— Cara eu não lembro direito, mas um dia quando eu tinha uns seis anos, eu acho, eu tava chorando bastante e quando minha mãe se aproximou pra tentar me acalmar, ela viu que tinham umas coisas estranhas na minha pele. Ela achou que podia ser sujeira e tentou limpar, mas ao tocar ela se espetou. Lógico que ela estranhou né. Até chamou meu pai pra ver aquilo e ele também se espantou. Devem ter pensado que eu tinha me machucado e que tinham farpas, ou algo do tipo, preso em mim. Com medo de tirarem pra não me machucar eles me levaram correndo pro hospital mais próximo pra ver o que podia ser feito. Lá essas coisas de repente sumiram e eu já nem estava mais chorando. Um dia aquilo aconteceu de novo e lá estava eu, de novo no hospital, mas agora um médico me analisou e recomendou que marcassem um raio-x pra mim. Voltamos pra casa e novamente as coisas sumiram. Por incrível que pareça, no dia do meu raio-x, um cara de terno e óculos escuros apareceu na porta lá de casa e pediu pra conversar com meus pais. Meu pai pediu pra mim e minha irmã irmos pro quarto e depois que fomos, aquele homem começou explicar o que estava acontecendo comigo.

Até esse momento, Carlos falava aquilo de maneira calma e relaxada, mas então mudou para algo mais despojado e feliz.

— Como eu queria saber o que tava acontecendo eu dei um jeito de escutar o que eles falavam, sem que meus pais percebessem. Eu ouvi toda aquela história dos Diferentes que todo mundo já sabe. — De repente ele começou a rir envergonhadamente e continuou com um sorriso no rosto. — Aí lá no quarto, a minha irmã ficou me cutucando e me batendo, me dando parabéns e eu pedindo pra ela ficar quieta pra gente poder ouvir mais.

Carlos conseguiu finalmente segurar o riso e voltou a tranquilidade de antes.

— Aí depois de um tempo o homem foi embora e a gente saiu do quarto. Depois de um pouco de falação do meu pai e MUITA falação da minha mãe, eu fiquei no quintal fazendo uns gestos pra tentar usar esse poder. Cara, várias vezes eu tentava usar esse poder e quando não acontecia nada eu desistia, mas aí mais tarde eu me irritava com isso e voltava a tentar e as vezes funcionava, até que finalmente consegui controlar cem porcento. E é isso. — Ele na verdade finalizou com aquele riso envergonhado.

Após uma pausa na fala, ele repentinamente retomou:

— Ah, e como eu fui pra E.N.D, né? — ele se lembrou da pergunta um pouco confuso, mas tratou de responder — Ah meus pais queriam me levar até onde o ônibus me buscaria, mas meu pai não poderiaentão foi só minha mãe.

O garoto revirou os olhos e começou a falar frustrado:

— Minha mãe ficou falando o tempo todo enquanto a gente esperava o ônibus. Ah coisas chatas de cuidado e estudar direito. O de sempre. Assim que o ônibus chegou, eu corri pra entrar logo nele e de lá de dentro me despedi dela dando só um “tchau”. Quando o ônibus começou a andar, eu fui mais pro meio e sentei em um banco que tava vazio, esperando ficar sozinho ali, quieto, na minha, até chegar na tal escola, mas foi aí que depois de um tempo o Dante entrou e o resto vocês já sabem.