dia seguinte. Chegando em casa, toda aquela juba desapareceu, e meus pais só ficaram mais assustados, embora que menos preocupados como antes. Eles ficaram mais cuidadosos comigo: limpavam bem as vasilhas e talheres antes da papinha, ficavam de olho em mim todo o tempo. Mais tarde, naquele mesmo dia, um homem bateu na nossa porta, querendo falar com meus pais sobre mim. Meus pais deixaram ele entrar e então aquele cara de terno e óculos escuros conversou bastante com meus pais. Eu só percebi a reação deles: surpresa, espanto, desentendimento, descrença e por fim aceitação. Depois de toda aquela conversa, o tal homem foi embora e meus pais me olharam como se pensassem em fazer algo. No dia seguinte, eu não voltei no médico, mas meus pais voltaram a me tratar normalmente, como antes. Com o passar dos anos, meus pais foram me contando e me explicando sobre eu ser um Diferente e que teria que ir estudar em uma escola especial. Lógico que eu amei isso e como de vez em quando já tentava imitar bichos, depois de saber desse meu poder, aí mesmo que passei a usar mais ele pra me transformar nos animais e até brincava assim em casa.

O jovem então desfez sua transformação parcial de elefante e voltou a falar:

— Acho que o que meus pais ouviram daquele homem de terno tinha sido tudo isso que eles me contaram aos poucos. Também falaram sobre o ônibus que viria me buscar pra me levar até a E.N.D. Eles me levaram até o local, onde o ônibus apareceria nos primeiros dias, e depois eu comecei a esperar lá sozinho. E é isso.